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Jovens da Amazônia brasileira estiveram reunidos em Manaus/AM, entre os dias 07 e 09 de setembro, na escuta para o Sínodo da Amazônia. Em atividade realizada pela Rede Eclesial Pan-Amazônica/REPAM-Brasil, os 30 representantes, de uma diversidade de grupos juvenis, refletiram sobre o Sínodo e responderam ao questionário do Documento Preparatório.

Pastorais, movimentos eclesiais e sociais, congregações religiosas, comunidades indígenas e quilombolas estiveram representadas no encontro de escuta. Felipe Fialho, de Manaus/AM, secretário regional da Pastoral da Juventude no Norte 1, afirmou que a pluralidade de experiências reunidas enriqueceu a atividade. “A gente vê que, mesmo cada um tendo uma identidade, uma espiritualidade e um jeito de ser diferente, quando nosso olhar se volta para a Amazônia é um sonho comum”, pontuou Fialho.

De acordo com a jovem Krisla Ripardo, de Rio Branco/AC é preciso, nesse processo sinodal, ter um olhar amoroso, cuidadoso e esperançoso para com a realidade da Amazônia, o que permite não apenas enxergar aspectos negativos, mas ter uma atitude de contemplação. “Nós olhamos a realidade, vemos o que ali tem sido desenvolvido pelas pastorais, grupos e movimentos e potencializamos esses trabalhos”, afirmou a jovem.

Os seis regionais da CNBB que estão no território da Amazônia Legal estiveram representados no encontro. Rodrigo Fadul, da equipe de Formação e Métodos de Acompanhamento Pastoral da REPAM, um dos organizadores da atividade, destacou o espírito de liderança dos participantes da atividade, que responderam ao questionário de forma consciente, crítica e visando contribuir, de forma efetiva, com o Sínodo. “Nós respondemos aqui 12 questões do questionário, com todo um processo construído coletivamente. Os jovens escolheram as questões, refletiram sobre elas, refletiram as respostas, construímos juntos aqui a síntese, o processo foi participativo e para mim o resultado é positivo”, avaliou Fadul.

 

Dinâmica da escuta

Jovens estudam e refletem a encíclica Laudato Si’

O encontro começou com um resgate da história da atuação da Igreja na Amazônia. Passando pelos diversos marcos, como o Encontro de Santarém, do ano de 1972, e as Campanhas da Fraternidade que trataram dos povos indígenas e da Amazônia, a juventude foi convidada e fazer memória dos momentos e recordar os impactos das atividades na realidade local de cada um.

“É importante entender que o Sínodo não surge como um evento deslocado da história”, destacou Ir. Ronilton Neves, religioso marista e membro da equipe REPAM-Juventudes. De acordo com Ir. Ronilton, a assembleia sinodal vem responder à demanda eclesial do nosso tempo e, segundo ele “exige de nós comprometimento e responsabilidade histórica”, enfatizou.

Num segundo momento, a juventude reunida reconstruiu o mapa da Amazônia legal destacando os rios, as cidades dos presentes na atividade, os povos indígenas de cada localidade, as belezas da criação, as ameaças e os projetos positivos já em curso em cada território.

Estudar e discutir a Encíclica Laudato Si’ fez parte das atividades da escuta. Para preparar o grupo e situá-lo no contexto da Ecologia Integral, Ir. Joao Gutemberg, da equipe de Métodos Pastorais e Formação da REPAM, contribuiu com a reflexão dos jovens. “Nos apropriar do vocabulário da Laudato Si’ nos ajuda a entender melhor as questões socioambientais e nos empodera nas discussões que precisamos ter aqui e nos espaços em que atuamos”, chamou à atenção ao grupo, Ir. Joao.

No segundo dia de trabalhos, o grupo reunido em Manaus teve acesso ao Documento Preparatório do Sínodo. Individualmente e em pequenos grupos, os jovens estudaram, refletiram e discutiram as temáticas presentes nele. A jovem Ariany de Oliveira, da Juventude Redentorista e membro da coordenação da Pastoral Juvenil da CNBB, participou da atividade e falou ao grupo do Sínodo da Juventude, buscando integrar os dos sínodos convocados pelo Papa Francisco. “É importante trazer esse olhar do protagonismo juvenil em todas as dimensões da Igreja e da sociedade”, afirmou Ariany.

Diego Arapium, jovem indígena paraense, apresentou as discussões realizadas em Roma, por ocasião do Fórum em celebração aos 3 anos da Laudato Si’e falou da importância do Sínodo paras as populações tradicionais. “É um momento histórico para gente, de saber que a Igreja quer continuar seu trabalho, mas de uma forma diferente, respeitando principalmente a nossa cultura e a nossa espiritualidade que trazemos há milhares de anos”, destacou Diego. Para Arapium, os maiores desafios enfrentados pelo seu povo e a população indígena estão relacionados à questão ambiental, principalmente a terra. “Hoje nossas terras estão todas paralisadas, elas não estão demarcadas e nós estamos sofrendo ameaças direto”, afirmou Diego, que acredita numa ação da Igreja mais próxima da luta dos povos indígenas.

Em seguida, os jovens destacaram algumas das questões do Documento preparatório e responderam ao questionário. Uma síntese das respostas foi feita, na manhã do terceiro dia, e uma carta aberta à Igreja e à sociedade. No texto, que reflete as respostas ao questionário, os jovens indígenas, caboclos, ribeirinhos, quilombolas, extrativistas, habitantes da zona rural e urbana, moradores das periferias e das fronteiras, afirmam que são “afetados diretamente pelas ameaças que dia a dia excluem, matam, degradam e cerceiam a vida dos povos”.

Carta da juventude de Amazônia brasileira

Participantes da escuta pedem à Igreja que acredite na beleza da novidade que a juventude traz.

Ainda na carta, denunciam “os grandes projetos como a construção de hidroelétricas, a exploração do minério, as indústrias, garimpos, contaminam nossos rios, invadem nossos territórios e nos condenam a uma vida sem qualidade e plenitude atestando a ausência de políticas públicas e de adequada regulação do Estado. O livre acesso nas fronteiras ameaçam a vida das mulheres, crianças e adolescentes que são exploradas, abusadas, traficadas e prostituídas para atender uma lógica que transforma as pessoas em mercadorias. O narcotráfico, o extermínio dos jovens nas cidades, os problemas relacionados à saúde mental e suicídio são ameaças em nossa realidade particular. A desvalorização e banalização dos elementos da cultura indígena, a falta de agilidade nos processos de demarcação dos territórios, o infanticídio causado pelo avanço do agronegócio, a imposição da religião cristã representam graves problemáticas à vida dos povos indígenas, a quem devemos ter um olhar especial durante este Sínodo”.

Pensando na Igreja com rosto amazônico, a juventude da Amazônia brasileira afirma querer que ela seja “inculturada, que respeite a diversidade da juventude dos povos amazônicos, que resistem e assumem as lutas nos diversos espaços em que estão inseridos”. E pedem “à hierarquia eclesial e a todo o povo de Deus, coragem para responder aos desafios do nosso século e que possam acreditar na beleza da novidade que a juventude traz”, afirma o texto.

Os jovens encerram a carta manifestando apoio ao Papa Francisco, cujo pontificado “lança sopros de alegria e novidade no seio da Igreja no processo de escuta do Sínodo da Juventude e Sínodo para a Amazônia”, dizem os eles. Como horizonte a ser perseguido, a partir do Sínodo, os jovens afirmam sonhar “uma Igreja na qual as juventudes sejam protagonistas e que as mulheres tenham voz e vez. Uma igreja que promova e defenda a vida em todos os âmbitos, sem medo de assumir e atuar na opção preferencial pelos pobres, a luta dos povos indígenas, comunidades tradicionais, migrantes e jovens da Amazônia. Uma Igreja menos clerical, em que os leigos e leigas, especialmente as juventudes, se apropriem, sejam protagonistas na ação pastoral e tenham apoio na capacitação técnica para sua atuação, dentro e fora dos espaços eclesiais”, concluem as juventudes da Amazônia brasileira presentes na atividade de escuta.

 

Leia a carta na íntegra: Escuta das Juventudes da Amazônia – Carta

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