Por Pe. José Arnoldo de Lima Sales* - Memória do Reencontro de Missionários e Missionárias que atuam na Amazônia.

Tempo de Deus, tempo nosso, os missionários e missionárias que atuamos na Amazônia brasileira. O primeiro reencontro destes missionários, entre os dias 14 a 20 de maio (2018), permitiu que eu ocupasse uma cadeira, um lugar, um espaço, graças a Deus e a Dom Roque Palosqui, que, gentil e insistentemente, quis que eu participasse. E não só, como favoreceu-me uma experiência comigo mesmo, com a missão amazônica, com os outros missionários e missionárias, sem contar a alegria partilhada entre nós e os missionários estrangeiros que ali se preparavam para atuarem nas realidades brasileiras.

Vale a pena construir processos! Fizemos, juntos, missionários e assessores, um itinerário, desde a acolhida no Centro Cultural Missionário-CCM, em Brasília, pelos distintos Pe. Jaime e Ir. Irene, às dinâmicas de entrosamento e trabalho de equipe. E, nisto, quem nos ajudou foi a psicóloga Profa. Yani Cavalcanti, uma nordestina pernambucana, de sotaque e tudo. Desceu do salto, literalmente, sem, por nenhum instante, perder a elegância e a suavidade. Fez-nos abandonar chinelos e sapatos – o chão é terra santa, é energia -, fazendo-nos entender que o corpo não é só corpo, mas emoções e sentimentos; ele fala de nós. Liberamos as energias e nos refizemos. Convivência, partilhas, celebração eucarística, áurea mística tomava conta. Foi o primeiro dia.

Os assessores da CNBB, Frei Dotto e Pe. Paulo Renato, nos ajudaram a ver a nossa realidade sócio-político-econômica e eclesial, subdividindo-nos em grupos menores, que favoreciam a partilha, o diálogo, o aproveitamento da troca de experiências de um evangelho encarnado, vivido nos rincões amazônicos. Quanto clamor! Quanta esperança! O missionário e a missionária na Amazônia são o ouvido da ternura de Deus. Cada um, do seu jeito, com empenho, coragem, embora com alguns medos e incertezas, expressa a presença e esperança de Deus que escuta o seu povo. Escutamos lamentos de toda espécie: gente sofrida, gente oprimida, injustiças, desigualdades, sofrimentos... Mas, também, histórias bonitas de lutas, conquistas, esperança... Vale a pena desgastar-se por um motivo nobre: paixão por Jesus Cristo, paixão pelo seu povo. O certo é que tal realidade tem raiz desumana, a lógica de mercado, que trata gente como coisa, vulnerável e descartável, afinal, vivemos na fazenda do mundo, o Brasil, numa colônia do Brasil, a Amazônia, como tratam os grandes do mercado mundial e brasileiro. Os desmandos, as invasões, a corrupção, os grandes projetos, as hidrelétricas, o agronegócio, a mineração, as madeireiras, são realidades que concretizam isso, a submissão e exclusão de um povo que se ergue bravo, retumbante, embora queiram amordaça-lo. Os pactos rompidos causam instabilidade, imposição, polarização e criminalização de quem coloca-se vizinho ao oprimido. Nesse mundo está a Igreja, solidária, presente, retomando sua opção preferencial pelos pobres, em defesa dos direitos à vida e à dignidade. Devemos nos unir mais, pois ações isoladas perdem a força. É preciso ver as estratégias no diálogo, na escuta, nas parcerias honestas. Não se pode deixar crescer a apatia social. Assim, recuperemos a autoestima do povo; a esperança não decepciona! Busquemos e implementemos ações solidárias como as discussões sobre o solo urbano; o grito dos excluídos, para que retomemos a organização dessas ações, gerando processos de formação de consciência. Tarefa nossa!

Partilhas, convivência, ação de graças, seguiram-se alimentando nossa espiritualidade missionária. O segundo dia!

Não se enfrenta tudo isso, se não esteja claro quem sou. Trata-se do objetivo central do reencontro dos missionários e missionárias: avaliar, partilhar experiências, estudar e projetar a atuação dos futuros missionários para a Amazônia. O Pe. Jaime Gusberti, nos levou a revisitar o jardim do outro, pois vivemos na Amazônia do índio, do ribeirinho, do colono, do migrante, Amazônia das longínquas e isoladas colocações e das grandes cidades e muitas vezes inumanas cidades. De onde eu vim? Para onde eu vou? As inquietações eram pessoais, pertinentes: Por que você entrou no jardim do outro? Como você entrou no jardim do outro pela primeira vez? O que você “está fazendo” no jardim do outro? O que você procura no jardim do outro? A primeira atitude deve ser a da contemplação – a Igreja é um jardim a ser cultivado – a Amazônia, por metáfora. Ingressar no jardim amazônico com o cuidado de quem cultiva, com a presença de Deus que já está lá antes de mim – Encontrar Deus no espírito de um povo. A Igreja não é um museu a ser cuidado, mas um jardim a ser cultivado, repetia-se. Esse cultivo se dar no colocar-se no ir, na saída, numa missão que tem sua origem fontal no amor trinitário – Pai, Filho e Espírito Santo. Por isso, a missão é um caso de amor, um cuidado de si e do outro; uma missão transformadora, libertadora, de preferência especial pelos oprimidos. Jesus Cristo confia a sua missão aos seus discípulos e à Igreja. Esta, sempre convocada a sair de suas comodidades às periferias geográficas e existenciais – o Evangelho é o mesmo, a realidade muda. Cuidemos para não passarmos uma imagem estética da Igreja – Igreja de eventos. Daí a pertinente pergunta: De qual Jesus estamos falando?

Aqui houve trabalhos em grupos, partilhas e perguntas abertas. Também se comia, e bem! Dignamente! Irá chegar um novo dia, e neste dia os oprimidos, a liberdade irão cantar!

No retorno dos trabalhos do dia, nos ajudou a Ir. Irene Lopes – da REPAM. Ela nos fez voltar ao documento 100 – estudos da CNBB: Missionários(as) para a Amazônia. Sugestões, acréscimos, talvez a necessária delicadeza de o reescrever. O sonho é que se torne um Documento Azul, isto é, um Documento oficial para orientar os missionários e missionárias que irão para a Amazônia: missionários do tipo de Jesus. A REPAM – Rede Eclesial Pan-Amazônica, nos foi apresentada como rede que visa consolidar e fortalecer a evangelização e a ação da Igreja na Amazônia. E nos foi feito entrar em contato com os primeiros passos do processo preparatório do Sínodo para a Amazônia. A estada com o Papa Francisco, a escolha da comissão organizadora, o tema: Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral! Foi o terceiro dia.

Uma manhã como as outras daqueles dias em Brasília; cerca de 16ºC. Oração matinal, café, olhares, sorrisos, bom dia! Retiro espiritual. Uma voz missionária, uma pequena estatura, uma grandeza de ternura e simpatia. Um homem pequeno, um grande bispo, hoje emérito, profeta, amante de Jesus e sua missão. Assim nos fez recordar a paixão pela missão. 81 anos de vida; dos quais 58 de padre e 34 de bispo. De verdade sabe o que está dizendo: O Brasil, são muitos brasis. A Amazônia, são muitas amazônias; o importante é saber viver a vida. Isso sim, vale a pena! Sobretudo vivendo do encontro com Jesus Cristo na Amazônia. O ser é fonte do fazer, a liberdade cristã. Dom Luiz Vieira, bispo emérito de Manaus, morando em Santa Fé no Paraná, começou a motivar os missionários retirantes a repensar o nosso ser, para colocar-se mais a serviço – parresia: coragem, força, garra nos momentos em que se pensa vacilar. Às vezes é preciso parar – DESCANSAR – cuidar de si mesmo. Na caminhada surge a FADIGA, a estresse; não se pode dar importância excessiva aquilo que não merece, porque não serve. O conselho: distanciar-se disso – ver a panorâmica. DIVISÃO INTERIOR, quando não se externa a verdade do que se pensa, porque não foi vivido – contradição. Deve se buscar a santidade: somos quem somos, com nossas imperfeições, buscando a Deus. TÉDIO DA ROTINA: é preciso sair um pouco, para retomar as coisas com espírito novo. Às vezes vive-se correndo para lá para cá, para não deixar caírem os pratos – a pastoral de conservação. Pergunte-se pela sua motivação. Qual o motivo? Qual a razão? Qual o porquê você continua a ser padre? Por que você continua a ser missionário(a)? A gente tem que ter coragem! “Há tempos que é preciso abandonar as roupas antigas, que já tenham ganho as formas do nosso corpo”. A coisa mais triste é chegar ao fim da vida e dizer: perdi a minha vida! É preciso PARAR E PENSAR na sua MOTIVAÇÃO. A dupla face da motivação missionária: Paixão por Jesus Cristo e paixão pelo seu povo. É preciso uma motivação forte!

Foi noite, Quarto dia! E manhã. Quinto dia: levados a passear pelas comunidades nascentes. O cristianismo dos Atos dos Apóstolos. Retratos de comunidades tão perfeitas, alicerçadas na unidade e na fraternidade: assíduas no ensinamento dos apóstolos, na solidariedade, na fração do pão, na oração. Unidas a Jesus e aos outros, no amor-caridade. Era isso mesmo ou era um ideal? Vejamos. Lá também havia problemas, dificuldades, incompreensões, desconfianças. Não se pode esquecer disso, senão corremos o risco de desanimar. O importante é aprender dessas primeiras comunidades como elas encontravam meios para sair da crise, resolver seus problemas à época. Também não eram comunidades tão missionárias. Foi difícil entender que a Igreja deveria sair, ir ao encontro das pessoas – dificuldade da missão. Aprendamos da comunidade de Antioquia, que solidária entre os seus membros, se preocupou com a comunidade de Jerusalém, mandando dinheiro para ajudar aos que passavam fome por lá. Trata-se de repensar como fundar comunidades missionárias, na koinonia e na missão. “Tudo vale a pena se alma não é pequena!”.

Que dias grandes! Proveitosos! Terminei com um sentimento enorme de gratidão! Na verdade, vivi um grande retiro missionário. Um tempo de graça e paz. Revigor, ânimo – parresia!

Colhi pérolas!

 

 

*Do presbitério da Diocese de Itapipoca-CE, em missão na Diocese de Humaitá-AM, pelo Projeto Igrejas Irmãs da CNBB.