Por Osnilda Lima, fsp
 
Ele aponta para a floresta e pergunta: “Você está vendo aquelas árvores, aquelas maiores, bem altas? Elas sim, são nossos cartões de créditos. E nada exigem de nós em termos de juros. São elas a nossa maior riqueza”, afirma Pedro Pereira Lima, da comunidade Nova Fronteira, no município de Medicilândia, Mesorregião do Sudoeste Paraense. 
Pedro está falando da castanheira que, com sua exuberante presença em meio à floresta, se avista ao longe. A castanheira foi a responsável por manter a economia da Amazônia após o declínio do ciclo da borracha. É do extrativismo da castanha que, ainda hoje, milhares de coletores e coletoras sustentam suas famílias. E, entre as características que a tornam singular, está a longevidade. Já foram identificados exemplares com mais de 800 anos, há registros de troncos com mais de 5 metros de diâmetros, e sua altura, atinge entre 50 a 60 metros de comprimento. É proibido cortar uma castanheira, ela morre em pé. Contudo, protegida por lei, mas sem floresta em torno, a árvore-símbolo da Amazônia seca. 
Pedro lamenta a exploração desenfreada que a Amazônia vem sofrendo. Segundo ele, com sua sabedoria tradicional e vivência na floresta, deveria ser proibido derrubar qualquer árvore. “É triste, mas bem pouco adianta manter a castanheira em pé se não existe floresta para acompanhá-la. As árvores precisam umas das outras, para que o fluxo gênico aconteça entre elas”. Ele é enfático ao afirmar que não se deve interromper a vida de nenhuma árvore na Amazônia.

 

A floresta em pé – A Amazônia sofre constantemente com o desmatamento, principalmente em decorrência do avanço das plantações de soja e da pecuária, da extração ilegal de madeira, da criação de hidrelétricas e a mineração, problemas responsáveis pela destruição de grandes áreas da floresta, destruição dos Rios. Apesar de muitos considerarem essas atividades importantes para a economia do Brasil, devemos lembrar que essa exploração destrói o bioma e causa sérias consequências para o planeta, uma vez que ele tem um papel fundamental no equilíbrio ambiental da Terra e influência direta sobre o regime de chuvas de toda a América Latina. O desmatamento da Amazônia influencia nas mudanças climáticas mundiais.
Com isso, a Comissão Episcopal para Amazônia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), por meio das comunidades, prelazias e dioceses com a criação de Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), vem atuando de forma incisiva na conscientização, no cuidado e na denúncia à exploração predatória e de senfreada da Amazônia. E a Carta Encíclica do papa Francisco Laudato SÌ (LS) nos orienta para essa aliança entre a humanidade e o ambiente. “A consciência da gravidade da crise cultural e ecológica precisa traduzir-se em novos hábitos”, (LS 209).  Pedro Pereira e sua comunidade vivem isso. Apoiados, incentivados pela Prelazia do Xingu, e outras instituições, criaram a Cacauway, primeira fábrica de chocolate no coração da Amazônia, que surgiu da união de agricultores familiares no município de Medicilândia e fundaram a Cooperativa Agroindustrial da Transamazônica (COOPATRANS). 
O processo de produção da Cacauway tem como base três fatores: o ambiental, que é o cultivo cacaueiro em harmonia com o meio ambiente; o social, que busca garantir a permanência e o bem-estar das pessoas no campo; e o econômico que agrega valor a partir do melhoramento da amêndoa de cacau a ser utilizada na produção. Sim, é possível um desenvolvimento socioambiental a partir dos povos que vivem que vivem na Amazônia, sem a destruição desse fundamental bioma para o mundo. “
“Curai a nossa vida, para que protejamos o mundo e não o depredemos, para que semeemos beleza e não destruição”, papa Francisco (LS 246).

* Osnilda Lima, fsp, é coordenadora de comunicação da Comissão Episcopal para a Amazônia e da Rede Eclesial Pan-Amazônica