Ao Vivo
 
 

Geral

                                                                                                Comunicado do Encontro em preparação do Sínodo Especial para a Amazônia

Comunicado do Encontro em preparação do Sínodo Especial para a Amazônia

O cardeal Cláudio Hummes, presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), publica comunicado do Encontro em preparação do Sínodp Especial para a Amazônia que foi realizado dia 19 de janeiro de 2018 em Puerto Maldonado, no Peru. O Sínodo vai ser realizado em outubro de 2019 em Roma. Ao anúnciar o Sínodo, em outubro de 2017, o papa disse: "Acolhendo o 'desejo' de algumas Conferências episcopais da América Latina, bem como as 'vozes' de pastores e fiéis de todo o mundo, o Papa explicou que "o principal objetivo dessa reunião será identificar novos caminhos para a evangelização daquela parcela do Povo de Deus, especialmente os indígenas, muitas vezes esquecidos e sem a perspectiva de um futuro sereno, em parte por causa da crise da floresta amazônica, pulmão de capital importância para o nosso planeta". Leia abaixo Puerto Maldonado, Perú. 20 de janeiro de 2018 Comunicado Encontro em preparação do Sínodo Especial para a Amazônia Convocados pelo Papa Francisco, mediante o Secretário Geral, Sua Eminência Lorenzo Cardeal Baldisseri, e dos Bispos amazônicos, nos reunimos nos dias 19 e 20 de janeiro, na cidade de Puerto Maldonado - Peru, os bispos delegados de diferentes países: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana Inglesa, Peru, Suriname e Venezuela. Todos os delegados são membros da Rede Eclesial Pan-Amazônica – REPAM, rede que pertence ao Conselho Episcopal Latinoamericano – CELAM. Esta foi a primeira reunião preparatória para o Sínodo da Amazônia, como o anunciou o Papa no final do seu discurso aos Povos Indígenas Amazônicos. Nos sentimos honrados por ter participado da sessão de consulta, na qual expressamos as inquietudes dos povos que acompanhamos, e os desafios de nossas realidades pastorais. Também valorizamos o sinal de que o processo formal do Sínodo começou em território Amazônico. O seguinte passo será a elaboração dos documentos preparatórios, como corresponde em todo processo sinodal, mediante os quais os bispos do território amazônico, e seu povo, continuarão sendo consultados. Estes passos seguirão as orientações dadas pelo Papa Francisco, sobretudo na Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium” e na Encíclica Laudato Si: sobre o cuidado da casa comum. Queremos fazer nossas as palavras do Santo Padre sobre o reconhecimento dos nossos povos como interlocutores que, com sua sabedoria ancestral e sua diversidade cultural, tornam possível o cuidado da casa comum. Confiamos que, em comunhão com nossos povos originários, possamos encontrar novos caminhos para plasmar uma Igreja com Rosto Amazônico. Cláudio Cardeal Hummes Presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica – REPAM
Um discurso histórico que nos desafia a fazer realidade uma Igreja com rosto amazônico e indígena

Um discurso histórico que nos desafia a fazer realidade uma Igreja com rosto amazônico e indígena

Por Luis Miguel Modino - Repam-Brasil   Era uma visita esperada, preparada com carinho pela Igreja de Puerto Maldonado, pela Igreja da Pan-Amazônia, que entendia a data de 19 de janeiro como um momento histórico pelo que pode representar no futuro da região. Ninguém pode esquecer que o papa Francisco tem credibilidade, autoridade moral, que suas palavras são escutadas. Por isso, podemos dizer que seu discurso aos povos indígenas vai se tornar algo histórico, uma referência que aponta luzes para o futuro, do mesmo modo que aconteceu com suas palavras aos movimentos sociais em Santa Cruz de la Sierra. O papa Francisco estava alegre, emocionado, se sentia em casa, ele desejava estar lá e fez questão de dizer que quis começar sua visita no Peru pela Amazônia. Ele veio para escutar o grito da terra e dos mais pobres, para se solidarizar com os desafios dos povos e da Igreja da Amazônia. Uma atitude reconhecida e agradecida tanto pelo bispo de Puerto Maldonado, o dominicano dom David Martínez de Aguirre Guiné, como pelos indígenas que em nome de seus parentes, de todos os povos indígenas da Pan-Amazônia, disseram-lhe que a riqueza da região está em seus povos, gente que se sente orgulhoso daquilo que eles são, de sua língua, cultura e tradições, gente que quer viver unido, pois “se sentir sozinho é uma tristeza, mas se encontrar é uma alegria”, sublinhando assim um dos elementos que determina a vida dos indígenas, que é uma visão comunitária da existência. Povos sobreviventes de muitas crueldades e injustiças, que continuam sofrendo, consequência da exploração descontrolada e irresponsável dos recursos naturais, que querem preservar sua cultura para que as gerações futuras não sofram e não sejam discriminadas, como hoje está acontecendo. Povos que assumem e fazem vida a Laudato Si, que hoje liam na frente do Papa em diferentes línguas originárias. Os indígenas, vestidos com traje de festa, pediram o Papa que os defenda, que reze para que a Amazônia não perca sua identidade e agradeceram de coração que o Papa chegasse para os escutar. Mas eles também gritaram ao mundo, dizendo que temos que cuidar da natureza e proteger a terra para viver em harmonia, palavras que têm autoridade vindo de alguém de quem o próprio papa Francisco definiu como “memória viva da missão que Deus nos confiou a todos: cuidar da Casa Comum”.   O Discurso do papa Francisco mostra que ele conhece a realidade da Pan-Amazônia, que ele mesmo define como uma terra santa, onde devemos tirar as sandálias, e tem coragem em denunciar o que acontece, pois “nunca os povos originários amazônicos estiveram tão ameaçados nos seus territórios como o estão agora”. Ele fala abertamente que existem “certas políticas que promovem a «conservação» da natureza sem ter em conta o ser humano”, denuncia o “tráfico de pessoas: o trabalho escravo e o abuso sexual. A violência contra os adolescentes e contra as mulheres” e ainda mais, ele nos diz que “não nos façamos de distraídos! Há muita cumplicidade... A pergunta é para todos!”. O bispo de Roma tem chegado na Amazônia e alçado sua voz como profeta, seguindo o exemplo “daqueles homens de fé”, que ao longo da história assumiram as causas dos últimos e que nos fazem ver que “esta profecia deve continuar presente na nossa Igreja, que nunca cessará de levantar a voz pelos descartados e os que sofrem”. Ele não tem medo de pedir “espaços institucionais de respeito, reconhecimento e diálogo com os povos nativos, assumindo e resgatando a cultura, a linguagem, as tradições, os direitos e a espiritualidade que lhes são próprios”, onde eles sejam “os principais interlocutores”, como “melhor caminho para transformar as velhas relações marcadas pela exclusão e a discriminação”. Olhando a história, o papa Francisco agradece pelos “missionários e missionárias se comprometeram com os vossos povos e defenderam as vossas culturas!”, mas também desafia a quem hoje dá continuidade a essa missão para superar os medos que não nos deixam defender quem mais sofre, nos comprometermos com os povos da Amazônia e defender suas culturas, inspirados no Evangelho, sem desarraigar a fé católica, sendo conscientes que “cada cultura e cada cosmovisão que recebe o Evangelho enriquecem a Igreja com a visão duma nova faceta do rosto de Cristo”. Obrigado papa Francisco, por nos animar mais uma vez a “plasmar uma Igreja com rosto amazônico e uma Igreja com rosto indígena”, uma Igreja que “não é alheia aos vossos problemas e à vossa vida, não quer ser estranha ao vosso modo de viver e de vos organizardes”, que fomenta o diálogo com todos, que está a caminho de um Sínodo para a Amazônia, que vai marcar novos e melhores caminhos na evangelização da Amazônia e seus povos, especialmente os povos indígenas. A visita papal à Amazônia, seu discurso aos povos indígenas em Puerto Maldonado, nos mostra, acima de tudo, a necessidade de aprender a escutar, a olhar, a reconhecer que o mundo vai viver melhor na medida em que sejamos conscientes que “nós, que não habitamos nestas terras, precisamos da vossa sabedoria e dos vossos conhecimentos para podermos penetrar – sem o destruir – no tesouro que encerra esta região”.