* Por Márcia Oliveria


Há exatos vinte anos o cantor e compositor popular Zé Pinto, lançava a música Devoção à Amazônia que seria lançada na coletânea Arte em Movimento em julho de 1998 que contou com a participação de músicos famosos como Chico César, Vânia Bastos, Lecy Brandão e Beth Carvalho.  Tanto a composição quanto a música Devoção à Amazônia fizeram e continuam fazendo muito sucesso nos meios populares, de modo especial no interior dos movimentos sociais que passaram a conhecer mais a Amazônia e assumir a sua causa cantando essa canção. Carregada de simbologias, a letra da música recolhe recortes importantes da vida na floresta e denuncia a expansão irresponsável da pecuária na Amazônia com os seguintes versos:

“Não sou apenas o índio que perdeu sua taba, na curva da estrada que o trator abriu. 
Quando arrancou mãe-floresta, quebrou minha flecha, deturpou minha festa e quase ninguém viu. 
Não quero esse lero-lero de quem diz: não posso! Coitado! Ai de mim! 
Se a Amazônia dá um grito, nós gritamos juntos e rezamos assim: 
Ave! Ave! Santa árvore, Pai nosso e do palmital, pão nosso do santo fruto, 
ribeirinho enfrenta o mal, do homem que traz a cerca, planta capim, 
faz curral, amparado num projeto de violência brutal onde o humano é esquecido, e o boi querido é o tal. 
Oh Amazônia cuidado com o pé do boi. Chico já disse, ninguém mais se esqueceu
O latifúndio traz miséria acaba a mata, incendeia, desacata milenares filhos teus.
Se expulsar o seringueiro meu amigo, pense comigo a seringueira vai chorar
é sua escora, é companheira, é sua amiga e ela percebe que ele sabe preservar.
Muita tristeza no tombo da castanheira, pro castanheiro é quase morrer de dor
ver destruída sua eterna companheira, por um projeto que ele não testemunhou.
E como fica onça pintada, arara azul, paca, cutia, periquito, porco-espinho
o jacaré, traíra, boto e lambari, pedem socorro com seu choro jacamim.
Chega de longe uma falsa ecologia, mas, essa fria seu projeto já mostrou
imperialismo vem escrito na cabeça, não tem magia quem não conhece o amor.
Levanta o índio junto aos outros companheiros, 
vimos ligeiros contra a força desse mal fazer corrente em toda a América Latina, 
a causa é nobre, a luta é internacional”.

Na atual conjuntura em que os estados da Amazônia são os principais responsáveis pela expansão pecuária no Brasil, a reflexão da letra de Devoção à Amazônia se faz bastante oportuna. É inegável a contribuição econômica da produção de gado leiteiro e de corte. Trata-se de uma das atividades econômicas mais importantes do Brasil responsável pelo abastecimento interno da demanda de carne e leite e pelo crescimento das exportações nas últimas décadas.  Entretanto, o que se questiona é a expansão dessa atividade econômica que avança dia-a-dia sobre a floresta e os impactos socioambientais desse modo de produção. 
De acordo com o Observatório do Clima do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia – Imazon, o problema está no modo de produção agropecuária adotado na Amazônia de modo extensivo, que vem provocando desmatamento extensivo e desnecessário tornando o “setor agropecuário o principal contribuinte para as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) do país (chega a aproximadamente 62% do total brasileiro)”, afirmam os pesquisadores do Imazon. Nessa perspectiva, acredita-se que o tamanho do território ocupado pela pecuária em 2007 já seria suficiente para garantir o crescimento deste setor econômico sem necessariamente desmatar mais nenhum palmo de floresta. 
Entretanto, o que vem ocorrendo é a continuidade do desmatamento para a garantia da expansão da pecuária. De acordo com o Imazon, “na Amazônia, o desmatamento ainda atinge cerca de 500-600 mil hectares por ano, envolve ocupações ilegais em Unidades de Conservação e Terras Indígenas e conflitos por terra”.   Ainda de acordo com as pesquisas do Imazon, “a pecuária tem sido alvo de maiores críticas, pois: é a maior responsável pelo desmatamento (75% das áreas desmatadas na região entre 1995 e 2004 foram transformadas em pasto); é campeão de áreas mal utilizadas com cerca de 12 milhões de hectares de pastos sujos; e é a campeã em ocorrências de trabalho análogo a escravo”.
Essa estreita relação entre o crescimento da pecuária e o desmatamento da Amazônia com todos os seus impactos sociais e ambientais precisa ser refletida à luz dos limites do ecossistema do nosso bioma e das suas consequências. De maneira especial é preciso retomar o debate em torno da importância da floresta para o equilíbrio das chuvas na Amazônia e em outras regiões do país, para frear o aquecimento global e, acima de tudo, para garantir vida com dignidade para milhares de pessoas que dependem da floresta e de seus recursos naturais para sua sobrevivência com dignidade e autonomia. 

* Marcia Oliveira é doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia – Texto publicado originalmente no Amazonas Atual