Por Luis Miguel Modino

A Comissão Pastoral da Terra /CPT  é o organismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil/CNBB  que, durante quarenta anos, tem lutado pelos direitos dos pequenos camponeses, sendo uma presença solidária, profética, ecumênica, fraterna e afetiva, que presta um serviço educativo e transformador junto aos povos da terra e das águas,para estimular e reforçar seu protagonismo. Na última semana, a CPT, em assembleia, elegeu uma nova coordenação nacional para os próximos três anos. O serviço de Presidente Nacional ficou com Dom André de Witte, bispo de Ruy Barbosa, na Bahia, e, na vice-presidência, Dom José Ionilton Lisboa de Oliveira, bispo de Itacoatiara, no Amazonas, assumiu o trabalho. Junto com eles, quatro coordenadores executivos articulam o trabalho pastoral.

Na entrevista, o novo presidente da CPT, Dom André de Witte, reflete sobre a atual conjuntura e os desafios a serem enfrentados pelo organismo. O bispo de origem belga, chegou ao Brasil na década de 1970 como missionário na diocese de Alagoinhas, na Bahia. Desde 1994, é pastor na diocese de Ruy Barbosa, uma referência no trabalho das pastorais sociais.

Para Dom André, a Igreja deve cuidar de “todo o trabalho ‘interno’: sua liturgia, a Bíblia, a catequese etc.”,  mas, ao mesmo tempo, tem que saber que sua missão também “é participar da construção de uma sociedade justa é solidária, a serviço da vida e da esperança, rumo ao Reino definitivo”. Pare ele, “a Igreja é chamada a caminhar com equilíbrio, com estas duas pernas”. 

O bispo destaca, ainda, que “somos todos chamados a ser discípulos e missionários com as atitudes de Jesus”, pois, como ele reconhece, “todo o trabalho de toda a CPT deve mostrar a opção pelos pobres da Igreja”.

 

Para alguém que nos últimos três anos foi Vice-presidente, o que significa assumir o serviço da presidência da CPT?

Como a própria pergunta diz: é assumir um serviço. Por vários motivos preferia que fosse outro irmão a assumir, mas também não quero “tirar o corpo fora” e vou continuar um trabalho que é colegial, com um vice-presidente e quatro coordenadores executivos. Com três anos de participação neste colégio – na vida da CPT nos seus vários regionais – já deu para participar de muitas alegrias e dificuldades da CPT, conhecer e reconhecer melhor o seu valor na Igreja e na sociedade, e a responsabilidade que significa representá-la.

 

No momento histórico atual, qual é o papel da CPT diante dessa conjuntura?

 Nessa conjuntura, como em outra, a CPT é uma Comissão PASTORAL da Terra. E a missão evangelizadora da Igreja, dos discípulos do Bom Pastor, é, de um lado, cuidar de formar o Povo de Deus. Isto trata da nossa identidade e abrange todo o trabalho ‘interno’ da Igreja: sua liturgia, a Bíblia, a catequese etc. Mas o outro lado é igualmente essencial, sem dúvida é social, mas é tão eclesial quanto o primeiro: é participar da construção de uma sociedade justa é solidária, a serviço da vida e da esperança, rumo ao Reino definitivo. A Igreja é chamada a caminhar com equilíbrio, com estas duas pernas.

Quando um governo, como agora, prejudica e diminui as condições de vida que os filhos e as filhas de Deus merecem, é claro que a Igreja tem que denunciar com firmeza e com clareza. Existem os direitos sociais e a doutrina social da Igreja, mas a base de tudo e a nossa motivação é que Jesus veio para que todos tenham vida e vida em abundância (Jo 10,10). O Papa Francisco lembrou repetidamente os direitos dos pequenos, aos quais é negado ou até tirada a Terra, o Trabalho e as suas condições dignas e o Teto para a vida familiar. As Pastorais Sociais, que por opção e missão estão junto de pessoas e de categorias vulneráveis e ameaçadas, são as primeiras a “ver a opressão e ouvir o clamor” (cf Ex. 3,7) e devem ser as primeiras a agir. Por isso, nesta matéria, notas da CPT e da Comissão Episcopal para a Ação Social Transformadora podem sair antes daquelas da CNBB, mas isso não tira a missão e, portanto, a corresponsabilidade de ninguém.

 

A CPT sente o apoio do conjunto do episcopado brasileiro?

 Certamente, seria o ideal que todos os bispos referenciais nos Regionais, da CPT, das Pastorais Sociais e de qualquer outra pastoral pudessem testemunhar: “Todos os bispos do regional apoiam esta pastoral”. Mas nem todos podem estar em tudo. Eu os represento junto desta pastoral. Por toda parte encontramos a grande expectativa do povo de sentir o apoio do seu bispo e do conjunto do episcopado. A pesar de toda a dedicação recebida, nem sempre ele se sente, plenamente, satisfeito.

Como padre, anos atrás, fiquei escandalizado quando ouvi de um bispo num encontro de lavradores: “Sou o bispo da CPT deste Regional, mas um irmão bispo disse: ‘Na minha Diocese não precisamos de você’”. Será um fato isolado e passado?

Graças a Deus a CPT e a sua missão são acolhidas. Muito mais do que ter o seu nome no organograma, foi criada pela CNBB e o seu serviço faz parte da ação social transformadora desta. As suas iniciativas são destinadas ao povo que é confiado a todos. A acolhida, o apoio direto e indireto, o somar forças, a partilha, os questionamentos e as críticas acontecem como com iniciativas de outras pastorais. Aqui também a expectativa de quem está diretamente ligado com a CPT é que os irmãos bispos e suas dioceses valorizem e apoiem o serviço à vida e para uma sociedade justa e somem sempre mais forças.

 

O senhor concorda com a afirmação que muitos fazem, ao dizerem que as Pastorais Sociais perderam a força profética das décadas passadas? Se for assim, o que fazer para recuperá-la?

 Continua, para os discípulos de Jesus, a missão de proclamar a mesma mensagem profética, denunciar as forças contrárias ao Projeto de Deus e anunciar que Ele é o Vencedor que nunca deixa de estar ao lado do povo. Concordo que em décadas passadas fomos agraciados com pessoas extraordinárias que tinham o dom especial de profunda sensibilidade para a vida e o sofrimento do povo e de fazer ressoar com toda força sobre esta realidade a mensagem profética. Assim, hoje, se destaca o papa Francisco.

É Deus que nos oferece estes seus presentes quando quer. Sua palavra, para dar frutos como a chuva, nos vem e nos chama a agir também através deles. O papa, hoje, nos convoca à conversão pastoral, a sair para as periferias. Lá vamos ver as pessoas assaltadas pelo sistema, onde o mercado e o lucro estão no centro e os pequenos, preferidos de Deus, caem à beira da estrada. E, se tivermos o olhar e o coração do bom samaritano, pode crescer a sensibilidade e a compaixão. Então, junto com a motivação da fé, podem e devem inspirar a ação transformadora que provará a fé pela caridade em ação.

 

Os conflitos no campo e a perseguição contra os líderes dos movimentos e pastorais sociais aumentam a cada dia no Brasil. Um exemplo claro é a prisão do Padre Amaro Lopes, da CPT do Pará. Como Presidente da CPT, o que senhor tem a dizer dessa situação?

 É um exemplo claro dos meios violentos que são usados para calar, afastar, criminalizar, matar, fisica ou moralmente, as pessoas que lutam contra um sistema de morte para os pequenos e, consequentemente, contrariando o sistema – neoliberal, do capitalismo selvagem, do mercado, do latifúndio – e/ou aqueles que dele se beneficiam.

É um exemplo, também, de como a proximidade influencia positivamente a nossa atitude e o nosso agir, como falei na pergunta anterior. Já tinha ouvido “o caso”, mas agora ele mudou a Assembléia. A presença dos irmãos do Pará exigiu um relato deles. A partilha revelou a presença assustadora da violência no campo; ainda coincidiu com a notícia de um novo assassinato em Rondônia. Referência ao fato na oração e na Carta da Assembléia não podia faltar, nem uma carta assinada por todos ao “companheiro”, o próprio Padre Amaro.

E surge a pergunta: ataques e ameaças anteriores a Padre Amaro culminaram agora na sua prisão, mas contra quantas pessoas houve denúncias absurdas e ameaças como as contra ele antes? E a nota da FAEPA – Federação da Agricultura e Pecuária do Pará – que ataca Padre Amaro, mas também a CPT, os Bispos do Xingú e a própria CNBB que denomina como Sindicato dos Bispos?

 

A CPT acompanha o povo mais pobre do Brasil, que é quem mais sofre as consequências das mudanças climáticas, o que se traduz, entre outras coisas, nas prolongadas secas que sofrem algumas regiões do país, também o interior do Nordeste, onde o senhor é bispo. Como está sendo trabalhado ou deveria ser trabalhado, desde a CPT, o cuidado da Casa Comum, o espírito da Laudato Si?

 Terra, Território e Água determinam a primeira grande linha de trabalho assumida pela CPT para o próximo triênio. Na verdade, e logicamente continuam a anterior, devem levar a ações prioritárias conforme as situações concretas nos Regionais. A Laudato Si inspira bastante e foi lembrado que a ecologia não pode ser desligada do social. Os territórios camponeses conservam muito mais a natureza e como isto ajudam a conservar o clima. Particularmente a respeito da água, houve muitas colocações e exemplos de como a água, os rios e nascentes, e com eles a vida, sofrem ameaças, desde a poluição até a mercantilização, e que seria importante um trabalho ligado com as bacias hidrográficas, o clima.

É o que no meu Regional Nordeste 3 (Bahia e Sergipe) está acontecendo. Por iniciativa da Igreja houve um encontro dos bispos da Bacia do São Francisco. Nessa mesma Bacia, em Correntina/BA, o próprio povo enfrenta uma luta pelos seus direitos à água por causa do abuso, da quantidade tirada para o agronegócio com sua irrigação, e a falta de políticas reguladoras. A CPT e as Pastorais Sociais de Ruy Barbosa acabam de enviar uma carta aos bispos das 11 (arqui)dioceses envolvidas, pedindo uma atenção especial à Campanha de Defesa da Bacia Hidrográfica do Rio Paraguaçu, iniciada em agosto de 2017. Essa Bacia, composta por mais de 150 rios, em grande parte temporários, abastece 86 municípios baianos, além da região metropolitana de Salvador. São mais de 3 milhões de pessoas que dependem de suas águas. 

 

Escolher um Presidente do Nordeste e um Vice-presidente do Norte quer mostrar que a CPT aposta pelas regiões mais pobres do país?

 É uma coincidência feliz e também procurada. A opção pelos pobres marca Jesus desde o seu nascimento, na sua vida em Nazaré, nas atitudes de sua vida pública e missão. Ele vem para que todos tenham vida, mas começa pelo lado dos pobres. Assim, estes não são excluídos, não ficam sobrando, sem sada, como acontece “no mundo”. A vida do pobre no país dos Gerasenos (Mc 5,1ss) não vale mais do que uma manada de porcos...

Somos todos chamados a sermos discípulos e missionários com as atitudes de Jesus. A porção do povo de Deus confiada à CPT não tem as fronteiras de uma Diocese, abrange “os povos da terra”, que são originários, trabalham na terra, cuidam da terra, lutam pela terra, dom de Deus para todos e não mais uma mercadoria. O Norte e o Nordeste continuam sendo estas regiões desafiadoras. Não somente a presença do presidente e vice-presidente ou mesmo de toda a coordenação, mas todo o trabalho de toda a CPT deve mostrar a opção pelos pobres da Igreja. Que Deus nos conceda a graça, a luz e a força de sermos fiéis a essa missão.