Por IHU

"Muitos defendem a mudança no comportamento da sociedade para combater a destruição do meio ambiente, mas, no sigilo do carrinho de supermercado, continuam comprando um produto mesmo sabendo que ele está envolvido em danos ambientais. Autointulam-se ecoconscientes, porque é bonito e pega bem (é hype, sabe?), mas sustentam uma pegada ecológica do tamanho de um mundo", escreve Leonardo Sakamoto, jornalista e cientista social, em artigo publicado em seu blog, 30-08-2017.

Eis o artigo.

Não é novidade que Michel Temer tem rifado a qualidade de vida desta e das futuras gerações em nome da manutenção no poder de seu grupo político denunciado por corrupção. Faz a vontade de uma parte do setor produtivo e do Congresso Nacional que prega uma política de terra arrasada em nome de uma ideia distorcida de progresso. A redução da proteção na Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, ou o ataque direito aos direitos de populações indígenas a seus territórios (que apresentam, em média, taxas de conservação maiores que as unidades sob responsabilidade direta do governo) são exemplos disso.
Também não é novidade que Dilma Rousseff não se importava com a questão ambiental. Um dos maiores crimes cometidos contra a Amazônia, seus povos e trabalhadores em nossa história recente responde pelo nome de usina hidrelétrica de Belo Monte, menina dos olhos da ex-presidente. Comunidades indígenas e ribeirinhas impactadas e deslocadas, trabalhadores mortos, tráficos de pessoas para exploração sexual a fim de atender aos canteiros de obras, criação de novos vetores de desmatamento, ocupação desordenada do solo urbano e rural, tudo contribuindo para mudanças climáticas. Ironicamente Dilma estava ao lado de um modelo de desenvolvimento predatório e violento que foi levado a cabo durante a ditadura contra a qual ela bravamente lutou.
Poderíamos citar todos os mandatários da Nova República e dar especial ênfase aos ditadores entre 1964 e 1985 nessa lista suja. Mas o que as pessoas esquecem é que esse modelo de terra arrasada serve para abastecer um padrão de consumo, vendido em publicidades brilhantes, propagandas excitantes e merchãs delirantes, que nós abraçamos bovinamente sem questionar.
Sim, a panela de alumínio com a qual muitos resumem sua participação na vida pública bebeu energia e comeu minerais extraídos da Amazônia brasileira para abastecer as indústrias nacional e estrangeira. Sim, muitos bens de consumo têm em seu custo o desaparecimento de aldeias indígenas e o desmatamento ilegal.
De onde você acha que vem o aço de nossos automóveis? E o couro dos estofados? E a madeira utilizada no processo de construção de nossas casas e apartamentos? E a carne que comemos diariamente? E a soja que está em muitos de nossos produtos industrializados e na ração de outros animais? E o dendê dos agrocombustíveis? E o ouro dos circuitos eletrônicos? Nem todos são produzidos de forma danosa ao meio e ao ser humano, claro, mas muita coisa se vai sem controle algum.
Há hidrelétricas de grande porte planejadas para serem construídas na Amazônia Legal, em rios como o Tapajós, o Tocantins e o Apiacás, dependendo apenas da retomada econômica. Tendo em vista os graves impactos causados no meio ambiente, em trabalhadores rurais e em populações tradicionais em processos como os das usinas de Estreito, Jirau, Santo Antônio e Belo Monte, temos ideia do festival de loucuras que isso vai causar.
Do que adianta não questionar os padrões de comportamento ao qual todos nós – e não me excluo desse coletivo – estamos inseridos e depois colocar uma foto nas redes sociais do tipo ”SOS Amazônia”? Você busca se informar sobre o impacto de seu consumo e, a partir daí, questiona-los e aos fornecedores dos seus produtos preferidos?
Muitos defendem a mudança no comportamento da sociedade para combater a destruição do meio ambiente, mas, no sigilo do carrinho de supermercado, continuam comprando um produto mesmo sabendo que ele está envolvido em danos ambientais. Autointulam-se ecoconscientes, porque é bonito e pega bem (é hype, sabe?), mas sustentam uma pegada ecológica do tamanho de um mundo.
No âmbito da disputa de discursos, a necessidade de garantir o futuro do planeta já está relativamente bem posicionado na sociedade brasileira, mesmo não sendo a sua prioridade principal. O problema é como esse discurso é usado ou absorvido.
Por exemplo, muitos ruralistas ao dizerem que concordam com ”desmatamento zero” estão apenas lavando sua marca. Mas não explicitam as ressalvas que impõem – o que é igual àquelas propagandas de carros em que o cidadão vê apenas as “36 vezes de R$ 300,00”, mas quando vai comprar quase tem um ataque cardíaco porque na letrinha miúda aparecem outras quatro parcelas intermediárias de R$ 40.000,00 que o anúncio não informou. Ou seja, sem mais desmate além do permitido pela reserva legal na Amazônia, mas com um amplo e irrestrito perdão das burradas já feitas, com a autorização para pôr o vizinho Cerrado abaixo, com rios de dinheiro para manter a floresta de pé, ignorando direitos de indígenas e quilombolas a seus territórios…
Como escreveu Cecília Meireles no Romanceiro da Inconfidência, “todos querem a liberdade, mas quem por ela trabalha?” Desconfio que poucos. A maioria segue escondida no conforto do anonimato, defendendo o seu, fazendo meia dúzia de ações insignificantes para dormir sem o peso da consciência e o resto que se dane.
Não querem mudanças no modelo de desenvolvimento que impactaria nosso ”American Way of Life” que importamos, apenas reciclam latinhas de alumínio e dão três descargas a menos no vaso sanitário por dia. E, pior, acreditam em promessas sem lastro, só por um discurso bonitinho, mas completamente ordinário, que não vale o esterco em que são adubadas em tempos de eleições.
Dessa forma, seguimos nossa cruzada em prol do desenvolvimento a todo o custo. Para produzir e, assim, exportar, gerar divisas, pagar juros de empréstimos, e assim poder contrair mais empréstimos e investir na produção. Não sem antes destruir outro lugar e outra comunidade. Que pode ser indígena, mas também ribeirinha, camponesa, quilombola, caiçara ou mesmo moradores da periferia de grandes cidades.
Estou falando algo além do boicote, que é um instrumento muito importante, mas não resolve sozinho de forma estrutural. Precisamos fazer acompanhamento crítico de nosso consumo no cotidiano.
Porque consumir é um ato político. Quando você compra algo, está depositando seu voto na forma como aquele produto foi feita, não apenas em sua estética, mas também em sua ética.
Como já disse aqui antes, isso não é um chamado à culpa, o que não leva a nada. E só podemos defender consumo consciente se, antes, ajudarmos a população a se informar sobre o que acontece. Atuo com a investigação de cadeias produtivas do agronegócio e do extrativismo desde 2003, tendo coordenado o rastreamento de mais de mil unidades produtivas. Ao mesmo tempo, tenho um doutorado exatamente sobre esse tema. Isso não me torna autoridade de nada, mas me permite dar meu testemunho pessoal: a mudança é lenta, muito lenta, mas possível.
Isso é um lembrete que todos temos responsabilidade, uns mais outros menos. A nossa, claro, é menor do que a dos governos e de empresários do agronegócio, do extrativismo, da indústria, do varejo e do sistema financeiro. Mas temos um papel a cumprir, preferindo políticos e produtos que atuam em nome da qualidade de vida e excluindo do rol de possibilidades quem não se importa com o meio e as pessoas que nele vivem. Lembrando que não há debate possível que não passe por repensar o próprio capitalismo.
Lutar contra a pilhagem da Amazônia, do Cerrado e do Pantanal é difícil, porque aprendemos a gostar do conforto das coisas a um preço baixo. Mas necessário. Porque se pagamos um valor módico é que alguém, a milhares de quilômetros de onde você se encontra, está pagando um preço muito caro pela sua alegria.