Por Luis Miguel Modino


Uma das grandes ameaças que hoje sofre a América Latina é tudo aquilo que tem relação com o extrativismo em grande escala dos seus recursos naturais. Os impactos dessa atividade nem só atingem à Casa Comum, também seus moradores, especialmente os mais pobres e, no meio deles, os povos originários.
As políticas estatais de muitos países têm sido encaminhadas na direção da exportação de seus bens comuns, como modo de equilibrar sua balança comercial. Geralmente trata-se de governos corruptos, liderados por personagens que enchem seu bolso às costas do sangue daqueles que deveriam ajudar e que provocam que as catástrofes ambientais e sociais sejam um elemento cada vez mais cotidiano.
Nos últimos anos, diferentes igrejas cristãs têm tomado uma postura cada vez mais explícita frente a esse tipo de situações. Uma das Instituições que em Latino-América está na frente dessa luta é a “Red Iglesias y Minería”, nascida em 2013 e que com “um perfil ecumênico e uma estrutura de rede mais informal, atua em âmbito continental”, tendo como objetivo oferecer “oportunidades para as comunidades fazerem ouvir suas vozes e reivindicarem seus direitos, nos contextos locais, nacionais e internacionais”.
Nesta entrevista, um dos atores principais da rede, o padre Dário Bossi, nos explica seu funcionamento e os desafios enfrentados no trabalho cotidiano. Sua experiência de trabalho ao longo de vários anos, em que tem enfrentado os conflitos surgidos da mineração no país, serve como base para fundamentar suas palavras, onde a gente descobre seu compromisso profético e que questionam posturas erradas que estão presentes até dentro das próprias igrejas.
Em seu testemunho ressoa a vida de muitas pessoas, vítimas de “migrações descontroladas..., turmas de desempregados, homens, sem nenhuma perspectiva e com consequências de aumento de violência, alcoolismo e exploração sexual”.  Mas ao mesmo tempo, deixa-se ouvir a denuncia “de maneira forte, bem articulada e embasada a partir de assessorias muito competentes, a insustentabilidade desse modelo de extrativismo”.
Nesse ponto, destaca a importância da Laudato Si, que aos poucos tem sido concretizada na América Latina em diferentes documentos e atitudes. Por isso, não duvida em afirmar que “a encíclica Laudato Si' tem sido profética nesse sentido e inspira o movimento e a resistência de muitas comunidades. Alerta sobre a inversão de prioridades, que coloca o lucro acima dos interesses coletivos e do cuidado para com o bem comum. Invoca a retomada do controle da política sobre a economia e denuncia o ritmo desenfreado de consumismo, destacando o limite da Terra e da existência humana e exortando a uma mudança integral de paradigma, a conversão ecológica.”.
Nesse trabalho de toma de consciência sobre essa necessária conversão ecológica, o padre Bossi destaca o papel da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), que “considera os povos indígenas como sujeitos prioritários de sua ação, pondo-se à sua escuta e valorizando a contribuição de sua sabedoria e prática de vida: o Bem Viver”. Todo no propósito de avançar “no campo da defesa e promoção dos direitos humanos dos povos amazônicos”.

 

O que é a Rede Igrejas e Mineria?
Dário Bossi – Iglesias y Minería é uma rede ecumênica que articula comunidades e defensoras e defensores dos direitos socioambientais ameaçados pela mineração em grande escala, oferecendo a eles o apoio, a proteção e o acompanhamento das igrejas.
Temos alguns eixos prioritários de ação: incidência, comunicação para a transformação e aprofundamento da espiritualidade e reflexão ecoteológica.
Através do papel das igrejas, estamos oferecendo oportunidades para as comunidades fazerem ouvir suas vozes e reivindicarem seus direitos, nos contextos locais, nacionais e internacionais. A comunicação de suas histórias de resistência torna-se oportunidade de formação e multiplicação de processos de autodeterminação das comunidades em seus territórios. Aprofundamos a ecoteologia para resgatar a mística que alimenta a luta desses grupos humanos e enriquecer as experiências das igrejas ao lado deles, num aprendizado mútuo.

 

Qual é o espírito que movimenta essa Rede? De onde nasce seu compromisso com o cuidado da Mãe Terra e das comunidades?
Dário Bossi –
A rede nasceu a partir do apelo de diversas comunidades desesperadas frente às agressões da mineração, inclusive sofrendo ameaças diretas de despejo, destruição ou morte para os defensores e defensoras que se opusessem aos planos das grandes empresas, frequentemente apoiados pelos governos locais. Compreendemos que as igrejas são um ator importante nesse conflito e precisam se posicionar do lado dos mais fracos.
Iglesias y Minería vem se consolidando também em resposta a uma atitude cada vez mais frequente das mineradoras, que exercem um 'lobby' de pressão sobre as igrejas, a todos os níveis, tentando demonstrar que o modelo atual de extrativismo é virtuoso, inclusivo e sustentável. Trata-se, a nosso ver, de um processo de 'sedução institucional', inclusive amplamente documentado na análise dos projetos estratégicos de captura da 'licença social' pelas empresas.
Sabemos, de fato, que além da licença ambiental o maior entrave para as empresas desenvolverem nos territórios seus interesses é a resistência social, que vem sendo analisada em termos de custos e conveniência por cada empreendimento. O que move a expansão da mineração, nos ritmos e taxas tão elevados de hoje, não é a preocupação pelo desenvolvimento de uma determinada região, nem a necessidade efetiva de uma determinada quantia de materiais minerais para a produção industrial, mas sim a perspectiva de lucro imediato garantida pelo valor financeiro do minério no mercado mundial e pela cotação em bolsa dos negócios das multinacionais mineiras.
A grande maioria dos países de América Latina assumiu a pauta extrativista como o caminho mais fácil para manter um saldo positivo em suas balanças de pagamentos, vinculando o assim chamado desenvolvimento a políticas cada vez mais vorazes e neocoloniais de saque dos bens comuns.
Esse espírito capitalista, que chega a consumir a própria Mãe Terra, se opõe ao espírito das igrejas, encarnado em pronunciamentos proféticos, tanto das igrejas protestantes, como da católica, cuja reflexão culmina na magistral encíclica Laudato Si'.

 

Nos últimos anos a mineração tem se convertido num dos grandes vilões da poluição na América Latina. Como tem atingido tudo isso na vida das comunidades mais pobres? Quais são as perspectivas de futuro?
Dário Bossi –
Não se trata só de poluição, mas de um processo sistemático, integrado e irrecuperável de ataque às vísceras da Mãe Terra em vista da acumulação rápida de benefícios para o lucro de poucos.
Precisa compreender a mineração em América Latina como instalação de uma grande infraestrutura, fortemente impactante, em vista da extração e exportação de bens comuns para o exterior.
A abertura de novas minas ou a expansão daquelas já existentes comporta graves violações socioambientais, como desmatamento, poluição, destruição de fontes e nascentes, expulsão de populações tradicionais de seus territórios, etc. Frequentemente, associam-se às grandes minas infraestruturas para a geração de energia, da qual necessita intensamente o processo extrativo. Há uma conexão direta entre as maiores hidrelétricas da Amazônia, por exemplo, e grandes projetos de mineração. Isso comporta despejos e expulsão de populações, assim como alteração dos equilíbrios das bacias fluviais de grandes regiões.
Além disso, a instalação de canteiros de obras para esses projetos de mineração e geração de energia provoca migrações descontroladas e a criação de cidades improvisadas, em volta das obras, com poucas garantias de sustentabilidade ambiental e a perspectiva de tornar-se cidades-fantasma, habitadas por turmas de desempregados, homens, sem nenhuma perspectiva e com consequências de aumento de violência, alcoolismo e exploração sexual. A cidade de Altamira no Estado do Pará, por exemplo, é hoje a cidade mais violenta de todo o Brasil, logo após o término da construção da tão criticada mega-barragem de Belo Monte.
A mineração pressupõe uma infraestrutura fortemente impactante em função do escoamento dos produtos até os principais portos, para exportação do minério. Seja no caso de ferrovias que de minerodutos, os danos sobre as comunidades atravessadas por essas infraestruturas são numerosos, diversificados e amplamente documentados e denunciados.
O protesto social que todos esses impactos negativos provocam é frequentemente reprimido pelo aparado policial ou o sistema jurídico estatal, frequentemente aliado aos projetos extrativistas.
O número de conflitos em América Latina ligados à mineração e de defensores e defensoras de direitos humanos mortos por estarem enfrentando a mineração está crescendo de forma preocupante.

 

Em alguns países, como o Brasil, nos últimos tempos os governos, especialmente aqueles mais ligados com a corrupção tem flexibilizado os requisitos para o trabalho das grandes mineradoras. Frente a isso, o povo cada vez está mais consciente dos perigos das mineradoras. Como enfrentar essas alianças perversas entre governos corruptos e grandes mineradoras?
Dário Bossi –
No Brasil há anos criamos o Comitê Nacional em Defesa dos Territórios frente à Mineração, do qual a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) é um dos membros fundadores. Trata-se de uma articulação ampla de setores organizados da sociedade civil, incluindo instituições, entidades, redes, movimentos sociais e sindicados, que há anos está acompanhando a definição de políticas nacionais de regulação do extrativismo. Não estamos negando a necessidade da mineração, mas denunciamos de maneira forte, bem articulada e embasada a partir de assessorias muito competentes, a insustentabilidade desse modelo de extrativismo, recomendando sete passos para a migração da mineração de saque à mineração essencial.
Para atingir o equilíbrio na utilização dos recursos naturais é necessária a transição de um modelo saqueador de recursos para um modelo pautado na economia local, na produção de bens duráveis, na diminuição do consumo, no desenvolvimento de uma noção de limites de produção e na reutilização de recursos. Esse cenário pós-extrativista também prevê a volta da valorização da produção ligada ao território, da sabedoria dos povos. As relações regionais entre países também devem ser recuperadas, eles devem saber definir suas reais necessidades econômicas, superando o modelo exportador.

 

A Igreja católica, especialmente a hierarquia, tem tomado postura em contra dessa problemática? A Laudato Si e a figura do Papa Francisco, tem ajudado nessa direção?
Dário Bossi –
A Igreja Católica no Brasil demostra sua preocupação com respeito à afirmação incondicional da pauta extrativista, amplificada nesse novo período de governo que muitos consideram ilegítimo, depois do impeachment da presidente eleita. Criou-se na CNBB um Grupo de Trabalho sobre mineração para assessoria permanente dos bispos.
Da mesma forma, a Conferência Episcopal Latino-Americana (Celam) estará publicando em breve uma exortação apostólica muito bem fundamentada sobre as agressões da mineração e a necessidade de cuidarmos, coletivamente, da casa comum. Trata-se de uma releitura da Laudato Si' a partir da preocupante pauta extrativista dos governos de nosso continente e das empresas multinacionais que aqui se instalaram.
Em alguns países os bispos acompanham muito de perto as comunidades atingidas por mineração. Em El Salvador, a Igreja Católica liderou um movimento popular organizado e persistente, que levou à aprovação histórica (em março de 2017) da primeira lei no mundo que proíbe a mineração metálica em todo o país.
A encíclica Laudato Si' tem sido profética nesse sentido e inspira o movimento e a resistência de muitas comunidades. Alerta sobre a inversão de prioridades, que coloca o lucro acima dos interesses coletivos e do cuidado para com o bem comum. Invoca a retomada do controle da política sobre a economia e denuncia o ritmo desenfreado de consumismo, destacando o limite da Terra e da existência humana e exortando a uma mudança integral de paradigma, a conversão ecológica.
Valoriza a resistência das pequenas comunidades, destacando o papel essencial das populações tradicionais e das comunidades na administração de seus territórios. Sonha com um resgate das instituições nacionais e internacionais, purificadas do controle do capital, orientadas pelo princípio da justiça intergeracional, com a urgentíssima missão de reconduzir a humanidade a modelos de vida e coexistência com o planeta realmente sustentáveis.

 

A luta da defesa da Casa Comum tem deixado muitos mártires na história da América Latina. Sirvam como exemplo Chico Mendes, a Irmã Dorothy Stang, Berta Cáceres... Não está faltando um reconhecimento mais explícito por parte da Igreja para com essas pessoas que deram a vida na preservação da Criação?
Dário Bossi –
A Rede Eclesial Pan-Amazônica está desenvolvendo um trabalho intenso e sistemático de resgate das vozes da Amazônia. De um lado, queremos nos por atentamente à escuta das comunidades tradicionais, da sabedoria ancestral dos povos indígenas, das necessidades das comunidades ribeirinhas ou das populações camponesas, que perdem progressivamente acesso aos bens da Casa Comum subtraídos pelo extrativismo. Do outro lado, estamos resgatando o testemunho dos e das mártires da Amazônia, em atitude de reverência e indignação, gritando um “Basta!” a essa agressão sistemática. Essas vozes da Amazônia precisam ser escutadas mais pela igreja e a sociedade do mundo inteiro, porque nelas se condensa também o grito silencioso da Mãe Terra em agonia.

 

Aos poucos a reflexão teológica vai avançando na chamada Ecoteologia, como isso pode ajudar a descobrir que o fundamento de todo tipo de vida e de toda reflexão está no cuidado da Criação?
Dário Bossi –
A ecoteologia é uma reflexão sistemática sobre as categorias mentais que conformam nossa relação com Deus e a Criação. Além de aprofundar a teologia cristã nessa vertente, oferece elementos para aprofundar também uma espiritualidade ecológica integrada com toda a criação e em diálogo permanente com outras culturas e tradições religiosas.
Creio que ela possa contribuir muito em nosso processo de conversão ecológica, seja na perspectiva da desconstrução de categorias anticristãs, seja na reconstrução de uma nova visão de mundo.
A ecoteologia pode nos ajudar, por exemplo, na desconstrução de leituras bíblicas patriarcais e hegemônicas, que associaram os mitos de criação a uma visão androcêntrica da ordem natural, da sociedade e da vida religiosa. Essas mesmas interpretações explicam a instalação de sistemas de poder opressivos contra os pobres e a Mãe Terra, onde a violência é justificada em função da estabilidade de uma ordem que favorece os detentores da autoridade política e econômica.
Por outro lado a ecoteologia, em diálogo aberto e franco com outras ciências, reflexões religiosas e espiritualidades, pode nos ajudar para avançarmos na compreensão da interligação entre todas as formas de vida e do papel relevante do ser humano como responsável para o cuidado da vida no Planeta.

 

A Rede Igrejas e Mineria está representada na Repam. Quais são os aportes que a Rede está fazendo no cuidado da Casa Comum e dos povos que a habitam?
Dário Bossi –
A rede Iglesias y Minería e a Repam são duas articulações complementares. A primeira, que tem um perfil ecumênico e uma estrutura de rede mais informal, atua em âmbito continental, a partir do tema específico do extrativismo mineiro. A segunda está focada no território da Panamazônia, abrangendo porém todo o leque dos desafios socioambientais dessa região. Ambas nasceram há pouco (em 2013 e 2014) e colaboram de maneira dinâmica e interativa.
A Repam considera os povos indígenas como sujeitos prioritários de sua ação, pondo-se à sua escuta e valorizando a contribuição de sua sabedoria e prática de vida: o Bem Viver.
Investe muitas forças na comunicação e na formação, eixos em que existe uma rica colaboração com IyM. No Brasil, a Repam realizou muitos seminários sobre a Laudato Si' em diversas dioceses da Amazônia e continua se articulando com as comunidades e pastorais organizadas em nível de base. Há um empenho sistemático e consolidado da Repam no campo da defesa e promoção dos direitos humanos dos povos amazônicos: também nesse campo existe uma preciosa interação com IyM, especialmente quanto ao acompanhamento de alguns casos paradigmáticos de violações, cujo pleito está sendo levado às instâncias internacionais de defesa dos direitos, enquanto cotidianamente as igrejas e atores locais acompanham o conflito no território local.

 

Um dos objetivos do Sínodo dos bispos da Pan-Amazônia é a preservação da região. Frente a isso, os grandes projetos das mineradoras são umas das principais ameaças dessa Pan-Amazônia. Qual deve ser a proposta do Sínodo diante dessa realidade?
Dário Bossi –
A Carta do Celam sobre extrativismo, de próxima publicação, aponta já a algumas propostas para a Igreja frente à mineração. A Igreja pode ser um ator relevante para incentivar os governos locais e políticas internacionais em vista de uma regulamentação da mineração, com transições do modelo de saque dos recursos à mineração necessária e essencial.
Nos países menores, como El Salvador ou Costa Rica que já se opuseram à mineração em nível nacional porque as dimensões do território nacional não aguentam o tamanho dos impactos socioambientais, a Igreja pode defender moratórias e banimento da mineração.
Em países onde há contínuas agressões às lideranças em defesa dos direitos humanos, como Guatemala, Honduras, Colômbia, Peru e também Brasil, entre outros, a Igreja pode ser voz dos perseguidos, exigindo proteção deles e investigação e responsabilização nos casos de violações já perpetradas.
Em geral, a Igreja pode promover percursos de formação, em sintonia com a Laudato Si', para que as comunidades amadureçam sua reverência à Mãe Terra e sua vigilância para o cuidado dela.
É necessária uma vigilância especial sobre a aproximação sedutora das grandes empresas de mineração às igrejas, em busca de legitimação social e 'bênção' espiritual, em troca de poucos benefícios pontuais e frequentemente sem efetiva mudança de atitudes para com as comunidades locais.
Uma última provocação que o Sínodo poderia dar às igrejas diz respeito ao ouro, cuja extração é provavelmente a responsável dos maiores danos socioambientais no Planeta e cuja utilidade é extremamente limitada. Longe de poder simbolizar, nas liturgias, glória e honra para Deus, o ouro é materialização dos ciclos históricos de saque e devastação contra a criação inteira. Retirar esse símbolo de nossas celebrações teria um significado intenso na consolidação da posição crítica da Igreja frente à mineração.