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A Terra de todo dia

A Terra de todo dia

Por Roberto Malvezzi (Gogó) - Assessor da REPAM-Brasil   Escrevo uma palavra sobre a Terra bem no dia que estou me preparando para uma longa viagem até a Prelazia de São Félix do Araguaia. Mas lá, a Prelazia organiza uma semana de formação com professores da escola pública na linha de uma Cultura da Paz. O assunto é exatamente o “cuidado com nossa Casa Comum”. Rastreei na internet imagens de nossa Terra, vista de fora, privilégio de nossa geração, que outras mais antigas não tiveram. Ver nosso ponto azul flutuando no espaço, às vezes de mais perto, às vezes a distâncias de bilhões de quilômetros, como a foto tirada pela Voyager já nas imediações de Júpiter, é colocar-se diante do mistério. Achávamos que a Terra era o centro do Universo até 1550, quando Galileu Galilei nos ensinou a verdade. Depois achávamos que era o sol o centro do Universo. Hoje, num Universo que parece um tabuleiro, com bilhões de galáxias, cada uma com bilhões de estrelas, tantas estrelas com tantos planetas, apenas nos calamos diante da grandeza do Universo. Mas, estamos aqui. Nossa velha Gaia, com seus 4,6 bilhões de anos, já vivida e cansada, agora está doente e febril, para usar uma expressão de James Lovelock. Mas ela ainda vai longe, pelo menos muito mais longe que a espécie humana. Acabaremos bem antes de nossa Casa Comum. Mas, os seres humanos podem sair da Terra, ir para outros planetas. Inclusive outros seres inteligentes podem nos conhecer há muito mais tempo do que nós os conhecemos. A humanidade poderá ser realmente uma espécie universal e não ficará confinada na Terra, já dizia Hannah Arendt em seu livro “A Condição Humana”, já em 1958, quando o primeiro ser vivo, a cadela Laika, deu a primeira volta na órbita da Terra. Papa Francisco nos alerta para o cuidado com nossa Casa Comum. Biblicamente nossa tarefa é cultivar e guardar a criação, como quem cuida da própria casa, do próprio quintal. Isso exige de nós uma conversão ecológica, uma espiritualidade integral, uma ecologia integral, a capacidade de contemplar o evangelho da Criação, de rastrear as digitais de Deus impressas no Universo. Nesse dia dedicado à Terra, que tenhamos a capacidade de parar alguns minutos, contemplar a Terra e agradecer a Deus por nos tê-la dado como Casa Comum. Depois, recolocar os pés na terra e seguirmos em frente no cuidado que lhe devemos.
Um Sínodo Especial para Amazônia

Um Sínodo Especial para Amazônia

Por Márcia Oliveira - Assessora da REPAM-Brasil Um sínodo, de acordo com o dicionário da língua portuguesa, é uma “assembleia periódica de bispos de todo o mundo que, presidida pelo papa, se reúne para tratar de assuntos ou problemas concernentes à Igreja universal”. Sínodo é uma palavra que tem origem no grego e significa “syn”, juntos, e “hodos”, estrada ou caminho. Desta forma, representa uma assembleia na qual se buscam caminhos coletivos para se decidir sobre algo específico, que requer atenção especial por parte da Igreja e seu colegiado com a finalidade de tomar decisões e iniciar processos coletivos mediante os desafios identificados. Essa modalidade de assembleia foi instituída pelo Papa Paulo VI e foi assumida como uma prática metodológica participativa da Igreja Católica desde 15 de setembro de 1965. Para o Papa Paulo VI, o sínodo representa na prática, “um estudo comum das condições da Igreja e a solução concorde das questões relativas à sua missão. Não é um Concílio, não é um Parlamento, mas um Sínodo de particular natureza” convocado sempre que houver alguma necessidade específica em determinada realidade e contexto histórico.  A metodologia que pauta os trabalhos do Sínodo é baseada na colegialidade, um conceito que caracteriza cada fase do processo sinodal, desde a preparação até as conclusões das Assembleias. Os trabalhos alternam análises e sínteses, com uma dinâmica que permite a verificação dos resultados e o exame de novas propostas. Quem escolhe o tema do Sínodo é o Papa, após um estudo elaborado pelo Conselho da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos, que avalia as sugestões recebidas. Com o tema definido, prepara-se a “Lineamenta”, um documento que apresenta as linhas principais do tema do Sínodo e, após a aprovação do Papa, é enviado ao episcopado. Após um estudo, os bispos enviam uma relação sobre essa Lineamenta para a Secretaria Geral. Só então é redigido, documento de trabalho que é ponto de referência durante a Assembleia sinodal. Por fim, o Papa emite um documento chamado Exortação Apostólica, no qual resume e aprova as principais conclusões dos bispos durante as assembleias. O Sínodo para Amazônia foi uma resposta do Papa Francisco à realidade da Pan-Amazônia. Durante o encontro com povos indígenas de quase todos os países da Pan-Amazônia, em Porto Maldonado, Peru, o Papa Francisco falou sobre a riqueza dos saberes e da diversidade indígena, sobre a necessidade de defender a Amazônia e seus povos e, também, sobre as ameaças que estes povos enfrentam em função dos interesses econômicos em seus territórios. A partir destas perspectivas, o Sínodo Especial para Amazônia tem como tema “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e por uma ecologia integral”. Dentre as várias temáticas que serão estudadas e aprofundadas no processo sinodal, está em pauta o “rosto dos povos da Amazônia” que representam uma rica diversidade sociocultural nesta realidade em que, dadas as proporções geográficas, é uma região gigantesca onde vivem povos e culturas diferentes que ocupam a região com modos de vida distintos. Todos os dias, retiram das águas o peixe nosso de cada dia sem excessos ou desperdícios, somente o necessário para alimentar suas famílias com o pescado oferecido generosamente pela natureza das águas que ainda o produz em abundância. Mas, toda essa riqueza natural está em risco mediante a exploração desmedida das grandes corporações econômicas. Também terá lugar no debate do sínodo o camponês e sua família que se apropria e utiliza os recursos naturais da várzea, tendo como pano de fundo o contínuo e cíclico movimento de seus rios. Entretanto, os ribeirinhos, pescadores da Amazônia, também conhecidos como camponeses das várzeas, sofrem com a presença dos pescadores comerciais, predadores dos recursos que já se tornaram escassos em determinadas regiões. Os povos da floresta, camponeses da terra firme, nas suas mais diversificadas categorias (seringueiros, indígenas e quilombolas), extrativistas e coletores por excelência, sobrevivem do que a terra e a floresta lhes dá generosamente. São os agricultores familiares que cultivam pequenas porções de terras com técnicas tradicionais ancestrais classificadas como agroecologia familiar por corresponder a um modo de vida de inter-relação e interdependência com a terra e a natureza. Esses povos cuidam da terra e a terra cuida deles na mesma proporção. O modo de vida desses povos baseado no “bem-viver”, entretanto encontra-se ameaçado pelos grandes projetos econômicos, pelo avanço do latifúndio e pelo permanente processo de desmatamento da floresta.  A realidade das cidades dos nove países que compõem a Pan-Amazônia, Colômbia, Peru, Venezuela, Equador, Bolívia, as Guiana Inglesa, Guiana Francesa, Suriname, além do Brasil, com seus desafios e perspectivas também serão abordadas no sínodo. As cidades da Amazônia têm crescido muito rapidamente e recolhido muitos migrantes deslocados de forma compulsória, empurrados para as periferias de grandes centros urbanos que avançam floresta adentro. Na sua maioria são povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas expulsos pelos garimpos e mineradoras, encurralados pelas madeireiras, e machucados nos conflitos agrários e socioambientais resultantes da omissão falaciosa do Estado que tem adotado um processo acelerado de limpeza e esvaziamento de áreas estratégicas de grande interesse econômico cobiçadas por empresas nacionais e internacionais.   As grandes riquezas produzidas na Amazônia e a vastidão de seus bens econômicos são negados à maioria de seus habitantes, o que favorece a predominância das desigualdades sociais, econômicas, culturais e políticas. Nessa perspectiva as cidades representam uma realidade marcada por grandes contradições: de um lado, uma vastidão enorme de terras e florestas. De outro lado, muita gente, multidões inteiras, de empobrecidos no campo e nas cidades, sem terra, sem moradia, sem acesso aos direitos básicos. Estes e muitos outros temas serão abordados pelo Sínodo especial para a Amazônia que já está em curso e terá seu ponto mais alto em outubro de 2019.