Por Felício Pontes Jr.

A Amazônia vive hoje o choque entre dois modelos diferentes de desenvolvimento. O primeiro pode ser chamado de desenvolvimento predatório. O segundo, de socioambiental.

O primeiro modelo foi sintetizado de forma bem didática na Encíclica Laudato Si', do Papa Francisco. No capítulo em que cita a Amazônia duas vezes, a Carta constata que, “O cuidado dos ecossistemas requer uma perspectiva que se estenda para além do imediato, porque, quando se busca apenas um ganho econômico rápido e fácil, já ninguém se importa realmente com a sua preservação. Mas o custo dos danos provocados pela negligência egoísta é muitíssimo maior do que o benefício econômico que se possa obter.” A consequência disso está explicado no item seguinte da Carta, “deterioração da qualidade da vida humana e degradação social”, a qual, a seu turno, leva a uma “desigualdade planetária”, o final do capítulo.

É verdade. O modelo de desenvolvimento predatório se implantou na  Amazônia com cinco atividades básicas: madeira, pecuária, mineração, monocultura e energia hidráulica. E criou consequências desastrosas. Quase 20% da Amazônia foram destruídos nestes últimos 40 anos.

 Uma reportagem de Leonencio Nessa e Dida Sampaio, do Estadão, no mês passado, mostrou que em 1960, 35% da população da Amazônia era urbana. Hoje, após a massificação desses projetos, estamos beirando 80% dessa população nas cidades.
Isso não significa que a vida tenha melhorado. A reportagem também mostrou que “um terço da população das grandes e médias cidades da Amazônia vive em territórios do tráfico e com violações de direitos humanos. Nas periferias da maior floresta tropical, a qualidade de vida é pior que nos morros e nas favelas de Rio de Janeiro e São Paulo.”

A Encíclica tem razão: “o ambiente humano e o ambiente natural se degradam juntos”.
Em oposição a esse modelo está o socioambiental. Ele parte de um princípio básico: articulação entre a biodiversidade e a sociodiversidade. Dito de outro modo, ele concilia desenvolvimento com preservação ambiental. É concebido e voltado para os povos da floresta que possuem centenas de anos em conhecimento na forma de lidar com os recursos florestais sem o impacto suicida.

Suas principais atividades são o extrativismo e a agricultura. São produtos cada vez mais fortes no mercado, como açaí, castanha-do-pará, cacau, óleos de andiroba e copaíba... Isso sem falar no que ainda não foi estudado. O potencial farmacológico da flora amazônica só foi estudado em 5%. O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) estima que 788 espécies de sementes da região possuem interesse econômico, mas apenas metade delas foi estudada.
É um modelo redistribuidor de renda porque predomina a forma coletiva de uso da terra, como reservas extrativistas, terras indígenas, territórios quilombolas e projetos de desenvolvimento sustentável.

É também o modelo dos povos que consideram que desenvolvimento é possuir exatamente o que já possuem: água limpa e floresta protegida, como afirma o cacique-geral Munduruku, Arnaldo Kaba.

Estamos em pleno processo de guerra desses modelos de desenvolvimento. Que a Encíclica nos inspire a tomar atitudes!

Artigo publicado na Revista Família Cristã - Agosto de 2016