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                                                                “Precisamos escutá-los”: Papa Francisco diz que povos indígenas nunca estiveram tão ameaçados

“Precisamos escutá-los”: Papa Francisco diz que povos indígenas nunca estiveram tão ameaçados

Por tiago Miotto, da Ascom/Cimi   “Que agora sejam vocês mesmos que se autodefinam e nos mostrem sua identidade. Precisamos escutá-los”, afirmou o Papa Francisco à multidão de indígenas do Peru, do Brasil e da Bolívia que participavam do encontro no Coliseu Madre de Dios, em Puerto Maldonado, na manhã de sexta (19). Durante cerca de meia hora, depois de receber presentes e ouvir mensagens e denúncias de representantes indígenas do Peru, Francisco falou sobre a riqueza dos saberes e da diversidade indígena, sobre a necessidade de defender a Amazônia e seus povos e, também, sobre as ameaças que estes povos enfrentam em função dos interesses econômicos em seus territórios. Do Brasil, saindo de nove estados diferentes, especialmente da região amazônica, 90 representantes indígenas de mais de 30 diferentes povos participaram da atividade. Duas delegações – uma saindo de Porto Velho, em Rondônia, e outra do Acre – se deslocaram até a Amazônia peruana e elaboraram um documento para o Papa Francisco, falando sobre as ameaças aos seus direitos no Brasil. “Provavelmente os povos amazônicos originários nunca estiveram tão ameaçados em seus territórios como estão agora” A tônica de denúncia sobre a situação dos povos indígenas, entretanto, foi abordada pelo próprio pontífice em seu discurso. “Provavelmente os povos amazônicos originários nunca estiveram tão ameaçados em seus territórios como estão agora”, sentenciou Francisco. O Papa foi recebido com cantos, danças e apresentações de diversos povos indígenas amazônicos do Peru. Lideranças dos povos Awajún e Karakbut denunciaram as violações de que têm sido vítimas. “Pedimos-lhe que nos defenda. Os estrangeiros nos vêem como fracos e insistem em tirar nosso território de maneiras diferentes. Se eles conseguirem tirar nossas terras, podemos desaparecer”, alertou Yésica Patiachi Harakbut. As passagens da encíclica Laudato Sí que falam sobre os povos indígenas foram lidas em espanhol e nos idiomas dos povos Nahua, Quechua e Ashuar. Em uma cadeira de rodas, Santiago Manuin, liderança indígena do povo Awajún que foi gravemente ferida em um confronto em 2009, vestiu o Papa com colares e um cocar. Já no início de seu discurso, o Papa agradeceu às manifestações dos indígenas. “Desejei muito este encontro, quis começar por aqui a visita ao Peru. Obrigado pela sua presença e por nos ajudarem a ver mais de perto, nos seus rostos, o reflexo desta terra”, afirmou, antes de partir para os temas polêmicos. “A Amazônia é uma terra disputado em várias frentes: por um lado, o neoextrativismo e a forte pressão de grandes interesses econômicos que apontam sua ganância sobre petróleo, gás, madeira, ouro, monoculturas agroindustriais”, alertou o Papa. Em seguida, chamou atenção também para a “perversão de certas políticas que promovem a conservação da natureza sem levar em conta o ser humano”, que acabam “gerando situações de opressão aos povos originários para quem, deste modo, o território e os recursos naturais que nele existem se tornam inacessíveis”.   Crítica aos “novos colonialismos” Papa Francisco foi bastante enfático ao defender uma forma de relação com a Amazônia e com a natureza menos utilitária – algo a ser aprendido com os povos originários. “Nós, que não habitamos estas terras, necessitamos da sua sabedoria e conhecimento para podermos entrar, sem destruir, o tesouro que esta região encerra”. Opondo as práticas de Bem Viver dos povos indígenas ao que chamou de “neoextrativismo” e “novos colonialismos”, Francisco criticou aqueles que os veem como entrave ao desenvolvimento. “Para alguns, vocês são considerados um obstáculo ou um estorvo. Na verdade, vocês com suas vidas são um grito à consciência de um estilo de vida que não consegue dimensionar seus próprios custos. […] A Amazônia, mais que uma reserva da biodiversidade, é também uma reserva cultural que deve ser preservada diante dos novos colonialismos”. “É preciso um especial cuidado para não deixarmo-nos enganar por colonialismos ideológicos disfarçados de progresso, que pouco a pouco ingressam dilapidando identidades culturais e estabelecendo um pensamento uniforme, único e débil”.   Violência contra as mulheres e povos isolados Outros temas ainda foram destacados criticamente pelo pontífice em sua fala. “A violência contra as adolescentes e contra as mulheres é um clamor que chega ao céu”, afirmou, chamando atenção para o tráfico de pessoas, o trabalho escravo e os abusos sexuais, em muitos casos ligados aos garimpos ilegais que devastam territórios indígenas. Também pediu a todos que sigam defendendo os povos indígenas em isolamento voluntário, os “mais vulneráveis dentre os vulneráveis”. “O resquício de épocas passadas obrigou-lhes a se isolarem até de suas próprias etnias, iniciaram uma história de cativeiro nos lugares mais inacessíveis da floresta para poder viver em liberdade. Sigam defendendo a estes irmãos mais vulneráveis”, conclamou. “Sua presença nos recorda que não podemos dispor dos bens comuns ao ritmo da ganância e do consumo”, alertou. “O reconhecimento destes povos – que nunca podem ser considerados uma minoria, mas autênticos interlocutores – assim como de todos os povos originários nos recorda que não somos possuidores absolutos da criação”. Francisco ainda pediu por políticas de saúde que levem em conta a realidade e cosmovisão dos povos indígenas e pediu que os organismos internacionais retomem a pressão contra países que seguem promovendo políticas de esterilização de mulheres indígenas. “Assusta o silêncio porque mata”, prosseguiu. “Vocês são a memória viva da missão que Deus nos encomendou a todos: cuidar a Casa Comum. A defesa da terra não tem outra finalidade que não seja a defesa da vida”.   “Não fazer de suas culturas uma idealização de um estado natural nem tampouco uma espécie de museu de um estilo de vida do passado. Sua cosmovisão, sua sabedoria, tem muito a ensinar aos que não pertencemos à sua cultura”   Saberes indígenas A valorização dos saberes tradicionais dos povos originários foi um tópico recorrente em várias passagens do discurso do Papa. “Escutem aos anciões, por favor, eles tem uma sabedoria que lhes põe em contato com o transcendente e lhes faz descobrir o essencial da vida”, afirmou, para então fazer referência ao texto da encíclica Laudato Sí: “Não nos esqueçamos que o desaparecimento de uma cultura pode ser tão ou mais grave que o desaparecimento de uma espécie animal ou vegetal”. Para o Papa, as culturas só não se perdem se estiverem em constante movimento. “Urge assumir o aporte essencial que oferecem a toda a sociedade, não fazer de suas culturas uma idealização de um estado natural nem tampouco uma espécie de museu de um estilo de vida do passado. Sua cosmovisão, sua sabedoria, tem muito a ensinar aos que não pertencemos à sua cultura”. Além da referência aos saberes resguardados pelos anciões, Francisco também destacou o importante papel dos jovens indígenas “que se esforçam por fazer, de seu próprio ponto de vista, uma nova antropologia e trabalham para reler a história de seus povos a partir de sua perspectiva”. Fazendo novamente menção a passagens da encíclica Laudato Sí, o Papa disse considerar imprescindível “realizar esforços para criar espaços institucionais de respeito, reconhecimento e diálogo com os povos nativos, […] um diálogo intercultural no qual vocês sejam os principais interlocutores, sobretudo na hora de avançar em grandes projetos que afetem seus espaços”. No dia 18, povos indígenas do Brasil participaram de assembleia da Rede Eclesial Pan-Amazônica, onde compartilharam relatos e experiências com outros povos da América Latina.  Mike Munduruku, do Pará falou sobre as ameaças que os povos indígenas do Tapajós enfrentam em função das hidrelétricas, do avanço do agronegócio e dos grandes projetos de infraestrutura. F   “Rezem por mim” Ao anunciar a realização do Sínodo da Amazônia em 2019, o Papa afirmou que deseja uma “Igreja com rosto amazônico e uma Igreja com rosto indígena”, reafirmando junto aos povos indígenas “uma opção sincera pela defesa da vida, defesa da terra e defesa das culturas”. “Confio na capacidade de resiliência dos povos e em sua capacidade de reação diante dos difíceis momentos que vivem. Rezo por vocês e por sua terra bendita por Deus, e lhes peço, por favor, que não se esqueçam de rezar por mim”, afirmou, antes de se despedir com a expressão “Tinkunakama” – “até um próximo encontro”, na língua Quéchua.   Do Brasil, denúncia contra políticas anti-indígenas Os indígenas do Brasil presentes no Peru para o encontro com o Papa Francisco elaboraram um documento denunciando as diversas políticas anti-indígenas de que têm sido alvo recentemente no país. “O Estado brasileiro declara guerra aos povos originários que lutam por justiça e o direito de viver dignamente como seres humanos”, afirmam no documento. Eles denunciam o desmonte da Fundação Nacional do Índio (Funai) e o corte de orçamentos para a fiscalização e proteção de áreas indígenas, a paralisação das demarcações de terras, a criminalização e a repressão de lideranças indígenas. A violência contra povos e comunidades também é denunciada, destacando a violência contra as mulheres. “Quando o Estado não respeita os direitos dos povos indígenas as mulheres são as que mais sofrem, pois elas que cuidam dos seus filhos e casas”. Para os indígenas, a “diretriz fundamental” do ataque promovido contra seus direitos é “a adoção da tese do marco temporal pela administração pública”, recentemente estabelecida pelo governo Temer por meio do Parecer 001/2017, da Advocacia-Geral da União (AGU). “O nosso direito ao território é um direito sagrado e não recuaremos um palmo de terra retomada. Somos povos originários desta Terra e exigimos respeito!”, ressalta a carta. Cinco representantes do Brasil chegaram a ingressar na área reservada do Coliseu, próxima ao Papa Francisco, mas, em função do forte esquema de segurança, não puderam entregar sua carta ao naquele momento. O documento foi então entregue ao Arcebispo de Porto Velho (RO) e presidente do Cimi, Dom Roque Paloschi, que se comprometeu a fazê-lo chegar ao Vaticano. Leia o documento dos povos indígenas do Brasil ao Papa Francisco  
                                                                Cardenal Odilo Scherer  visita Alto Solimões, no Amazônas

Cardenal Odilo Scherer  visita Alto Solimões, no Amazônas

Por Luis Miguel Modino   O Cardeal Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, visitou recentemente a diocese de Alto Solimões. A presença de uma das figuras mais conhecidas da Igreja do Brasil serviu para se fazer presente na prática totalidade das paróquias, conhecendo as diversas realidades com as que a Igreja convive na região da fronteira brasileira com a Colômbia e o Peru: periferias das cidades, comunidades ribeirinhas e indígenas, sobretudo da etnia ticuna. A diocese de Alto Solimões tem uma superfície de 131.614 km quadrados e uma população de 216.000 habitantes, uma terceira parte indígenas, e está dividida em 8 paróquias, com uma presença de 14 padres, a metade deles religiosos capuchinhos, que assumiram a diocese desde sua fundação em 1910. Junto com os padres, se fazem presentes em Alto Solimões umas trinta religiosas, além de muitos catequistas que realizam o trabalho pastoral nas 252 comunidades da diocese. Num artigo publicado neste 17 de Janeiro em “O São Paulo”, o jornal de Arquidiocese paulistana, o cardeal afirma que “a Amazônia está no foco das atenções missionárias da Igreja Católica e já era tempo que isso acontecesse de maneira mais efetiva!”. Dom Odilo Scherer relata o trabalho que a Igreja do Brasil desenvolve na região por meio da Comissão Episcopal para a Amazônia, a Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM) e o Projeto Igrejas irmãs, com o qual o Regional Sul 1 da Conferencia Nacional dos Bispos de Brasil (CNBB), do qual faz parte a Arquidiocese de São Paulo envia missionários no Regional Norte 1, que compreende as dioceses dos estados de Amazonas e Roraima, também a diocese de Alto Solimões. Junto com isso, o Arcebispo ressalta o Sínodo dos Bispos para a Pan-Amazônia, que vai ser realizado em 2019, e na visita do Papa na região amazônica, concretamente em Puerto Maldonado, onde vai se dar o pontape inicial da preparação de um evento que sem dúvida vai marcar decisivamente o futuro da evangelização num dos pulmões do Planeta. O motivo da visita, em palavras do cardeal Scherer é “o desejo de também estar mais próximo da Igreja na Amazônia”. Nos dias de estância em Alto Solimões, percorrendo as paróquias e comunidades, conhecendo a realidade, tem descoberto que os “grandes desafios e urgências da diocese são a formação de um clero próprio, a evangelização aprofundada do povo para se manter unido à Igreja e a formação de lideranças para as comunidades”. Junto com isso, diz que as “dificuldades maiores são as distâncias e a precariedade dos meios materiais para fomentar devidamente a vida e a missão da Igreja. A paróquia mais distante fica a quase 500 km da sede da diocese, Tabatinga! O combustível representa uma despesa significativa para visitar as comunidades, sempre de barco”. Dom Adolfo Zon agradece a visita do Arcebispo de São Paulo, destacando a eucaristia celebrada com o Povo Ticuna na Paróquia de Belém do Solimões. Mas acima de tudo ele fica com uma frase de Dom Odilo: “os bispos devem vir até aqui e conhecer diretamente esta realidade”.