Por Luis Miguel Modino

 

"A Rede Eclesial Pan-Amazônica foi uma das melhores, senão a melhor iniciativa dos últimos tempos para a Igreja da Pan-Amazônia"

 

Os povos da Pan-Amazônia sempre têm sido vítimas de estereótipos nascidos da mente de pessoas que nunca tiveram o mínimo contato com eles. São pessoas que têm se empenhado em distorcer e fizer tudo o possível para promover uma visão distorcida, que dificulte o verdadeiro conhecimento de sua vida e cultura.
Defender esses povos tem sido desde há vários anos um dos propósitos de Felício Pontes Jr., Procurador Regional da República. Nascido em Belém, uma das grandes cidades da Amazônia brasileira, assumiu essa causa a partir de sua própria história, dado que sua família foi atingida por um dos grandes projetos que, promovidos pelos diferentes governos brasileiros, fizeram da região uma terra onde a lei do mais forte se impusesse sobre as necessidades dos moradores locais.
O representante do Ministério Público acaba de publicar o livro “Povos da Floresta”, de recomendada leitura, pela Paulinas Editora, em que pretende mostrar como os povos da floresta têm sido invisíveis tradicionalmente para os detentores do poder político e económico. Por isso, se servindo de escritos breves que denunciam os abusos cometidos contra esses povos, quer defender quem sempre ficou sem vez e sem voz.
Como bem diz no prefácio, dom Erwin Kräutler, Presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam-Brasil) e bispo emérito da Prelazia do Xingu, e um dos grandes profetas da Amazônia nos últimos cinquenta anos: “As agressões aos povos indígenas não são esporádicas, mas sistêmicas, pois são consequência de uma desastrosa política indigenista, da omissão e negligencia dos sucessivos governos. São fruto da intolerância e do preconceito perpetrados em todos os rincões do nosso Brasil”.
Nesta entrevista, Felício Pontes Jr. fala, além do conteúdo do livro, sobre os povos da floresta, de quem “a sociedade dominante tem muito que aprender”, especialmente no que faz referencia ao “Bem Viver, essa capacidade de se relacionar com a natureza de uma maneira não predatória”. Por isso, destaca os perigos que aparecem como consequência do sistema predatório que tem tomado conta da Amazônia.
Diante dessa realidade, destaca a parceria “muito forte entre o Ministério Público e a Igreja Católica” e a importância do Sínodo da Amazônia, que espera “pode ajudar a que a sociedade dominante, não só da Amazônia, também de outro países, vejam um olhar real, com outros olhos a realidade dos povos da floresta”, e junto com isso ajude a descobrir que “o verdadeiro desenvolvimento nessa região parte de uma série de atividades que não são agressoras do meio ambiente, e essas atividades são exercidas há milênios por povos indígenas, população quilombola, população ribeirinha”.

Felício Pontes Jr. diz que a Rede Eclesial Pan-Amazônica, “foi uma das melhores, senão a melhor iniciativa dos últimos tempos para a Igreja da Pan-Amazônia”, ajudando o povo para que “possa sentir que a sua luta é a mesma”, integrando “essa população que pensa de uma maneira diferente da sociedade dominante”, contribuindo para “dar visibilidade aos povos da floresta” superando uma visão que sempre contribuiu para vê-los como um povo colonizado, explorado e invisibilizados. Não podemos esquecer que “não se luta a favor daqueles que não se conhece”.

 

O senhor é um dos grandes defensores dos povos da Amazônia desde seu trabalho no Ministério Público. Qual é sua motivação para realizar esse trabalho?
Felício Pontes Jr. -
A motivação está na minha própria história. Venho de uma família do interior da Amazônia, que foi atingida, como toda a comunidade de lá, pelo grande projeto da Hydro-Alunorte, no município de Barcarena, que era vizinho ao meu município.
Desde aí eu fiquei muito séptico. Nas primeiras páginas do livro “Povos da Amazônia” já diz isso, já mostra isso, como aquilo impactou a minha vida e eu acabei sendo muito crítico, muito séptico a toda propaganda governamental em relação aos grandes projetos de desenvolvimento da Amazônia, entre aspas.

 

O livro recolhe seus trabalhos ao longo de quatro anos na revista “Família Cristã”. Qual é seu propósito?
Felício Pontes Jr. -
Ser convidado a escrever na Revista Família Cristã foi uma grata satisfação, e a minha intenção foi sempre a tentativa de tirar da invisibilidade forçada aos povos da floresta. Eu acho que muito do preconceito que existe hoje no Brasil sobre essa população é falta de formação, é falta até de saber da existência dessas pessoas, quem são, como é sua cultura, quais são as suas esperanças, e isso foi o que me motivou a continuar escrevendo.
O outro fato é ter informações tão preciosas sobre essas comunidades, que não deveriam ficar guardadas comigo por, no mínimo, como digo no livro, uma questão de respeito para com essa população.
Acho que a partir do momento em que se tem conhecimento, se pode fazer essa mudança, que é uma mudança muito difícil, talvez a mais difícil de fazer porque é mudança de consciência. Ela só vem a partir do conhecimento e não se defende aquilo que não se conhece.

 

Em sua opinião, no Brasil atual, os povos indígenas são perseguidos? Quem são os grandes perseguidores? Quais são os interesses que procuram os perseguidores?
Felício Pontes Jr. -
Os povos indígenas hoje são perseguidos de uma forma diferente. Há uma tentativa de exploração dos recursos naturais dentro de um sistema que alguns chamam de modelo predatório de desenvolvimento. As principais atividades desse modelo são madeira, pecuária, energia, sobre todo hidroelétricas, a monocultura e a mineração. Essas atividades são extremamente nocivas à Amazônia como um todo, incluindo os povos que nela vivem.
Hoje, si se pode falar em perseguição ela parte dessas atividades econômicas do modelo predatório, que tentam fazer com que haja uma retirada desses povos tradicionais de seus territórios para que essas atividades possam ser concluídas.
Essas atividades não trouxeram um ganho de qualidade de vida melhor à população amazônida como um todo, muito pelo contrário. Hoje se vê que onde esses projetos foram instalados houve um boom num primeiro momento do IDH, e logo depois, como são projetos predatórios, de extração de recursos naturais, e quando esses recursos acabam volta aquela população a uma condição de vida pior do que se tinha antes desses projetos chegarem.
Por tudo isso, eu posso dizer que as atividades que hoje se contrapõe ao que eu chamo de modelo socioambiental, são essas atividades que estão incluídas no que eu chamo de modelo predatório de desenvolvimento. Esses são hoje os grandes perseguidores dos povos tradicionais da Amazônia.

 

Qual é seu juízo de valor sobre o trabalho que a Igreja Católica está desenvolvendo com os povos da Amazônia, especialmente com os povos indígenas?
Felício Pontes Jr. -
Com o trabalho da Igreja católica, eu fico muito contente de ver que sempre foi um trabalho, pelo menos onde eu me encontrava, de garantia de direitos. Era vista qualquer violação de direitos dessas comunidades indígenas como algo que precisava ser reparado, e como o Ministério Público não conseguia, e não consegue chegar a todos os rincões deste país, naquilo que a Igreja católica conseguia visualizar ela nos falava, ela nos representava, ela exigia atuação do Ministério Público para que os direitos dessas populações fossem respeitados.
Nessa atividade, por tanto, é por isso que há uma parceria melhor dizendo, muito forte entre o Ministério Público e a Igreja católica. É por conta desse olhar da Igreja, de garantia dos direitos e utilização do Ministério Público como garantidor dos direitos das populações indígenas.

 

O papa Francisco, ao convocar o Sínodo dos bispos para a Pan-Amazônia, coloca como objetivo principal a busca de novos caminhos na evangelização dos povos indígenas. Desde seu conhecimento desses povos, e como católico quais caminhos devem ser trilhados?
Felício Pontes Jr. -
Em relação ao Sínodo, eu acho que há dois grandes eixos que eu espero que sejam utilizados. O primeiro é a visibilidade, o Sínodo pode ajudar a que a sociedade dominante, não só da Amazônia, também de outros países, vejam um olhar real, com outros olhos a realidade dos povos da floresta.
Em segundo lugar, que possa ser avançado no sentido de que o verdadeiro desenvolvimento nessa região parte de uma serie de atividades que não são agressoras do meio ambiente, e essas atividades são exercidas há milênios por povos indígenas, população quilombola, população ribeirinha, por exemplo, da Amazônia.
Então, eu acho que há possibilidade de se avançar para que possa pensar num verdadeiro desenvolvimento da Amazônia, não de uma Amazônia vista como obstáculo, como almoxarifado para retirada dos recursos naturais, mas de uma verdadeira integração homem-natureza que eu espero que o Sínodo possa realçar e esse documento possa vir a trazer essa opinião, a trazer a público essas atividades que são atividades não predatórias, que são atividades por tanto que se resumem no verdadeiro desenvolvimento da Amazônia.

 

Desde 2014, a Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), está promovendo um trabalho em comunhão na Pan-Amazônia que possibilite um maior conhecimento da realidade. Até que ponto está ajudando a tornar mais conhecida essa realidade?
Felício Pontes Jr. -
A Rede Eclesial Pan-Amazônica foi uma das melhores, senão a melhor iniciativa dos últimos tempos para a Igreja da Pan-Amazônia. Nós não tínhamos uma ligação Leste-Oeste, nós tínhamos todas as estruturas que entravam, e que são importantes, que trabalhavam com a Amazônia são estruturas verticalizadas. Acho que aqui a gente pode ter uma verdadeira integração da Amazônia, porque ela vai além das fronteiras, ela é uma instituição Pan-Amazônica e faz com que uma população tradicional do Equador, do Peru, possa sentir que a sua luta é a mesma luta daquela população da Amazônia oriental, daquelas populações que estão na Amazônia oriental.
Só esse fato já seria suficiente para que houvesse um fortalecimento dessa rede, para que houvesse verdadeiramente uma rede Pan-Amazônica, uma rede que integrasse essa população que pensa de uma maneira diferente da sociedade dominante e pudesse ser fortalecida. Só isso já seria suficiente.
Mas eu acho que a Repam está indo além disso, ela está promovendo uma verdadeira revolução no sentido da visibilidade aos povos da floresta e no sentido de saber qual o pensamento deles para seu próprio desenvolvimento, para o que a gente chama em direito de doutrina da autodeterminação.
A Repam está dando luz a esta doutrina para que o que seja levado em conta em relação à Amazônia, à Pan-Amazônia, seja aquilo que é o pensamento dos amazônidas, e isso nos trará uma revolução no que foi feito até hoje.
Até hoje o que nós tivemos é um povo colonizado, é um povo amazônida explorado e um povo amazônida invisibilizado. A grande contribuição da Repam é lutar contra essas três atividades, esses três projetos que foram incorporados até hoje à Amazônia. Acho que a partir disso haverá um respeito, no mínimo, muito maior em relação aos povos da floresta.