Por Felício Pontes*

 

Contemplar a árvore todo dia é o exemplo de realização e libertação total

A região do Bico do Papagaio ficou conhecida nas décadas de 1980 e 1990 como uma das mais violentas do País. Está situada na Amazônia, onde hoje é a divisa dos estados do Pará, Tocantins e Maranhão. Era a região do trabalho escravo, dos assassinatos dos trabalhadores rurais, da grilagem de terra, do desmatamento desenfreado e da Guerrilha do Araguaia.
Tudo começou durante a ditadura militar – anos 1970. Com o trauma da guerrilha, o governo militar resolveu estimular o que acreditava ser o “desenvolvimento” da região. Levou para lá empresários do Sul e Sudeste, abrindo o cofre de três financiadores públicos – Banco do Brasil, Banco da Amazônia e Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam).
Esse “desenvolvimento” estava baseado em duas atividades básicas – madeira e pecuária. Num primeiro momento o ataque aos recursos florestais era realizado pelos madeireiros. O resultado foi trágico: o esgotamento do recurso natural. A terra, sem mais utilização para madeireiros, era vendida aos fazendeiros que colocavam abaixo o restante da floresta, considerado, literalmente, um obstáculo a ser derrubado. Em seu lugar plantavam capim. Os madeireiros, por seu turno, migravam para outra área ainda não desmatada, e reiniciavam seu projeto.

 

Um com todos − Foi nesse cenário que um frade dominicano, vindo da França, chega à região em 1978 para travar uma luta tal qual Dom Quixote de La Mancha. Aliás, até fisicamente, ele se parece com o personagem de Cervantes. Chama-se frei Henri Burin des Roziers (1930). Sua família é abastada e ficou conhecida por fazer parte da Resistência Francesa contra o Nazismo. Formou-se em Letras e Direito. Atuava com estudantes da Universidade Sorbonne em maio de 1968, no movimento que mudou a França. Tornou-se um dos padres operários, trabalhando como motorista de caminhão e, depois, em uma fábrica, como forma de compreender e se aproximar da realidade sofrida dos trabalhadores, sobretudo dos migrantes.
Ao chegar ao Bico do Papagaio, deparou-se com tamanha injustiça social contra os posseiros de terra – aqueles que habitavam a região por anos, mas não possuíam documento da terra. Encontrou também migrantes que foram recrutados em outras regiões do País com falsas promessas e se tornaram escravos modernos nas fazendas da região.
Para ser mais útil, frei Henri valida seu diploma de Direito e se torna o advogado dos posseiros, através da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Enfrentou os poderes econômico e político e encabeçou por anos a lista dos ameaçados de morte. Viu morrer assassinados seus irmãos de CPT, padre Josimo Tavares, mártir da reforma agrária, e irmã Dorothy Stang, mártir da Amazônia.
Seu trabalho não foi em vão. O Bico do Papagaio não é mais a campeã nacional do trabalho escravo, nem de morte de trabalhadores rurais, apesar dos imensos desafios que ainda existem para garantir o direito à dignidade a todos.
Há três anos, ele visitava o Convento dos Dominicanos em sua terra natal, Paris, quando foi acometido de uma rara doença que lhe retirou a força das pernas. Não voltou mais. Está num quarto pequeno com uma janela em que contempla uma única árvore – plátano, a mais comum da cidade. Através dela, sabe a estação do ano.
Estive com ele neste ano. Fiquei emocionado com a situação. Mostrou-se sorridente e feliz como sempre. Disse que agora tem tempo para contemplar a criação. Pensei em como ele, que combateu madeireiros na Amazônia, estava feliz por ter aquela única árvore na janela. Nunca deixou de ensinar pelo exemplo. Contemplar a árvore todo o dia é o exemplo de realização e libertação total.

Felício Pontes JR, é Procurador do Ministério Público Federal - artigo orginalmente publicado na Revista Família Cristã.