*Por Thais Lazzeri

     O médico espanhol Carlos Beristain, 57 anos, doutor em psicologia da saúde pela universidade Universidade do País Basco, fez carreira investigando violações de direitos humanos na América Latina e na África. Ele chegou ao Brasil para acompanhar o caso dos piauienses resgatados de trabalho escravo contemporâneo na fazenda Brasil Verde, em Sapucaia (PA), entre os anos de 1997 e 2000. Em uma sala emprestada pela Diocese de Barras, no interior do Piauí, Beristain conversa com 44 vítimas (entre trabalhadores e suas esposas) dessa tragédia social. Sem falar português, as orientações do médicos são traduzidas pela cientista política Beatriz Affonso, diretora do Centro de Justiça e Direito Internacional (Cejil), que acompanha o processo desde o início.

     A missão de Beristain é preparar os trabalhadores para um presente que eles ainda não veem com clareza: eles deixaram de ser vítimas invisíveis para se tornarem protagonistas da primeira condenação por trabalho escravo feita pela Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) em 37 anos. "A sentença da Corte é a metade do caminho", diz Beristain, sobre a jornada que já dura quase duas décadas. Confira a entrevista que ele deu à Repórter Brasil.

Os trabalhadores com que o senhor conversou esperaram quase duas décadas por uma resposta, que veio com a decisão final da Corte. Alguns relataram dúvidas sobre a sentença, que não cabe recurso. A incredulidade é uma reação comum? 
     Carlos Beristain: A história desses trabalhadores é a mesma de quase todos os casos que chegam à Corte Interamericana de Direitos Humanos. Quando o caso chega lá, com dez, quinze anos, é porque se esgotaram os recursos internos dos países. Com isso, chega também a desconfiança. Muitos dos trabalhadores com quem falei hoje, apesar da sentença final, seguem duvidando da condenação. Eles ainda não acreditam no resultado. Isso mostra que nunca tiveram respostas positivas para suas demandas. Para muitas vítimas, a impunidade e o desprezo de anos traz um sentimento de impotência, de que não será possível.

Como essa espera impactou a vida dessas vítimas de trabalho escravo contemporâneo? 
     Beristain: Essas pessoas não puderam ficar esperando uma resposta do Estado para seguir com suas vidas. Elas precisaram lidar com problemas e traumas do jeito que foi possível. O tempo fez com que as vítimas se adaptassem a uma situação difícil sem ajuda alguma, porque não havia outra opção para poder sobreviver. O tempo, em geral, gera um cansaço nas vítimas, algo que o Estado não sente. E quanto mais tempo passa, mais o impacto se acumula. Mas essas vítimas não desistiram em razão do caminho longo e sem respostas do Estado e também e foram capazes de manter o processo coletivo, que é importantíssimo.

O senhor quer dizer que esses trabalhadores são vítimas mais resistentes, é isso? 
     Beristain: Exato. Não estamos falando de qualquer tipo de vítima. São pessoas com capacidade de resistência, de luta e de enfrentamento à pobreza e à exclusão social. A vítima não é, apenas, alguém que sofre, mas também uma pessoa que resiste e ensina muitas coisas. Todos esses trabalhadores e suas famílias são exemplos disso. Como vítimas de violações de direitos humanos, vivenciaram o desprezo, o ataque à dignidade, o sentimento de perda da vida que não puderam ter ou a perda de pessoas queridas e a perda de confiança nas instituições do Estado, que supostamente deveriam protegê-los. E a impunidade piora a situação de vulnerabilidade e fragilidade.

Na época da Fazenda Brasil Verde, havia trabalhadores resgatados menores de idade. Outros, passavam dos 50 anos. A idade impacta de alguma maneira? 
     Beristain: O impacto depende de muitos fatores, mas a idade é um fator chave quando se trata de crianças. A população infantil sofre mais, o projeto de vida é mais afetado. Mas você também tinha lá trabalhadores com responsabilidades familiares, filhos para alimentar. Essa situação cria uma identidade de alguém que teria que prover recursos e não conseguiu, com um sentido de fracasso, de não ser um bom pai, porque não há um cumprimento do básico. O básico é a batalha do dia a dia, não de onde podem começar a vida. O tempo tem um custo alto para a saúde dos velhos, que sofrem mais com as sequelas fruto do trabalho escravo, das condições de pobreza. Por tudo isso, as consequências se estendem às família também.

A sentença da Corte , publicada no final do ano passado, é o fim desse processo? 
     Beristain: No caso dos trabalhadores, o momento é pensar a reparação que a Corte obrigou o Estado a fazer. Apesar de ser um valor simbólico, é uma demanda nova, que precisa ser conversada com gente de confiança, que pode prepará-los para possíveis cenários futuros. Não saber escrever não significa que sejam tontos.      O que expliquei também é que a sentença é a metade do caminho. O que vem depois é tão importante quanto a luta de quase duas décadas. É preciso que se cumpra a sentença, que seja efetiva e que gere um impacto positivo na vida deles. Não basta apertar um botão e 'puf', melhorou. E uma das bases para isso acontecer é manter, sempre, o processo coletivo. É importante que a vítima compreenda a dimensão do reconhecimento da violação, a injustiça que sofreram e a responsabilidade do Estado.

Qual a avaliação do senhor sobre o cumprimento da sentença por parte dos países condenados? 
     Beristain: Os Estados tendem a cumprir mais umas coisas que outras. O que mais cumprem são a publicação da sentença - em um meio de comunicação, por exemplo - e a reparação econômica. O que menos cumprem é a investigação e a justiça, porque isso exige uma transformação do Estado, que os mecanismos de impunidade sejam extintos, que políticas públicas sejam criadas e colocadas em prática. Os Estados mostram pouca vontade de fazer isso. Nesse caso, fazendeiros foram os responsáveis pelo trabalho escravo. Mas não serão eles que ressarcirão as vítimas. Os Estados nunca buscam os realmente responsáveis porque, em geral, são pessoas com algum tipo de poder.

A sociedade penaliza a vítima? 
     Beristain: Essa é uma questão chave. Apesar das pessoas falarem sobre as violações, em geral elas não se deixam tocar pela experiência, enxergam de longe a dor do outro. A outra é culpabilizar a vítima, como se o Estado não fosse o causador. Esse distanciamento é contrário à empatia. A insensibilidade diante do sofrimento do outro sempre perpetua as violações de direitos humanos, sempre. Se perdemos a consciência do que são os direitos humanos, estamos perdidos como sociedade. Os desaparecidos, os migrantes, os trabalhadores... somos nós. O escritor inglês John Berger disse que a última esperança da humanidade é quando o inominável encontra um nome. Isso pode gerar uma consciência que diga 'isso é intolerável, não pode passar'. O que estamos a ponto de perder nesta nova época é essa consciência de que a verdade sobre o que se sucede é intolerável e que não se pode permitir. E esse sim é o núcleo duro de todo esse trabalho.

* Reportagem publicada originalmente no site reporterbrasil.org.br