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                                                                Dário Bossi: “As igrejas são um ator importante nos conflitos e precisam se posicionar do lado dos mais fracos.”.

Dário Bossi: “As igrejas são um ator importante nos conflitos e precisam se posicionar do lado dos mais fracos.”.

Por Luis Miguel Modino Uma das grandes ameaças que hoje sofre a América Latina é tudo aquilo que tem relação com o extrativismo em grande escala dos seus recursos naturais. Os impactos dessa atividade nem só atingem à Casa Comum, também seus moradores, especialmente os mais pobres e, no meio deles, os povos originários. As políticas estatais de muitos países têm sido encaminhadas na direção da exportação de seus bens comuns, como modo de equilibrar sua balança comercial. Geralmente trata-se de governos corruptos, liderados por personagens que enchem seu bolso às costas do sangue daqueles que deveriam ajudar e que provocam que as catástrofes ambientais e sociais sejam um elemento cada vez mais cotidiano. Nos últimos anos, diferentes igrejas cristãs têm tomado uma postura cada vez mais explícita frente a esse tipo de situações. Uma das Instituições que em Latino-América está na frente dessa luta é a “Red Iglesias y Minería”, nascida em 2013 e que com “um perfil ecumênico e uma estrutura de rede mais informal, atua em âmbito continental”, tendo como objetivo oferecer “oportunidades para as comunidades fazerem ouvir suas vozes e reivindicarem seus direitos, nos contextos locais, nacionais e internacionais”. Nesta entrevista, um dos atores principais da rede, o padre Dário Bossi, nos explica seu funcionamento e os desafios enfrentados no trabalho cotidiano. Sua experiência de trabalho ao longo de vários anos, em que tem enfrentado os conflitos surgidos da mineração no país, serve como base para fundamentar suas palavras, onde a gente descobre seu compromisso profético e que questionam posturas erradas que estão presentes até dentro das próprias igrejas. Em seu testemunho ressoa a vida de muitas pessoas, vítimas de “migrações descontroladas..., turmas de desempregados, homens, sem nenhuma perspectiva e com consequências de aumento de violência, alcoolismo e exploração sexual”.  Mas ao mesmo tempo, deixa-se ouvir a denuncia “de maneira forte, bem articulada e embasada a partir de assessorias muito competentes, a insustentabilidade desse modelo de extrativismo”. Nesse ponto, destaca a importância da Laudato Si, que aos poucos tem sido concretizada na América Latina em diferentes documentos e atitudes. Por isso, não duvida em afirmar que “a encíclica Laudato Si' tem sido profética nesse sentido e inspira o movimento e a resistência de muitas comunidades. Alerta sobre a inversão de prioridades, que coloca o lucro acima dos interesses coletivos e do cuidado para com o bem comum. Invoca a retomada do controle da política sobre a economia e denuncia o ritmo desenfreado de consumismo, destacando o limite da Terra e da existência humana e exortando a uma mudança integral de paradigma, a conversão ecológica.”. Nesse trabalho de toma de consciência sobre essa necessária conversão ecológica, o padre Bossi destaca o papel da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), que “considera os povos indígenas como sujeitos prioritários de sua ação, pondo-se à sua escuta e valorizando a contribuição de sua sabedoria e prática de vida: o Bem Viver”. Todo no propósito de avançar “no campo da defesa e promoção dos direitos humanos dos povos amazônicos”.   O que é a Rede Igrejas e Mineria? Dário Bossi – Iglesias y Minería é uma rede ecumênica que articula comunidades e defensoras e defensores dos direitos socioambientais ameaçados pela mineração em grande escala, oferecendo a eles o apoio, a proteção e o acompanhamento das igrejas. Temos alguns eixos prioritários de ação: incidência, comunicação para a transformação e aprofundamento da espiritualidade e reflexão ecoteológica. Através do papel das igrejas, estamos oferecendo oportunidades para as comunidades fazerem ouvir suas vozes e reivindicarem seus direitos, nos contextos locais, nacionais e internacionais. A comunicação de suas histórias de resistência torna-se oportunidade de formação e multiplicação de processos de autodeterminação das comunidades em seus territórios. Aprofundamos a ecoteologia para resgatar a mística que alimenta a luta desses grupos humanos e enriquecer as experiências das igrejas ao lado deles, num aprendizado mútuo.   Qual é o espírito que movimenta essa Rede? De onde nasce seu compromisso com o cuidado da Mãe Terra e das comunidades? Dário Bossi – A rede nasceu a partir do apelo de diversas comunidades desesperadas frente às agressões da mineração, inclusive sofrendo ameaças diretas de despejo, destruição ou morte para os defensores e defensoras que se opusessem aos planos das grandes empresas, frequentemente apoiados pelos governos locais. Compreendemos que as igrejas são um ator importante nesse conflito e precisam se posicionar do lado dos mais fracos. Iglesias y Minería vem se consolidando também em resposta a uma atitude cada vez mais frequente das mineradoras, que exercem um 'lobby' de pressão sobre as igrejas, a todos os níveis, tentando demonstrar que o modelo atual de extrativismo é virtuoso, inclusivo e sustentável. Trata-se, a nosso ver, de um processo de 'sedução institucional', inclusive amplamente documentado na análise dos projetos estratégicos de captura da 'licença social' pelas empresas. Sabemos, de fato, que além da licença ambiental o maior entrave para as empresas desenvolverem nos territórios seus interesses é a resistência social, que vem sendo analisada em termos de custos e conveniência por cada empreendimento. O que move a expansão da mineração, nos ritmos e taxas tão elevados de hoje, não é a preocupação pelo desenvolvimento de uma determinada região, nem a necessidade efetiva de uma determinada quantia de materiais minerais para a produção industrial, mas sim a perspectiva de lucro imediato garantida pelo valor financeiro do minério no mercado mundial e pela cotação em bolsa dos negócios das multinacionais mineiras. A grande maioria dos países de América Latina assumiu a pauta extrativista como o caminho mais fácil para manter um saldo positivo em suas balanças de pagamentos, vinculando o assim chamado desenvolvimento a políticas cada vez mais vorazes e neocoloniais de saque dos bens comuns. Esse espírito capitalista, que chega a consumir a própria Mãe Terra, se opõe ao espírito das igrejas, encarnado em pronunciamentos proféticos, tanto das igrejas protestantes, como da católica, cuja reflexão culmina na magistral encíclica Laudato Si'.   Nos últimos anos a mineração tem se convertido num dos grandes vilões da poluição na América Latina. Como tem atingido tudo isso na vida das comunidades mais pobres? Quais são as perspectivas de futuro? Dário Bossi – Não se trata só de poluição, mas de um processo sistemático, integrado e irrecuperável de ataque às vísceras da Mãe Terra em vista da acumulação rápida de benefícios para o lucro de poucos. Precisa compreender a mineração em América Latina como instalação de uma grande infraestrutura, fortemente impactante, em vista da extração e exportação de bens comuns para o exterior. A abertura de novas minas ou a expansão daquelas já existentes comporta graves violações socioambientais, como desmatamento, poluição, destruição de fontes e nascentes, expulsão de populações tradicionais de seus territórios, etc. Frequentemente, associam-se às grandes minas infraestruturas para a geração de energia, da qual necessita intensamente o processo extrativo. Há uma conexão direta entre as maiores hidrelétricas da Amazônia, por exemplo, e grandes projetos de mineração. Isso comporta despejos e expulsão de populações, assim como alteração dos equilíbrios das bacias fluviais de grandes regiões. Além disso, a instalação de canteiros de obras para esses projetos de mineração e geração de energia provoca migrações descontroladas e a criação de cidades improvisadas, em volta das obras, com poucas garantias de sustentabilidade ambiental e a perspectiva de tornar-se cidades-fantasma, habitadas por turmas de desempregados, homens, sem nenhuma perspectiva e com consequências de aumento de violência, alcoolismo e exploração sexual. A cidade de Altamira no Estado do Pará, por exemplo, é hoje a cidade mais violenta de todo o Brasil, logo após o término da construção da tão criticada mega-barragem de Belo Monte. A mineração pressupõe uma infraestrutura fortemente impactante em função do escoamento dos produtos até os principais portos, para exportação do minério. Seja no caso de ferrovias que de minerodutos, os danos sobre as comunidades atravessadas por essas infraestruturas são numerosos, diversificados e amplamente documentados e denunciados. O protesto social que todos esses impactos negativos provocam é frequentemente reprimido pelo aparado policial ou o sistema jurídico estatal, frequentemente aliado aos projetos extrativistas. O número de conflitos em América Latina ligados à mineração e de defensores e defensoras de direitos humanos mortos por estarem enfrentando a mineração está crescendo de forma preocupante.   Em alguns países, como o Brasil, nos últimos tempos os governos, especialmente aqueles mais ligados com a corrupção tem flexibilizado os requisitos para o trabalho das grandes mineradoras. Frente a isso, o povo cada vez está mais consciente dos perigos das mineradoras. Como enfrentar essas alianças perversas entre governos corruptos e grandes mineradoras? Dário Bossi – No Brasil há anos criamos o Comitê Nacional em Defesa dos Territórios frente à Mineração, do qual a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) é um dos membros fundadores. Trata-se de uma articulação ampla de setores organizados da sociedade civil, incluindo instituições, entidades, redes, movimentos sociais e sindicados, que há anos está acompanhando a definição de políticas nacionais de regulação do extrativismo. Não estamos negando a necessidade da mineração, mas denunciamos de maneira forte, bem articulada e embasada a partir de assessorias muito competentes, a insustentabilidade desse modelo de extrativismo, recomendando sete passos para a migração da mineração de saque à mineração essencial. Para atingir o equilíbrio na utilização dos recursos naturais é necessária a transição de um modelo saqueador de recursos para um modelo pautado na economia local, na produção de bens duráveis, na diminuição do consumo, no desenvolvimento de uma noção de limites de produção e na reutilização de recursos. Esse cenário pós-extrativista também prevê a volta da valorização da produção ligada ao território, da sabedoria dos povos. As relações regionais entre países também devem ser recuperadas, eles devem saber definir suas reais necessidades econômicas, superando o modelo exportador.   A Igreja católica, especialmente a hierarquia, tem tomado postura em contra dessa problemática? A Laudato Si e a figura do Papa Francisco, tem ajudado nessa direção? Dário Bossi – A Igreja Católica no Brasil demostra sua preocupação com respeito à afirmação incondicional da pauta extrativista, amplificada nesse novo período de governo que muitos consideram ilegítimo, depois do impeachment da presidente eleita. Criou-se na CNBB um Grupo de Trabalho sobre mineração para assessoria permanente dos bispos. Da mesma forma, a Conferência Episcopal Latino-Americana (Celam) estará publicando em breve uma exortação apostólica muito bem fundamentada sobre as agressões da mineração e a necessidade de cuidarmos, coletivamente, da casa comum. Trata-se de uma releitura da Laudato Si' a partir da preocupante pauta extrativista dos governos de nosso continente e das empresas multinacionais que aqui se instalaram. Em alguns países os bispos acompanham muito de perto as comunidades atingidas por mineração. Em El Salvador, a Igreja Católica liderou um movimento popular organizado e persistente, que levou à aprovação histórica (em março de 2017) da primeira lei no mundo que proíbe a mineração metálica em todo o país. A encíclica Laudato Si' tem sido profética nesse sentido e inspira o movimento e a resistência de muitas comunidades. Alerta sobre a inversão de prioridades, que coloca o lucro acima dos interesses coletivos e do cuidado para com o bem comum. Invoca a retomada do controle da política sobre a economia e denuncia o ritmo desenfreado de consumismo, destacando o limite da Terra e da existência humana e exortando a uma mudança integral de paradigma, a conversão ecológica. Valoriza a resistência das pequenas comunidades, destacando o papel essencial das populações tradicionais e das comunidades na administração de seus territórios. Sonha com um resgate das instituições nacionais e internacionais, purificadas do controle do capital, orientadas pelo princípio da justiça intergeracional, com a urgentíssima missão de reconduzir a humanidade a modelos de vida e coexistência com o planeta realmente sustentáveis.   A luta da defesa da Casa Comum tem deixado muitos mártires na história da América Latina. Sirvam como exemplo Chico Mendes, a Irmã Dorothy Stang, Berta Cáceres... Não está faltando um reconhecimento mais explícito por parte da Igreja para com essas pessoas que deram a vida na preservação da Criação? Dário Bossi – A Rede Eclesial Pan-Amazônica está desenvolvendo um trabalho intenso e sistemático de resgate das vozes da Amazônia. De um lado, queremos nos por atentamente à escuta das comunidades tradicionais, da sabedoria ancestral dos povos indígenas, das necessidades das comunidades ribeirinhas ou das populações camponesas, que perdem progressivamente acesso aos bens da Casa Comum subtraídos pelo extrativismo. Do outro lado, estamos resgatando o testemunho dos e das mártires da Amazônia, em atitude de reverência e indignação, gritando um “Basta!” a essa agressão sistemática. Essas vozes da Amazônia precisam ser escutadas mais pela igreja e a sociedade do mundo inteiro, porque nelas se condensa também o grito silencioso da Mãe Terra em agonia.   Aos poucos a reflexão teológica vai avançando na chamada Ecoteologia, como isso pode ajudar a descobrir que o fundamento de todo tipo de vida e de toda reflexão está no cuidado da Criação? Dário Bossi – A ecoteologia é uma reflexão sistemática sobre as categorias mentais que conformam nossa relação com Deus e a Criação. Além de aprofundar a teologia cristã nessa vertente, oferece elementos para aprofundar também uma espiritualidade ecológica integrada com toda a criação e em diálogo permanente com outras culturas e tradições religiosas. Creio que ela possa contribuir muito em nosso processo de conversão ecológica, seja na perspectiva da desconstrução de categorias anticristãs, seja na reconstrução de uma nova visão de mundo. A ecoteologia pode nos ajudar, por exemplo, na desconstrução de leituras bíblicas patriarcais e hegemônicas, que associaram os mitos de criação a uma visão androcêntrica da ordem natural, da sociedade e da vida religiosa. Essas mesmas interpretações explicam a instalação de sistemas de poder opressivos contra os pobres e a Mãe Terra, onde a violência é justificada em função da estabilidade de uma ordem que favorece os detentores da autoridade política e econômica. Por outro lado a ecoteologia, em diálogo aberto e franco com outras ciências, reflexões religiosas e espiritualidades, pode nos ajudar para avançarmos na compreensão da interligação entre todas as formas de vida e do papel relevante do ser humano como responsável para o cuidado da vida no Planeta.   A Rede Igrejas e Mineria está representada na Repam. Quais são os aportes que a Rede está fazendo no cuidado da Casa Comum e dos povos que a habitam? Dário Bossi – A rede Iglesias y Minería e a Repam são duas articulações complementares. A primeira, que tem um perfil ecumênico e uma estrutura de rede mais informal, atua em âmbito continental, a partir do tema específico do extrativismo mineiro. A segunda está focada no território da Panamazônia, abrangendo porém todo o leque dos desafios socioambientais dessa região. Ambas nasceram há pouco (em 2013 e 2014) e colaboram de maneira dinâmica e interativa. A Repam considera os povos indígenas como sujeitos prioritários de sua ação, pondo-se à sua escuta e valorizando a contribuição de sua sabedoria e prática de vida: o Bem Viver. Investe muitas forças na comunicação e na formação, eixos em que existe uma rica colaboração com IyM. No Brasil, a Repam realizou muitos seminários sobre a Laudato Si' em diversas dioceses da Amazônia e continua se articulando com as comunidades e pastorais organizadas em nível de base. Há um empenho sistemático e consolidado da Repam no campo da defesa e promoção dos direitos humanos dos povos amazônicos: também nesse campo existe uma preciosa interação com IyM, especialmente quanto ao acompanhamento de alguns casos paradigmáticos de violações, cujo pleito está sendo levado às instâncias internacionais de defesa dos direitos, enquanto cotidianamente as igrejas e atores locais acompanham o conflito no território local.   Um dos objetivos do Sínodo dos bispos da Pan-Amazônia é a preservação da região. Frente a isso, os grandes projetos das mineradoras são umas das principais ameaças dessa Pan-Amazônia. Qual deve ser a proposta do Sínodo diante dessa realidade? Dário Bossi – A Carta do Celam sobre extrativismo, de próxima publicação, aponta já a algumas propostas para a Igreja frente à mineração. A Igreja pode ser um ator relevante para incentivar os governos locais e políticas internacionais em vista de uma regulamentação da mineração, com transições do modelo de saque dos recursos à mineração necessária e essencial. Nos países menores, como El Salvador ou Costa Rica que já se opuseram à mineração em nível nacional porque as dimensões do território nacional não aguentam o tamanho dos impactos socioambientais, a Igreja pode defender moratórias e banimento da mineração. Em países onde há contínuas agressões às lideranças em defesa dos direitos humanos, como Guatemala, Honduras, Colômbia, Peru e também Brasil, entre outros, a Igreja pode ser voz dos perseguidos, exigindo proteção deles e investigação e responsabilização nos casos de violações já perpetradas. Em geral, a Igreja pode promover percursos de formação, em sintonia com a Laudato Si', para que as comunidades amadureçam sua reverência à Mãe Terra e sua vigilância para o cuidado dela. É necessária uma vigilância especial sobre a aproximação sedutora das grandes empresas de mineração às igrejas, em busca de legitimação social e 'bênção' espiritual, em troca de poucos benefícios pontuais e frequentemente sem efetiva mudança de atitudes para com as comunidades locais. Uma última provocação que o Sínodo poderia dar às igrejas diz respeito ao ouro, cuja extração é provavelmente a responsável dos maiores danos socioambientais no Planeta e cuja utilidade é extremamente limitada. Longe de poder simbolizar, nas liturgias, glória e honra para Deus, o ouro é materialização dos ciclos históricos de saque e devastação contra a criação inteira. Retirar esse símbolo de nossas celebrações teria um significado intenso na consolidação da posição crítica da Igreja frente à mineração.  
Entrevista com dom Evaristo Spengler, bispo do Marajó, no Pará

Entrevista com dom Evaristo Spengler, bispo do Marajó, no Pará

Por Luis Miguel Modino   Dom Evaristo Spengler é bispo da Prelazia do Marajó desde 2016, uma região marcada pela violência, situação já vivida na missão em Angola, onde passou dez anos após o fim da Guerra Civil, e na Baixada Fluminense, dominada pelo “crime organizado, tráfico de drogas e grupos de extermínio muito fortes”. Na região do Marajó “os piratas atacam constantemente, seja as balsas e navios que passam, mas de modo especial a população ribeirinha”. Mas a violência também se faz presente na “exploração sexual e o tráfico de pessoas”, se dando situações arrepiantes, como “um pai que abusa de uma filha”. São situações que muitas vezes não são denunciadas “para não criar problemas familiares ou problemas entre vizinhos”, o que se agrava pelo fato do “Estado está muito pouco presente na região do Marajó”. Diante disso, “a Igreja faz um trabalho de conscientização junto a população”, promovendo um trabalho em rede. Como bispo da Amazônia, dom Evaristo vê o Sínodo da Pan-Amazônia, que segundo ele era algo já falado pelo Papa desde 2016, quando encontrou com ele no curso de novos bispos, como um instrumento que pode ajudar a Igreja da Amazônia, “sufocada pelo excesso de trabalho e uma dificuldade de perceber o trabalho mais em conjunto, situações mais globais”, para “pensar a pastoral, a evangelização na Amazônia como um todo e não ficar focado apenas naquela realidade muito local”. O Sínodo pode ser, segundo o bispo do Marajó, uma oportunidade para que “possam surgir novos ministérios para nossas comunidades”, que segundo ele, “não precisam ser imitados ou também utilizados em outras regiões, porque eles partem da realidade local”, o que vai ajudar numa maior presença eclesial, “especialmente nas comunidades ribeirinhas”. Em sua opinião, “a Igreja do Brasil como um todo tem que crescer em espírito missionário”, pois diante da necessidade de missionários na Amazônia “falta a iniciativa dos padres quererem ir”. Desde aí, critica alguns padres “acomodados a uma vida um pouco mais fácil e não querem se lançar ao desafio da missão”, atitude contraria àquilo que o Papa Francisco e a CNBB quer, “uma Igreja missionaria, uma Igreja em saída, uma Igreja aberta ao excluídos, aos mais pobres”.     O senhor chegou na Amazônia, como bispo da Prelazia de Marajó, há pouco mais de um ano, vindo de uma realidade completamente diferente, como é a Baixada Fluminense. O que tem mudado em sua vida o fato de ir morar na Amazônia e assumir o ministério episcopal? Dom Evaristo Spengler - Na verdade teve duas experiências fortes de trabalho anterior, uma tinha sido em Angola, onde fiquei dez anos no final da Guerra Civil, na reconstrução do país, fiquei de 2001 a 2010 e a segunda experiência foi de fato na Baixada Fluminense, em Duque de Caxias, e as três realidades são marcadas pela violência. A Baixada Fluminense talvez de uma forma um pouco diferente, com o crime organizado, tráfico de drogas e grupos de extermínio muito fortes, e aqui na região da Amazônia eu estou vendo uma Igreja com muita vida, com muita participação, seja de jovens, de adultos e uma Igreja que está despertando cada vez mais para essa situação social. A nossa realidade do Marajó é uma realidade marcada pela violência dos rios e pela violência das cidades. Nos rios, o Tajapuru é o mais famoso deles nesse sentido, é um lugar onde os piratas atacam constantemente, seja as balsas e navios que passam, mas de modo especial a população ribeirinha, e nas cidades, cada vez mais, o povo tem medo de sair. Está havendo um inchamento das cidades, embora ainda não seja comparável às nossas capitais brasileiras. Hoje o povo está começando buscar caminhos de enfrentamento, seja da violência, da exploração sexual, do tráfico de pessoas, que também é comum naquela região.   Seu predecessor, Dom Azcona, foi ameaçado muitas vezes por denunciar a exploração sexual de crianças e adolescentes. Como está essa realidade hoje na Ilha do Marajó? Dom Evaristo Spengler - Se esperava que com todas essas denúncias públicas começassem a diminuir os casos, mas pelo contrario, parece que cada vez mais aumentam e alguns querem dizer que é algo cultural da região. Na verdade, nós não podemos entender dessa forma. É algo aceito como normal, o que não é normal. Um pai que abusa de uma filha, um tio que abusa de uma sobrinha, um padrasto que abusa de uma enteada. Parece que as pessoas ainda têm uma visão de que existe um dono e uma outra pessoa que é um objeto que é posse sua. Essa relação é difícil ser mudada em pouco tempo. Por isso, as situações crescem cada vez mais.   O papel da policia, das autoridades diante dessa situação, pelo que o senhor diz, parece que estão omissos diante dessa situação. O povo não denuncia, a policia e as autoridades não fazem muita coisa, o que está acontecendo? Dom Evaristo Spengler - Eu vejo dois aspectos, um que de fato a população não denuncia, isso para não criar problemas familiares ou problemas entre vizinhos, então se acoberta muito. Até mesmo uma esposa que sabe que o marido faz isso com uma filha, ela não denuncia a policia. E o segundo caso que gera isso, é que o Estado está muito pouco presente na região do Marajo. Nós temos grandes distancias, e a maior parte da população mora ainda nas áreas ribeirinhas, onde a policia não tem acesso, porque a policia tem um carro que anda na cidade, mas não tem uma lancha que vai pelos rios. Para a população chegar até a cidade já é muito difícil, e quando chega para denunciar à policia, eles vão exigir pelo menos dois mil reais para ir até aquela situação, para pagar o aluguel de uma lancha e o combustível. A população não tem esse dinheiro. Então os casos ficam assim, abafados.   O que é que a Igreja está fazendo diante dessa realidade? Dom Evaristo Spengler - A Igreja ela faz um trabalho de conscientização junto a população, seja nas comunidades, nas escolas, nos vários fóruns que existem, mas também se articula junto com outros grupos, e  gente sabe que esse enfrentamento não pode ser de um grupo apenas, mas tem que ser de uma rede. É lógico que tem que haver uma parceria com os policiais que estejam comprometidos, com o Ministério Público, com professores, com a área de saúde. A rede ela vai detectando onde está acontecendo esses casos e pode chegar a denunciar, normalmente em Belém, pois nas cidades locais é muito difícil de ser encaminhada uma situação dessas.   A Igreja da Amazônia está vivendo um momento de esperança a partir da convocação do Sínodo dos Bispos da Pan-Amazônia. Que desperta no senhor esta convocatória por parte do Papa Francisco? Dom Evaristo Spengler - O Papa Francisco é uma benção para a Igreja e desperta sempre de novo em nós a esperança e a cada dia nos aponta novos caminhos. A Igreja da Amazônia, ela vive uma busca de novos caminhos. E talvez pelas distancias, pelo excesso de trabalho, temos um padre sozinho em paróquias com cem comunidades, que visita a comunidade uma vez por ano, apenas. Então essa Igreja se sentia sufocada pelo excesso de trabalho e uma dificuldade de perceber o trabalho mais em conjunto, situações mais globais. O Papa Francisco, ele vem buscar esse desejo de pensar a pastoral, a evangelização na Amazônia como um todo e não ficar focado apenas naquela realidade muito local, mas pensar também em situação globais. Penso que é possível que a partir de toda essa reflexão, a partir desse Sínodo, possam surgir novos ministérios para as nossas comunidades, a partir dessa realidade local, e certamente vai despertar muito nossa Igreja para a realidade social, para o enfrentamento de todos esses grandes problemas que atingem diretamente nosso povo, que é o povo mais amado por Deus, o povo mais pobre.   Esses novos ministérios devem ser ministérios laicais, e a Igreja do Brasil está celebrando o Ano do Laicato. Como esse Ano do Laicato, esse Sínodo da Pan-Amazônia, pode ajudar a procurar esses novos ministérios, esses novos caminhos na Amazônia? Dom Evaristo Spengler - Toda essa reflexão que já parte agora com o Ano do Laicato e depois muito mais com o Sínodo da Amazônia, vai ajudar a despertar ministérios locais, que não precisam ser imitados ou também utilizados em outras regiões, porque eles partem da realidade local. A Igreja sente uma ausência sua especialmente nas comunidades ribeirinhas. Nós temos gente muito pouco preparada ainda, seja para conduzir as celebrações, para que a Palavra de Deus seja partilhada, e com certeza vai passar pelo processo de fundo de formação dos nossos leigos para que possam ser uma presença mais qualificada da Igreja no seu local de atuação.   Tanto Dom Claudio Hummes, como Dom Erwin Kräutler, desde seu labor na REPAM e na Comissão Episcopal para a Amazônia, está insistindo nessa presença da Igreja nas comunidades, em temas como a celebração da Eucaristia. Isso é uma coisa que não pode esperar mais? Dom Evaristo Spengler - Com certeza, porque em muitas regiões ainda se segue aquele sistema de desobriga, o padre que passa uma vez por ano, ele celebra a Eucaristia, atende as confissões, faz os batizados, os casamentos e o povo fica mais um ano sozinho.   Frente a isso, as Igrejas evangélicas, sobretudo as pentecostais, que estão espalhadas pelo Brasil todo, e também na Amazônia, estão tendo uma presença muito mais continua, através dos pastores e dos diferentes ministérios que têm em suas igrejas. Como isso está mexendo com o povo, com os católicos da Amazônia? Dom Evaristo Spengler - Sempre digo que o problema dos evangélicos não é um problema de que eles estão se alastrando, estão evangelizando, estão se instalando mais do que nós. Acho que é um problema de vacuo nosso, nós deixamos um vazio, e o nosso povo busca, ele busca a Palavra de Deus, busca a celebração, e quando se sente tão longe, tão distante que a Igreja, através de seus ministros ordenados, passa lá uma vez por ano, e eles ficam um ano sozinhos novamente. Quando alguém propõe e vem até nós porque nós não temos uma presença continua, então é muito comum que vilas inteiras passem para uma Igreja pentecostal. O problema é nosso, nós deixamos esse vazio, nós não damos essa atenção aos nossos católicos.   A gente poderia afirmar, com pesar, que a Igreja católica, por diferentes circunstancias, as vezes por falta de pessoas para fazer esse trabalho missionário, está abandonando as comunidades do interior da Amazônia? Dom Evaristo Spengler - Eu penso que a Igreja do Brasil como um todo tem que crescer no espírito missionário. Conversando com bispos de outras regiões, do Sul e Sudeste, que até motivam seus padres a irem por um tempo na Amazônia prestar uma solidariedade, uma ajuda ao trabalho da evangelização, dizem nós disponibilizamos, mas falta a iniciativa dos padres quererem ir. Então, que tipo de padres hoje nós estamos formando, que são ainda padres talvez em muitos lugares, em muitas circunstancias, acomodados a uma vida um pouco mais fácil e não querem se lançar ao desafio da missão, especialmente na região amazônica. A região amazônica está crescendo também em vocações religiosas, missionarias e sacerdotais, mas  é um processo que vai demorar ainda algum tempo, talvez para o futuro nós tenhamos muitas vocações locais, mas as Igrejas estão ainda se organizando nesse momento.   Essa denúncia, constatação, que o senhor faz sobre os padres, não seria ir em contra desse espírito do Papa Francisco, que sempre está nos falando de Igreja missionaria, de Igreja em saída, de Igreja que tem uma consciência universal e não se centra só nas necessidades locais? Dom Evaristo Spengler - Tanto o Papa Francisco como a Igreja do Brasil, pelo menos a Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB, sempre quis despertar, sempre incentivou, sempre motivou uma Igreja missionaria, uma Igreja em saída, uma Igreja aberta ao excluídos, aos mais pobres. Agora, depende muito também dessa história pessoal de cada um e de cada um se lançar diante do novo. Às vezes o seguro, que está perto e acomoda, acaba dando certa garantia para minha vida que a missão, que é desafiadora, não dá.   O Papa Francisco tem sinais proféticos, como foi a celebração do dia dos pobres e de se sentar-se à mesa com 1500 pobres, o que tem sido um fato que tem impactado muito a sociedade mundial. Como trazer esses sinais proféticos para nossas Igrejas locais, para nossas comunidades? Dom Evaristo Spengler - O Papa Francisco, ele trabalha muito com gestos para que nós percebamos o espírito que está por trás. Quando o Papa Francisco senta à mesa, ele diz nós temos que ir ao encontro do pobre, tem que ir ao encontro do excluído, e não é apenas para um dia, mas para organizar nossa evangelização tendo o pobre como centro, porque o pobre é o centro do Evangelho, o pobre é o centro do Reino de Deus. Jesus Cristo, ele dedicou a sua vida à causa dos pobres, e ele mesmo, no capítulo 4 de São Lucas diz “O Espírito do Senhor está sobre mim para evangelizar os pobres”. Então, o pobre é o centro do Evangelho, é o centro do Reino de Deus, o pobre é o centro da Igreja.   Isso põe de manifesto, que o Papa Francisco sempre nos incomoda, nos deixa inquietos, nos leva a nos questionarmos pessoalmente e também como Igreja. Esses questionamentos podem nos ajudar a crescer e a fazer realidade essa conversão pastoral que ele tanto espera, que ele tanto quer para a Igreja? Dom Evaristo Spengler  - Com certeza. O Papa Francisco pede uma conversão que nós não podemos fazer a remendos. Alguns podem interpretar esse gesto do Papa Francisco apenas fazendo uma caridade pontual, buscando uma Igreja com uma solidariedade com o pobre, mas sem ir ao encontro para ficar com ele. O Papa Francisco quer nos colocar em uma outra dinâmica, fazer com que toda a Igreja se converta, haja uma conversão pastoral e que o pobre seja o centro dessa evangelização.   Em janeiro, o Papa Francisco vai visitar Puerto Maldonado, que é uma diocese da Amazônia, o que significa essa visita para alguém que mora na Amazônia, para alguém que é bispo na Amazônia? Dom Evaristo Spengler - O Papa Francisco sempre demostrou um grande carinho pela Amazônia. O ano passado nós tivemos o curso dos novos bispos, e quando um dos bispos que estava conosco se apresentou como sendo da Amazônia, ele pegou na orelha com carinho do bispo y diz não se esqueçam do Sínodo da Amazônia. Significa que ele já estava mandando recado, que queria que os bispos dos vários países que compõem aqui a grande Amazônia estiverem abertos a um Sínodo para uma grande reflexão e buscar uma nova forma de atuação. Tudo o que o Papa Francisco faz em direção à Amazônia nos traz esperança e nos motiva a caminhar cada vez mais em comunhão com ele e buscar aqui atualizar uma Igreja que seja de fato missionaria e em permanente conversão.   Será que o Papa Francisco precisa puxar ainda mais a orelha da Igreja e dos bispos da Amazônia para que se impliquem no Sínodo? Dom Evaristo Spengler - Eu acho que os bispos estão entendendo já muito bem o que o Papa Francisco deseja e acho que todos estão agora buscando essa comunhão de trazer novas soluções, porque sozinhos nós não teremos soluções globais das quais a nossa Igreja necessita.