Por Alberto César Araújo - Amazônia Real

 

Na real, o que paira no ar é essa dúvida ética cruel que todos temos que ter ao fotografar pessoas nessas condições que vivem os isolados. Já que estamos interferindo, até que ponto podemos ir?

  
O imaginário amazônico é construído a partir do olhar do estrangeiro. Antes mesmo das invenções da fotografia, os viajantes deixaram em seus relatos e diários de bordo as descrições de uma paisagem exuberante, mas ao mesmo tempo um local de difícil “dominação”, um retrato do indígena selvagem, com raríssimas exceções, sem o olhar mais atento para definir a complexidade das diversas culturas e a sofisticação do modo de vida que aqui se praticava.

No Brasil, a imagem idílica do indígena como selvagem está em sua gênese. O ano passado (2017) foi marcado pelos 150 anos desse importante marco na fotografia, não só brasileira, mas mundial. Em 1867, o fotógrafo alemão Albert Christoph Frisch (1840-1918), autor da fotografia acima que abre este artigo,  levou seu estúdio para a floresta amazônica. Foram as primeiras fotografias do indígena em seu habitat. Ele utilizou-se de uma estratégia para vencer as limitações técnicas da época, quando eram necessários longos tempos de exposição para o retrato. Frisch fotografava a paisagem separada do retrato, feito em fundo neutro e depois no laboratório, juntava as imagens e as retocava, em uma sobreposição para dar a aparência de verossimilhança. Além, é claro, de inventar uma narrativa ficcional, que funcionava muito bem para vender a imagem do exótico e do registro raro. O que para a época, quanto mais exótico e mais raro, maior valor comercial teria a imagem. Tanto que este trabalho no mesmo ano foi condecorado com uma medalha de prata no prestigioso Salão de Paris de 1867. Já o ano de 2018 é marcado pelo centenário de falecimento de Frisch.

Hoje podemos relacionar o trabalho de Frisch com as diversas estratégias dos artistas visuais contemporâneos que tem a fotografia como meio ou fim, como a da foto encenada, a das múltiplas exposições e por aí em diante para formatarem suas narrativas fotográficas, no que é conhecido como fotografia contemporânea, mesmo que este salto na história em primeiro momento pareça estranhíssimo.

Podemos relativizar  a partir do contexto histórico em que essas imagens foram feitas, e o autor não necessariamente tenha utilizado naquele momento do discurso e das narrativas das artes visuais, tão em evidência nos dias de hoje, e nem poderia pela perspectiva histórica. Mas ao lançarmos um novo olhar para suas imagens, podemos encontrar alguns paralelos com os artistas atuais.

Inúmeros registros sucederam aos de Frisch,  e desde então,  inúmeros fotógrafos voltaram suas lentes aos indígenas brasileiros. Muitos utilizando da estratégia da pose. Como os contemporâneos Valdir Cruz em “Faces da Floresta” (São Paulo: Cosac Naify, 2007) e Claudia Andujar em “Marcados”, ((São Paulo: Cosac Naify, 2009) ambos com os indígenas Yanomami, no Amazonas e em Roraima. Outro registro recente mas, com os chamados “isolados”, foi o de Ricardo Stuckert no Acre em 2016, que, de helicóptero, sobrevoou e fotografou um grupo nunca antes contatado, sem autorização de ninguém ou da Funai. O que para muitos antropólogos foi um ato de violência.

 

Sebastião Salgado e os Korubo
O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado em seu novo projeto com os indígenas da Amazônia, fotografou um grupo de índios “isolados” da etnia Korubo na Terra Indígena Vale do Javari, no oeste do Amazonas, em 2017. Utilizou-se de uma estratégia semelhante à de Frisch. Também levou seu estúdio para floresta. Dirigiu, iluminou. E segundo uma entrevista dada ao jornalista e escritor Fernando Morais em dezembro passado, deixou para os indígenas que o serviram de guia, duas voadeiras com motor possante, mais o material de acampamento, uma lona de caminhão com dezenas de metros quadrados. 

Levando-se em consideração que os grupos em questão vivem este conflito no qual a colunista Bárbara Arisi relata em seu artigo, não é para menos nos sentirmos no mínimo preocupados com tal situação, pois o tempo alterado pela velocidade das voadeiras doadas por Salgado poderá acelerar este processo de conflito? Os episódios de sequestros das mulheres (relatado por estudiosos e pelos próprios indígenas) também seriam facilitados por meio deste transporte? Poderiam eles trocar as voadeiras por armas? Mas ao mesmo tempo podemos pensar, quantas vidas podem ser salvas, já que a questão da saúde indígena é caótica e a velocidade de um atendimento é crucial para quem está tão distante de um centro médico. Assim como facilitar o transporte de alimentos, medicamentos e etc.

Salgado, recém-empossado na Academia de Belas Artes da França, é sem dúvida um dos mais influentes fotógrafos do mundo. Minha geração deve muito a este artista. Quem não teve o sonho de viver de fotografia olhando seus trabalhos nos anos 80 e 90?

Defensor da natureza, criou um instituto que já reflorestou milhares de hectares de mata atlântica. Mas isso não o livrou das críticas que recebeu, tanto no meio fotográfico, como de ambientalistas, que após o desastre da barragem em Mariana (Minas Gerais) saiu “atirando” críticas sobre o valor de culto à sua obra por ter seu último grande projeto “Genesis” bancado pela companhia mineradora Vale.

Uma outra crítica feita a Salgado, muito comum no meio fotográfico, é a de que ele se coloca como fotojornalista, vai aos lugares mais remotos e de difícil acesso, entrando em contato com povos indígenas, muitos isolados, como no caso dessa última na Amazônia e comunidades de populações tradicionais mundo afora. A contrapartida, ou a “ajuda” que um repórter fotográfico pode deixar em uma comunidade assim é bem mais limitada, falando em termos financeiros, do que de um artista consagrado, como Salgado, cuja obra vale alguns milhares de dólares em galerias de artes e museus. Neste caso, qual valor justo de uma contrapartida?

Dar mais visibilidade a certas causas é suficiente para justificar um ensaio fotográfico, um livro, um filme, um documentário? Seria um desvio ético? Ou uma estratégia para facilitar o acesso? Já que para se chegar a locais assim, necessita-se de várias autorizações, seja de governos, de lideranças locais e uma infinidade de burocracia.

O certo é que poucos fotógrafos ou documentaristas fizeram da luta do povo indígena na preservação de sua cultura e território a sua causa de vida. Claudia Andujar e Vincent Carelli são duas exceções e dois grandes exemplos de profissionais que atuam em defesa dos direitos indígenas e que podem servir de espelho para as novas gerações.

O ato de fotografar é uma troca. Assim como o bom educador aprende mais com seus alunos do que ensina. O fotógrafo recebe muito mais conhecimento nessa troca de experiência do que os que são fotografados por ele, invariavelmente. A alteridade faz parte do ato, um retratista que se coloca no lugar do fotografado, sem dúvida vai ganhar muito com essa experiência, um verdadeiro aprendizado, logo o resultado terá mais chance de ser bem executado. E porque não mais convincente e mais justo com o retratado.

O caráter estético deste trabalho de Salgado é para muitos, irretocável. Mas, temos que procurar entender este caso além da dimensão estética, da polarização entre ideal e real. E perceber que esta nova fase de Salgado o afasta de outra crítica aos seus trabalhos anteriores, o de explorar a estética da fome e da miséria para dar luz em uma causa esquecida. Um vestígio de um povo. Ao mesmo tempo se utilizar de uma estética romântica, típica do século 19, próxima à pintura assim como uma certa dramatização, que foi estetizada pelo movimento realista socialista, como defende a crítica Susie Linfield, autora de “The Cruel Radiance: Photography and Political Violence (UCP Books, 2010) ”. Segundo ela,  Salgado “não estimula o espectador a questionar como vê e o que sabe” em artigo de Francisco Quinteiro Pires na Revista Zum, número 8 (ed. IMS, 2015) e no site.

Na real, o que paira no ar é essa dúvida ética cruel que todos temos que ter ao fotografar pessoas nessas condições que vivem os isolados. Já que estamos interferindo, até que ponto podemos ir?

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Alberto César Araújo é editor de fotografia da agência Amazônia Real e autor da coluna sobre fotografia “Olha Já!”.  Jornalista formado pela Uninorte/Laureate em Manaus, atualmente é mestrando do PPGLA na Universidade do Estado do Amazonas (UEA), com o projeto de pesquisa sobre o fotógrafo Alemão Albert Frisch. Atuando na profissão desde 1991, seu trabalho enfoca a vida nos rios e comunidades da Amazônia, em questões ambientais relativas ao desmatamento, queimadas, secas e enchentes. Trabalhou nos jornais  A Crítica, Diário do Amazonas e Em Tempo. Tem fotos publicadas na mídia nacional e internacional. Na Amazônia, documentou projetos socioambientais de várias organizações como o WWF e Greenpeace Brasil. Entre os prêmios que ganhou estão o Dom Helder Câmara (2000), Esso de Fotografia (2001), Sebrae (2004), FAPEAM (2011), HSBC (2012), Leica Fotografe (2012) e Carolina Hidalgo Vivar no POY LATAM (2013).