Xingu, que eu amo desde criança

Conheci o Xingu através dos meus tios, padre Eurico e Guilherme, leigo. Vieram para o Xingu em 1934. As cartas que periodicamente enviaram para sua terra natal circulavam entre todos os familiares na Áustria. Falaram da realidade que estavam vivendo no Xingu. Tio Guilherme queria retornar para a Áustria em 1939, mas não foi mais possível. A guerra que estourou naquele ano impedia sua volta à pátria. Permaneceu no Brasil e casou-se em Santa Catarina. Dos seus doze filhos, um se tornou padre e duas filhas, religiosas. Tive o primeiro contato imaginário com o Xingu através desses tios. Padre Eurico falava em seringueiros, ribeirinhos, índios, especialmente os índios Kayapó. Assim meu imaginário de criança já estava povoado com gente e coisas do Xingu.

Nasci na Áustria em 1939. Em 1978 naturalizei-me brasileiro. Hoje me apresento como brasileiro, nascido na Áustria. Minha família era pobre. Éramos seis filhos. Meu pai era professor. O que ganhava foi insuficiente para sustentar a família. Assim todos tínhamos que ajudar. Nas férias escolares eu trabalhava como ajudante de pedreiro. Cheguei a conhecer o mundo do trabalho na construção civil. Fiz muitas amizades. Aqueles operários de trabalho duro me aceitaram muito bem. Estavam felizes com a minha presença nos canteiros de obra, trabalhando com eles. Minha vocação nasceu a partir desta experiência, na Juventude Operária Católica – JOC. Pensava às vezes em fazer medicina ou letras. Mas, depois descobri que a melhor contribuição que poderia dar para o mundo seria como padre. Não sabia, porém, se ia ser jesuíta ou padre secular. Aí, sim, entrou a influência do tio padre Eurico. Ele me dizia: “Se tu queres ser padre por que não vens para a nossa congregação – Missionários do Sangue de Cristo?”. Aceitei a sugestão e fiz minha opção de vida nesta congregação.

 

O surgimento de um missionário

Depois de completar os estudos secundários em junho de 1958, entrei em outubro do mesmo ano no noviciado da congregação no Principado de Liechtenstein.Em 1959, matriculei-me na Universidade Federal de Salzburg. Foram seis anos de estudo na maravilhosa cidade de Mozart. Diplomei-me em filosofia e cursei teologia na mesma Universidade Federal. Pouco antes de me formar, veio a pergunta: Onde vou exercer meu ministério de padre? Meus superiores queriam que eu continuasse os estudos e me diplomasse em Filologia Antiga: Grego e Latim. A congregação precisava de professores em um grande colégio que mantinha na Alemanha. De modo especial necessitava de professor para as aulas de Grego e Latim. Eu gostava – e gosto até hoje – destas línguas. Mas fiquei pensando comigo mesmo: “Meu Deus, vou ser padre para ser professor de Grego e Latim?” Então me veio a inspiração: “Vou ser padre numa terra onde há falta de padres e de recursos.”

Como jovem já me entusiasmava o texto da Primeira Carta de São João 3,16: “Nisto conhecemos que é o amor: Jesus deu a vida por nós. Portanto, também nós devemos dar a vida pelos irmãos e irmãs”. Empolgado por esta mística e tendo aprendido muito com a JOC que, junto com outros jovens, eu tinha fundado em minha cidade natal, tomei a decisão: Vou para o Brasil. E o Brasil significava o Xingu. Fui falar com o Provincial e disse: “Diante da situação em que se encontra a Prelazia do Xingu, quero ir para lá, quero dedicar minha vida aos povos do Xingu”. Mesmo constatando a necessidade de professor, o provincial concordou e disse: “Precisamos enviar nossos jovens para lugares onde há necessidade de padres, onde falta tudo. Podes ir. No entanto, deves primeiro te submeter a exames médicos para saber se és apto para o clima tropical”. Não tive a menor dúvida acerca de minhas condições de saúde que eram ótimas. Praticava esportes como esquiar e escalar montanhas.

 

Adeus à Áustria

Fui ordenado padre no dia 3 de julho de 1965 na Catedral de Salzburg. Já em 2 de novembro do mesmo ano, me despedi da família. Era o aniversário de meu pai. No dia 4 de novembro embarquei em Hamburgo no navio cargueiro “Emsstein” que me levou ao Brasil. Éramos apenas dois passageiros junto aos marinheiros do cargueiro – Frei Lucas, um franciscano, e eu. No dia 18 de novembro de 1965 o navio aportou em São Luís do Maranhão. Foi às quatro horas da tarde – à hora décima do Evangelho de João. Os dois discípulos de João Batista nunca mais se esqueceriam daquele momento em que pela primeira vez encontraram Jesus que os convidou: “Vinde e vede!”. E eles permaneceram com ele naquele dia. Também eu nunca me esqueço daquela hora e daquele dia em que pela primeira vez finquei meus pés em solo brasileiro: “era a hora décima” (Jo 1,39).

Até o navio descarregar ou carregar carga, hospedei-me por três dias no Convento dos Franciscanos em São Luís. Não falava uma palavra em português. Quando em março de 2016 estive novamente nesse convento para ordenação de meu sucessor como bispo do Xingu, dom João Muniz Alves OFM, encontrei o quarto tal e qual como nos idos de 1965. Quantos anos já haviam passado desde então! Quando dom João foi nomeado para o Xingu ele era guardião daquele mesmo convento que receberaa mim, padre novo, missionário enviado para o Brasil. Mero acaso? Não. “A mão do Senhor veio sobre mim e me conduziu...” (Ez 37,1). Quem imaginaria que, 50 anos depois da minha chegada ao Brasil, o superior do convento em que então me hospedei me sucederia na Prelazia do Xingu!

Cheguei a Belém no dia 25 de novembro, à meia noite. Lá fiquei um mês. Participei de um curso intensivo para os “Voluntários do Papa” vindos dos Estados Unidos. Não gostei muito, pois na mesa e no recreio sempre falaram Inglês. E eu não estava aí para bater papo em Inglês, mas para aprender Português. Assim pedi a Madre Ventura que me permitisse tomar as refeições com as Irmãs. E uma delas, a Irmã Mônica, encarregou-se de ensinar Português para mim. A irmã era muito exigente, graças a Deus. Mandou-me às vezes repetir uma palavra tantas vezes até que a pronúncia estava correta, sem sotaque.

 

Padre andarilho e professor

No dia 21 de dezembro viajei para a Altamira. Foi o primeiro voo na minha vida. Era um DC 3 da companhia aérea Cruzeiro. O pessoal brincava dizendo: DC-3 quer dizer que sobem dezoito e descem três. No dia 25 de dezembro, fui celebrar a missa no Santuário de Nossa Senhora de Nazaré e fiz minha primeira homilia em Português! Tremendo nas bases, é claro. Também pudera, depois de apenas um mês no Brasil! Me esforcei muito para falar o Português corretamente. Fiquei ainda uns dias em Altamira e, antes do final do ano, retornei a Belém para continuar o curso de Português com a Irmã Mônica e com os americanos (que continuavam falando Inglês nas refeições).

No dia 6 março de 1966, fui em definitivo para Altamira. E o bispo dom Clemente me deu a primeira provisão canônica: mandou-me dar catequese às crianças, dar aulas de religião no colégio e celebrar às seis e meia da manhã a missa na Igrejinha de Nossa Senhora de Nazaré, naquele tempo periferia de Altamira que era uma cidade com uns sete mil habitantes. Na realidade, não tinha muito o que fazer durante a semana, fora alguns encontros de catequese. Sábado e domingo ia então para as colônias. Era um padre andarilho. Logo mais assumi a pastoral no porto de Altamira que era Vitória do Xingu, hoje paróquia e município, e em Souzel, uma paróquia antiga do Baixo Xingu.

No Instituto Maria de Mattias havia falta de professor para o Curso Pedagógico. Assim a diretora me pediu que assumisse as aulas de Filosofia e Psicologia Educacional. Contribuí durante anos, até minha nomeação de bispo em 1980, para a formação de professoras e professores de ensino fundamental. Foi uma época muito gratificante porque tive um contato direto com a juventude de Altamira. E ainda, como não havia professor de língua estrangeira, assumi também as aulas de Inglês.

 

Bispo aos 41 anos

Em 1971, o Papa Paulo VI nomeou o padre Eurico, meu tio, bispo da Prelazia do Xingu. Já tinha 65 anos. Interessante é que ele ainda foi nomeado “bispo titular de Cissa e prelado do Xingu”. Procurei um dia saber onde se encontrava essa diocese e descobri que se tratava de uma ilha já submersa no Mar Tirreno. Assim começamos a brincar com dom Eurico dizendo que para tomar posse de sua diocese titular precisava de um equipamento de mergulho. Sempre achei estranho essa praxe de nomear bispos titulares de alguma diocese que há séculos não mais existe. No final da década de 70, a saúde dele já estava bastante debilitada. Assim ele pediu um bispo coadjutor à Nunciatura. Já pelo fato de eu ser sobrinho de dom Eurico, quem já esperava que fosse eu o seu sucessor. Mas, dom Eurico fez uma pesquisa entre os padres para saber a quem indicariam como seu sucessor. Pelo que soube muito tempo depois, o nome mais apontado foi o meu. Dom Eurico, certamente assustado, não sabia como agir e foi se consultar com dom Alberto Gaudêncio Ramos, arcebispo metropolitano de Belém. Este teria respondido: “Se os padres querem, vamos propor o nome do seu sobrinho.”

No final de outubro de 1980, fui chamado à Nunciatura. O núncio apostólico era dom Carmine Rocco. O secretário me recebeu e convidou-me a aguardar o núncio. Não tardou a aparecer. Entregou-me uma carta e pediu que a lesse. Era a minha nomeação para bispo-coadjutor na Prelazia do Xingu. Fiquei pasmo e o núncio me perguntou: “O que vai fazer agora?”. Respondi: “Volto para Altamira e vou perguntar os colegas o que acham disso”. E ele: “Eu já consultei padres, leigos e irmãs da prelazia. Confiam no senhor. Aceite!”. Apelou ainda para meu “sensus ecclesiae” e o espírito filial ao Santo Padre. Para mim, começou uma grande agonia. Não sabia mais o que dizer. O núncio olhou bem para mim e falou: “Olhe, o senhor pode aceitar tranquilamente porque o povo lhe quer muito bem. As consultas que fizemos mostram isso claramente. Façamos assim: o senhor vai agora para a capela, fique lá rezando por uma hora e depois venha assinar o termo.” Respondi: “Se é assim, que depois de uma hora devo vir assinar de qualquer jeito, assino logo para depois poder rezar sossegadamente”. O núncio ainda acrescentou: “O senhor terá que guardar o sigilo até 12 de novembro, quando a notícia será oficialmente publicada no Vaticano”.

Essa conversa com o núncio se deu no dia 31 de outubro de 1980. Voltei em seguida via Belém para Altamira. Várias pessoas souberam que tinha viajado para a capital federal e se interrogavam: “Padre Erwin foi a Brasília fazer o quê?”. Dona Berenice, a despachante da VASP e amiga de longa data, também se perguntava o que eu tinha ido fazer em Brasília. Naquele tempo não era tão comum eu viajar. Dom Eurico estava em Belém e indagou também: “O que foi fazer em Brasília?”. Como era segredo pontifício, dei-lhe uma resposta evasiva.

 

Aprendendo a ser bispo

Oficialmente fui nomeado no dia 07 de novembro de 1980, mas o anúncio foi feito somente no dia 12 de novembro, dia de São Josafá, bispo e mártir. Meu Jesus amado, quando me lembro daquilo, ainda hoje estou tremendo! Decidi fazer uma reunião com os padres, leigos e leigas, religiosos e religiosas na Betânia, nosso Centro de Formação. Falei para todos: “Olhem, não tenho experiência nenhuma de ser bispo. Peço que vocês me ajudem!” A turma se reuniu em grupo por “categoria”: padres, religiosas, leigas e leigos. A pergunta foi: “O que esperam do novo bispo?” Guardo o resultado até hoje. O que mais me impressionou foi a resposta dos leigos e leigas: “Padre Erwin, queremos que seja um bispo homem de Deus, homem de oração” O segundo pedido deles foi:“Não seja um bispo de gabinete, mas venha nos visitar em nossas comunidades para que possa sentir na pele o que nós sentimos”.

Tentei viver em todos esses 36 anos o que naquele tempo pediram de mim. Em Altamira, sede da Prelazia, encontrei-me ao todo talvez três a quatro meses a cada ano. Todos os anos visitei todas as paróquias por vários dias, até semanas.

 

Nossas prioridades

Fui ordenado em Altamira, no dia 25 de janeiro de 1981, festa da Conversão de São Paulo. Em 1984, a prelazia completou 50 anos. Tinha sido criada por Pio XI no dia 16 de agosto de 1934 pela Bula “Animarum bonum postulat” (O bem das almas requer...). Então, por ocasião do jubileu de ouro, decidimos convocar a primeira grande Assembleia do Povo de Deus em que todas as comunidades se fazem presentes por uma ou um representante. Leigas e leigos reúnem-se para, junto com os padres, religiosas e religiosos e o bispo, avaliar a caminhada pastoral e escolher as diretrizes e prioridades pastorais para o próximo quinquênio. Desde então a cada cinco anos realizamos essa Assembleia do Povo de Deus.

Os leigos e as leigas sentem-se valorizados, porque podem dar suas sugestões. O bispo não está aí para baixar decretos ou escrever cartas pastorais, mas para ouvir e junto com seu povo decidir a caminhada nos anos subsequentes. Estas assembleias tornaram-se características para a Igreja no Xingu. E nas minhas visitas pastorais sempre considerei dever meu de bispo conferir a concretização – ou não – das linhas e prioridades votadas na assembleia: família, juventude, pastoral indigenista, formação, espiritualidade, ecologia. A última assembleia que presidi como bispo do Xingu foi em novembro de 2014. O tema foi “Povo de Deus no Xingu em defesa da vida e da justiça”. Como lema escolhemos o apelo de Nossa Senhora nas Bodas de Caná: “Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2,5). As prioridades escolhidas na Sétima Assembleia do Povo de Deus foram: Defesa da Vida, Renovação das CEBs, Juventude, Família. Cada assembleia foi um marco histórico de comunhão e participação. Dom João, meu sucessor, pretende continuar nessa mesma direção. Entre uma e outra assembleia, realizou-se sempre uma miniassembleia para avaliar o caminho andado até então e encaminhar já a próxima assembleia.

 

Prova de fogo

“Que o bispo sinta na própria pele o que sentimos” pediram leigas e leigos do novo bispo. Esse pedido não tardou a assumir contornos bem concretos quando me solidarizei com canavieiros que durante nove meses esperaram em vão o pagamento da safra que haviam entregue à Usina Abraham Lincoln no Km 94 da Transamazônica-Oeste, município de Medicilândia. Após fracassarem todas as negociações, os canavieiros decidiram no Domingo de Pentecostes, 22 de maio de 1983, bloquear a Estrada Transamazônica. Trabalhar o ano inteiro para só receber promessas de pagamento é duro. Havia famílias que até fome passaram.Alguns meses antes, eu havia visitado comunidade por comunidade e vi a aflição daquela gente. No dia 23, pela manhã, fui avisado por telefone do bloqueio da Transamazônica. Viajei imediatamente até o local. O povo me recebeu batendo palmas. Um serviço de alto-falante já estava instalado no acampamento. Peguei o microfone e expliquei que ali me encontrava para oferecer ao povo sofrido da Transamazônica o meu apoio e minha irrestrita solidariedade, na busca de seus direitos. Foi para mim um dever de consciência. Não discuti a legalidade da iniciativa popular. Todo mundo sabia que era ilegal e “inconstitucional” obstruir uma rodovia federal. Mas, todo mundo sabia também que o verdadeiro crime foi cometido por aqueles que até então não atendiam as mais justas reivindicações e prolongavam por tanto tempo o sofrimento de um povo humilde e trabalhador. No dia 1º de junho chegou a Polícia Militar. Armada até o dentes! Os manifestantes ergueram as mãos, mãos entrelaçadas umas às outras. Um PM gritou: “Abaixem as mãos!” – Ninguém atendia a ordem. Uma mulher gritou: “Queremos paz!” Os homens secundaram: “Queremos justiça!” Foi neste momento que os PM jogaram as primeiras granadas “de efeito moral”. Mas, nenhum dos manifestantes se levantou. Nunca me esqueço de seu Severino, que estava ao meu lado segurando minha mão. Até hoje, quando recordo aquela hora, sinto os calos das mãos dele na minha mão. De repente ele me disse: “Bispo, vamos morrer!”. Respondi: “Não, Severino! Não vamos morrer não!”. Eu pensei que iam nos carregar um por um para desobstruir a estrada. Em vez disso veio uma saraivada de bombas de gás lacrimogêneo. Os soldados as arremessaram para o meio do povo: crianças e mulheres gritando, pessoas desmaiando, homens cambaleando de um lado para o outro. Fiquei deitado no meio da estrada, envolvido pela fumaça. Não enxerguei mais nada. Escondi meu rosto no chapéu. O gás estava me sufocando, a pele e os olhos ardendo. Depois de algum tempo a fumaça se dissolveu. Arrastei-me até o tanque com água potável que havia aí por perto, molhei meu lenço e lavei o rosto. Foi quando vi o médico Dr. Hélio desmaiado, já sendo socorrido pelos colonos. Cheguei mais perto querendo ajudar, quando um brutamonte de soldado investiu furiosamente contra mim. Agarrou-me na camisa e me atirou violentamente ao chão. Chutou-me nas costas enquanto o povo gritou desesperadamente: “Larga ele! Larga ele! É nosso bispo!” Não gritaram “É um bispo”, mas “É nosso bispo”. Aquele grito foi para mim como uma segunda ordenação episcopal, porque mostrou todo o carinho do povo para com seu pastor. O soldado me torceu o braço para trás e nesta posição me levantou do solo. Perguntei-lhe, porque estava agindo desta maneira. Respondeu apenas: “’Tou cumprindo ordens”. Com o braço torcido para trás, a mão na altura da nuca, fui conduzido uns 100 metros até um ônibus da Transbrasiliana. Olhei para trás e vi o Chico Aguiar, presidente da Associação dos Fornecedores da Cana, se aproximar, de mãos erguidas e empurrado pelo fuzil de um policial. Ficamos presos nós dois, dentro do ônibus. Percebemos logo que naquela hora nos tornávamos “reféns” e que o sentimento do povo estava sendo negociado. O Major falou abertamente para o povo: “Eles não vão ser postos em liberdade tão cedo, se vocês não abrirem a estrada”. Quando, depois de uma hora, o povo abriu a estrada, fomos soltos. Já próximo ao acampamento, diante do povo que novamente estava no meio da estrada, o Major nos atacou verbalmente, chamando-nos de “agitadores” que não merecíamos a confiança e a consideração do povo. Pedi então que nos respeitasse, porque nem o Chico nem eu éramos agitadores. Estava ali por dever de consciência e no cumprimento de minha missão de pastor. E acrescentei: “O que agora aconteceu aqui é uma crueldade sem tamanho, uma enorme covardia contra um povo indefeso e desarmado, sem respeitar nem sequer crianças e mulheres!” Foi o suficiente para o Major dar-me mais uma vez voz de prisão. Mas o povo gritou novamente o “Larga ele! Larga ele! É nosso bispo”. Diante dos gritos do povo o Major não teve outra alternativa do que pôr-me em liberdade. Voltei para o meio do povo que chorando me abraçou.

Naquele mesmo dia o Jornal Nacional já dava notícia de que um bispo foi preso na Transamazônica e no outro dia os jornais comentavam exaustivamente as ocorrências na BR 230 com uma série de fotos das cenas em que o policial me derrubou, e maltratou e depois me conduziu ao ônibus. O Brasil todo veio a saber o que aconteceu na Transamazônica. Assim não deu mais para fazer vista grossa à situação intolerável das famílias. No dia 7 de junho os canavieiros fizeram fila no Banco do Brasil para finalmente receber o pagamento da safra. Comentavam entre si: “Nosso bispo vale ouro, porque se ele não tivesse sido preso e as fotos da prisão publicadas nos jornais, não estaríamos agora aqui para receber nosso dinheiro”.

Nesse episódio experimentei realmente na pele o que esse povo estava sentindo há anos. Foi cruel, mas valeu. Vendo o que os jornais publicaram – eu no chão com o rosto na poeira da estrada, sendo maltratado e depois preso –, sempre fiquei pensando: Há quantos anos esse povo é maltratado, humilhado e pisado e essa realidade desumana nunca é notícia! Agora a detenção e os maus tratos que um bispo sofre vira manchete. Pelo menos surtiu efeito: os colonos receberam o que até então lhes foi negado.

 

Mudanças na Amazônia e resposta pastoral

Quando em 1965 cheguei a Altamira, a cidade tinha apenas uns sete mil habitantes. Hoje o município conta com uma população de aproximadamente 140.000. Também as outras quatro cidades existentes naquele tempo na região do Xingu eram bem pequenas: Gurupá, Porto de Moz, Souzel e São Félix do Xingu. Acho que em toda a prelazia não viviam mais de 30.000 pessoas. Com essa pouca densidade populacional nós, Missionários do Sangue de Cristo, conseguimos dar conta do recado. Não havia falta de padres. Atendemos o povo ao longo dos rios e igarapés através do sistema de desobriga. Padre Frederico, por exemplo, partia de Altamira “e foi para o Alto” como se dizia. Ninguém sabia a data em que ia voltar. Semanas e semanas não se teve notícias dele. Ele tinha sido Vigário Geral dos três bispos, dom Clemente, dom Eurico e o meu também. Faleceu aos 87 anos de idade em 16 de outubro do ano passado “com fama de santidade”. Veio do Tirol, na Áustria, e servia ao Povo de Deus do Xingu durante quase 60 anos. Também eu fiz minhas desobrigas, especialmente no interior das paróquias de Gurupá (já no rio Amazonas) e Porto de Moz (no Baixo Xingu), celebrando a Santa Missa, batizando as crianças, presidindo o sacramento de matrimônio de pessoas que há tempo viviam juntas.

Em 1971 iniciou a construção da Transamazônica. Aí, tudo mudou no Xingu. Praticamente da noite para o dia chegaram milhares de famílias, primeiro do Nordeste, mais tarde do centro e sul do Brasil. Conseguimos acompanhar as famílias “chegantes”. As comunidades fundadas naquela época existem até hoje. Mas começamos a sentir a falta de padres. Ficamos sobrecarregados e às vezes exaustos. Graças a Deus os Padres Xaverianos e depois padres da Igreja Irmã de Porto Alegre vieram em socorro da Prelazia do Xingu.

Naquele tempo realizou-se, de 24 a 30 de maio de 1972, em Santarém, o Encontro Inter-regional dos Bispos da Amazônia. Considero este encontro como marco decisivo para a evangelização na Amazônia nas décadas subsequentes até os dias de hoje. As palavras do Papa Paulo VI “Cristo aponta para a Amazônia” inspiraram as “Linhas prioritárias da Pastoral da Amazônia”. A partir do Concílio Vaticano II, da Conferência do Episcopado latino-americano em Medellín (1968) e “recolhendo a experiência e os anseios das bases” a Igreja da Amazônia escolhe duas diretrizes básicas: “(1) a Encarnação na realidade, pelo conhecimento e pela convivência com o povo, na simplicidade, e (2) a Evangelização libertadora”, que orientam a definição das quatro prioridades da Pastoral da Amazônia:

1- A formação de agentes de pastoral que “deve considerar, em primeiro plano, os elementos locais, os autóctones. Ninguém melhor do que o homem do próprio meio tem condições para exercer a liderança dentro da comunidade”.

2- As comunidades cristãs de base como “primeiro e fundamental núcleo Eclesial”.

3- A pastoral indígena: O CIMI, há pouco criado em Brasília, é considerado “órgão providencial (...) a serviço do índio e das missões indígenas”.

4- Estradas e outras frentes pioneiras: “Nesta hora em que a Transamazônica e outras estradas estão empreendendo a integração e o desenvolvimento da vastíssima região em conexão com as hidrovias, novos problemas solicitam nossa atenção e nossas providências”.

No II Encontro Interregional de Pastoral em Manaus (1974) foi acrescentada uma 5ª prioridade: a Juventude.

O documento de Santarém foi uma graça toda especial que Deus concedeu à Igreja na Amazônia. A partir daí comunidades começaram a pipocar em toda região, sendo sinal de novos tempos para a Igreja. A agenda dos padres tornou-se agenda de visitas às comunidades, que ocuparam o maior tempo do ano. Leigas e leigos recebiam em “Semanas Catequéticas” a formação necessária para assumirem a coordenação da comunidade, o culto dominical, a catequese, a preparação para os sacramentos. Vivíamos uma primavera em toda a Amazônia, um verdadeiro Pentecostes. A animação nas comunidades foi fantástica. De início foram mais os homens que assumiram responsabilidades. Muitas mulheres pensaram ainda que a coordenação de uma comunidade cabia aos homens. Mas, essa visão, graças a Deus, caducou rapidamente e as mulheres assumiram (inclusive com grande apoio dos homens) cada vez mais funções e ministérios na vida da comunidade. Hoje a grande maioria das comunidades é dirigida por mulheres.

Na verdade, surgiu um novo jeito de ser Igreja, e também um novo jeito de ser padre. Como bispo tornei-me peão do trecho, porque a agenda ficou recheada de visitas e viagens pastorais até os confins da Prelazia. Comecei a viver o São Paulo escreveu aos Coríntios: “Não temos morada certa” (1 Cor 4,11). Digo até com um certo orgulho, que não existe ninguém no Xingu que conheça as regiões desta imensa Prelazia como eu as conheço. Fui até as nascentes dos rios e igarapés, até os fundos das estradas vicinais, até as comunidades mais distantes, onde se pensa que o mundo termina. Tinha gente que dizia brincando: “Onde Judas perdeu as meias, pois as botas perdeu já há muito tempo!”

 

As diversas dimensões da comunidade

Há comunidades que surgiram a partir da reza do terço. Uma senhora conhecia os mistérios e sabia “puxar o terço”. Logo mais, a comunidade se deu conta da importância da dimensão samaritana. Eram pessoas pobres que descobriam mil e uma forma de se apoiarem e ajudarem mutuamente. Mas não ficou apenas na troca de favores e na vontade de socorrer a quem estava passando necessidade. Nas reuniões, de repente alguém perguntou: “Por que estamos nessa? Será que Deus quer uma vida assim de tanto sofrimento? Que vamos fazer? Nós não temos direitos?” Começou-se nos encontros a acolher a Palavra de Deus e a meditar a Sagrada Escritura. O livro do Êxodo muito ajudava nessa reflexão. Em particular o que Deus mesmo falou a seu povo na escravidão: “Eu vi, eu vi a miséria de meu povo. Ouvi o seu clamor por causa dos seus opressores e tomei conhecimento de suas angústias. Por isso, desci para libertá-los das mãos dos egípcios e fazê-los sair desse país para uma terra boa e espaçosa” (Ex 3,7-8).

Também a dimensão profética assumiu contornos reais. Com essa dimensão vieram as primeiras perseguições. De repente morreu gente de “morte matada”. Falava-se muito das ferramentas para sair da situação de pobreza, de miséria. Uma delas foi o sindicato dos trabalhadores rurais. Uns entraram na política, mas em muitos casos não se deram bem. Ou pior, alguns, uma vez ocupando uma cadeira na Câmara Municipal ou na Assembleia Legislativa do Estado, ou até no Congresso Nacional, se esqueceram da sua origem e se deixaram cooptar e corromper. Essa é uma das mais tristes experiências que fiz e me causa arrepios e náuseas até hoje.

  • , no entanto, uma outra dimensão que é essencial, fundamental para toda a comunidade: a dimensão orante, celebrativa, contemplativa. Minha experiência é que quando as comunidades deixam de orar e celebrar o culto, em pouco tempo desaparecem. Onde o culto dominical, as celebrações, a oração são descuidados a comunidade, mesmo sendo forte em sua organização, morre por inanição. É sempre a mística do Evangelho que sustenta a pessoa e a comunidade.

 

Servo sofredor

Assumi como lema episcopal o primeiro versículo da Carta aos Romanos – Servo de Cristo Jesus. Mas, é preciso levar em conta o versículo todo: “Paulo, servo de Cristo Jesus, chamado para ser apóstolo; separado para o Evangelho de Deus” (Rom 1,1). Sou “servo”, e não “dono”. Sou chamado para exercer um ministério, um serviço. Não estou acima do povo. Sou servo de Cristo Jesus no meio do Povo de Deus. Fui escolhido, separado para proclamar o Evangelho de Deus, na perspectiva da Carta aos Hebreus – separado não para buscar vantagens pessoais, mas “constituído em favor das pessoas em suas relações com Deus” (Hbr 5,1).

Servo de Cristo Jesus não se é “para o próprio gasto”. Deus não nos chama para nos fecharmos em nós mesmos. Ele nos chama e ao mesmo tempo nos envia. O servo de Cristo Jesus também tem algo a ver com o servo que o profeta Isaías apresenta em seus quatro cânticos do servo sofredor (Is 42,1-9; Is 49,1-6; Is 50,4-11; Is 52,13-53,12). São palavras comoventes que lemos. Revelam-nos realmente o que significa ser “servo”:  “Eu, o Senhor, te chamei para o serviço da justiça, tomei-te pela mão” (Is 42,6). Mas esse chamado implica também muitas vezes em ser rejeitado e desprezado como aconteceu com Jesus: “Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores” (Is 53,3).

A situação no Xingu, quando fui sagrado bispo já não era nada fácil. Ao longo dos anos tornou-se cada vez mais complexa e conflitiva. Que pastor não sofre em meio a essa situação! O sofrimento faz parte da vida em nosso dia a dia. Servo de Cristo Jesus é solidarizar-se com o povo, carregar suas dores, doar a vida: “Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si” (Is 53,4). “Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro...” (Is 53,7).

 

Experiência da dor                                                

O “acidente” do 16 de outubro de 1987 que até hoje não foi esclarecido me marcou profundamente.

Havia um acampamento de colonos em Brasil Novo. Famílias, há anos castigadas pela irresponsabilidade dos órgãos governamentais, ocuparam a área em frente ao prédio do Instituto Nacional de Reforma Agrária (INCRA), reivindicando o conserto das estradas vicinais da Rodovia Transamazônica. Na estação de chuvas, a mata para muitos virava prisão. Famílias e comunidades encontraram-se isoladas de tudo e de todos. Qualquer enfermidade podia ter um desfecho fatal, porque foi impossível sair a procura de remédios, de assistência médica ou hospitalar. Há casos, em que pessoas doentes foram carregadas por mais de 30 km em redes penduradas em um pau roliço sobre os ombros já esfolados de dois homens. Mortos foram enterrados nos quintais, porque não havia como levar os corpos para o cemitério. No mês de outubro, o verão tropical já está chegando ao fim. Mulheres, homens e crianças juntaram-se mais uma vez em busca de solução. Apelaram ao Governo, para que finalmente tomasse alguma medida. Dia 15 de outubro fui até o Brasil Novo para encontrar-me com os acampados. Brasil Novo fica a 46 quilômetros de Altamira. Os colonos pediram-me que voltasse no dia seguinte para celebrar a Eucaristia. Aceitei com muito prazer. Eram todos membros de comunidades ao longo da Transamazônica. Comigo viajaram o Padre Salvatore Deiana (“Tore”), Padre Mateus Antonello e Sônia Aparecida Feiteiro, naquele tempo secretária da CPT.

Perto do Km 23 da Transamazônica (Altamira-Itaituba, BR 230) há uma descida e logo depois uma subida. Vi no topo da ladeira um carro de cor clara. Pensei que estivesse descendo em nosso rumo e por isso fechei o vidro para defender-nos da poeira. O carro não desceu. Mais tarde soube que era o carro do delegado de Brasil Novo, assassinado alguns meses mais tarde na sua própria casa, assistindo televisão. Em lugar desse carro, antes de alcançarmos o ponto mais alto, veio uma caminhoneta. Era impossível desviar em tempo. O veículo de carga veio na contramão e nos abalroou. O choque foi terrível. Tudo em uma fração de segundo. Fraturei meu rosto, perdi os dentes, quebrei costelas. Mas não perdi a consciência. Vi dois homens descer da caminhoneta. Fugiram! O sangue me saía pela boca e pelo nariz. Senti falta de ar. Olhei para o meu lado, bati no ombro do padre e chamei seu nome: "Tore, Tore, Tore!" Ele não respondia mais, estava morto.

Uma Kombi que vinha atrás parou e os passageiros nos socorreram. Tiraram-me do gol e me levaram ao Hospital Central em Altamira, para os primeiros socorros. No outro dia um teco-teco do exército me transportou para Belém. Fui internado no Hospital Guadalupe onde passei seis semanas. Sofri duas cirurgias. Fiquei 33 dias com o queixo amarrado, só podendo alimentar-me através de um canudo. Naquele tempo, aprendi concretamente o que significa ser o Servo Sofredor. Eu não tinha experiência de sofrimento. Agora fiquei noites sem dormir, confinado a um leito de hospital, sentindo dores e mais dores. Dor no rosto é difícil de suportar. Não sabia o que fazer para aliviar a dor. Nestas noites aparentemente intermináveis me dei conta de que a narrativa central do Evangelho é realmente a paixão, morte e ressurreição do Senhor. Rezei muito. Descobri ainda mais o valor do terço, já que não podia rezar a Liturgia das Horas.

 

Acidente ou tentativa de assassinato?

Quando finalmente retornei a Altamira, foi aquela festa. O povo me recebeu com muita alegria. Mas, aos poucos a trama do “acidente” começou a ser desvendada para mim. E o que antes não sabia, cheguei a saber. Contaram-me que quando o padre Salvatore foi colocado no necrotério muita gente veio ver o corpo. Chegou um homem desconhecido, de chapéu de aba larga, e perguntou simplesmente: “Posso olhar o corpo?”. O corpo ainda estava coberto com um lençol. Ele retirou o lençol para ver o rosto do falecido e disse: “Morreu o errado!”. Soube mais tarde que um homem com as mesmas características já queria entrar no acampamento e foi barrado por Dionísio, encarregado de cuidar da “vigilância”. Quando ainda estava no hospital em Belém, veio uma jornalista me visitar e disse: “O senhor não pense que sofreu um acidente! Tenho certeza de que não foi!” Isso me assustou. E mais ainda me assustei, quando depois de dois meses, já de volta a Altamira, outra jornalista me disse exatamente a mesma coisa: “Foi acidente planejado”. Aos poucos o macabro mosaico se completou. Surpreendente foi também a rapidez da polícia em chegar ao lugar do sinistro, a 23 quilômetros de Altamira, numa estrada péssima. Vinte minutos depois do acidente a polícia já se encontrava lá para registrar a ocorrência. Nunca houve inquérito. Como os policiais conseguiram chegar em tão pouco tempo? Já sabiam do acidente antes de acontecer?

O acidente e a morte do Padre Tore se situam no contexto mais amplo da campanha ante-indígena durante Assembleia Nacional Constituinte. Em agosto de 1987, o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), cujo presidente eu era, foi acusado de todo tipo de crime de lesa-pátria, simplesmente por defendermos a dignidade dos povos indígenas e pleitearmos a inscrição de seus direitos na Carta Magna do Brasil. Durante cinco dias, o jornal O Estado de São Paulo publicou matérias caluniosas e difamações explícitas, documentos falsificados ou inexistentes contra o CIMI, querendo com essa iniciativa colocar em total descrédito toda a nossa luta por parâmetros mais favoráveis aos povos indígenas na Constituição Federal. Queriam, a todo custo, enfraquecer a presença do CIMI nas articulações da Assembleia Nacional Constituinte. A criminalização da entidade teve por consequência a instauração de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que ouviu os representantes do jornal que comandou a campanha e examinou os documentos forjados. Também eu aguardava o chamado para depor diante da Comissão. Os advogados em Brasília insistiram que estivesse de prontidão pois a qualquer momento poderia ser chamado. Contei com irrestrito apoio de Dom Luciano Mendes de Almeida, então presidente da CNBB, e Márcio Thomaz Bastos, presidente da OAB. Munido já de um dossiê completo que comprovava como infundadas e caluniosas todas as acusações, estava convicto de que iria desmascarar a tramoia. Mas, em vez de viajar a Brasília, fui vítima de um misterioso acidente automobilístico que ceifou a vida de um jovem Padre.

Tive alta do hospital, mas a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito não me chamou para depor como era previsto. Mesmo assim, o parecer final do relator da comissão concluiu pela total falsidade dos documentos mencionados pelo jornal denunciante, e propôs a remessa do material e do relatório ao Ministério Público, dadas as evidências de falsidade ideológica. Mesmo com muitas dores sofridas para completar “o que falta às tribulações de Cristo” (Col 1,24) e lágrimas vertidas pela morte de um Padre entusiasmado pela Amazônia, festejamos juntos com os povos indígenas a vitória de serem inscritos os seus direitos na Constituição Federal. No dia 1º de junho de 1988, o plenário da Assembleia Nacional Constituinte aprovou a redação do capítulo específico sobre os direitos indígenas. No segundo e último turno de votação plenária, na sessão de 30 de agosto de 1988, de 453 votos, o capítulo sobre os índios obteve 437 votos favoráveis, 8 abstenções e 8 votos contrários.

 

Mártires da caminhada

Há muitos que tombaram pelo caminho. Já citei o Padre Tore. Entre tantos outros quero ainda lembrar o Irmão Humberto, o Dema e a irmã Dorothy.

Irmão Humberto, irmão da minha congregação, foi assassinado em 10 de outubro de 1995 dentro da Casa da Prelazia. Alguém bateu a campainha e ele abriu a porta. Poucos minutos depois foi fulminado com vários tiros à queima-roupa. Até hoje existe um buraco na parede na sala de entrada da casa feito por um balaço. Foi um irmão leigo que trabalhou em várias frentes da Prelazia, sempre prestativo, competente e generoso para com os pobres. Nunca conseguimos apurar se os bandidos na realidade queriam matar o Padre Frederico ou o Padre Sávio que muito se empenhou para elucidar os crimes de emasculação de que, entre 1989 e 1993, uns 20 meninos foram vítimas. No dia fatídico encontrava-me em Tucumã, no Alto Xingu. Meu amigo Pereira, piloto de avião, levou-me de teco-teco para Altamira para poder celebrar as exéquias. Na Missa de Corpo Presente na Catedral vi gente que antes nunca havia visto na Igreja. Até evangélicos participaram, pois o irmão quando ajudou alguém nunca perguntou pela confissão religiosa.

Dema (Ademir Alfeu Federicci) foi morto em 25 de agosto de 2001. Na madrugada daquele dia alguém entrou em sua casa e o executou à queima-roupa. Dema caiu aos pés de sua mulher e balbuciou ainda: “Maria, cuide de nossos filhos”.   Conheci Dema de visitas pastorais às comunidades da Transamazônica, de reuniões e assembleias. Lembro-me com prazer de ter visitado seu lar. Conheço sua esposa, Maria da Penha, e seus filhos. Conheci seu pai, conheço sua mãe. Encontrei-me com Dema pela última vez em Altamira, no Instituto Maria de Mattias, por ocasião de uma assembleia da juventude. Dema havia assumido uma posição decidida de defender o meio-ambiente pois deu-se conta de que a devastação inescrupulosa da região do Xingu terá consequências calamitosas para as futuras gerações. Ademir Alfeu Federicci veio do Espírito Santo para a Amazônia. Hoje ele é venerado como herói da Transamazônica, como exemplo de firmeza e coragem na defesa da dignidade humana e do meio-ambiente no vale do Xingu e na Transamazônica. E Maria da Penha? A mulher que Dema tanto amou? A mãe de seus filhos? A esposa a quem mortalmente ferido dirigiu seu derradeiro olhar? Maria da Penha continua viva, engajada, corajosa. Quando eu soube da morte de Dema, imediatamente pensei nela. Comparei-a com outra “Maria da Penha”, aquela do Calvário, firme, de pé junto à cruz, aferrada em sua fé.

Irmã Dorothy, ao lado de Chico Mendes, é seguramente a mártir mais conhecida da Amazônia. Veio para o Xingu em 1982. Lembro-me muito bem quando chegou e me pediu que lhe indicasse uma região em que podia trabalhar entre os pobres mais pobres. Fez a opção pelos povos da Amazônia, de modo especial pelos pobres e excluídos. Não admitia nunca que uma pessoa pelo fato de ser pobre pudesse ser prejudicada e desrespeitada em sua dignidade e em seus direitos. Rezou com a gente humilde e participou de reuniões do povo simples ajudando-o em sua organização e na reivindicação dos direitos que lhe foram negados. Advertida de que estava correndo risco de vida, ela simplesmente sorria. Não acreditava. Foi morta em Anapu, na Transamazônica, às 7:30 da manhã do dia 12 de fevereiro de 2005, por um pistoleiro a mando de fazendeiros da região. Pouco antes de ser assassinada, Irmã Dorothy, ao ser perguntado por seu algoz se estava armada, abriu a sacola e mostrou-lhe a Bíblia Sagrada. Ele mesmo confessou que a Irmã citou uns versículos das Bem-aventuranças: Bem-aventurados os mansos, os aflitos, os que têm fome e sede de justiça, os que promovem a paz (cfr. Mt 5,1-10).

 

Sob proteção policial

Em 29 de junho de 2006, às 22 horas, apareceu na Casa da Prelazia do Xingu o comandante do 16º Batalhão da Polícia Militar (Xingu), tenente-coronel Paulo Roberto com dois soldados fardados. Comunicou-me que, a partir daquele momento, eu estaria sob proteção policial e me pediu que aceitasse a medida que teria se tornado necessária devido a várias ameaças que eu vinha sofrendo. Insistiu que não me opusesse. Explicou que cabe ao Estado a responsabilidade de zelar pela integridade física do bispo do Xingu, já que fui enquadrado no programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos da Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República.

As ameaças tiveram vários motivos:

O primeiro foi a minha posição sobre o assassinato de Irmã Dorothy Mae Stang. Não me contentei com a prisão dos dois executores do crime e de três acusados de serem os mandantes. A morte da Irmã foi programada por um consórcio, até os mínimos detalhes. Com essa minha convicção fui considerado uma ameaça aos integrantes daquele consórcio do crime.

O segundo motivo foi meu posicionamento em relação a hidrelétrica Belo Monte. Alguns empresários e políticos declararam guerra contra o bispo do Xingu. Gritaram do alto de seus palanques: “Vamos pra guerra!“ e prometeram “descer o cacete“. Deixaram-se influir pelo artigo “Reagir é a palavra de ordem” publicado em “O LIBERAL” de 5 de junho de 2006 em que o economista Armando Soares recomendou a meu respeito: “Ensinava o pai de Cícero, o grande tribuno romano, que homens iníquos têm que ser eliminados da sociedade, sob pena de contaminarem toda a sociedade”.

O terceiro motivo se relacionou à minha defesa intransigente dos povos indígenas que sempre contrariou interesses e ambições de quem nunca concordou com a demarcação de áreas indígenas.

O quarto motivo foi a denúncia que fiz de abuso sexual de meninas do Instituto Maria de Mattias e de uma outra escola de Altamira. Entrei em contato a Secretaria de Estado de Segurança Pública e denunciei os crimes, prestando depoimento à Delegada Socorro que fora enviada de Belém para ouvir o bispo do Xingu. A reação de quem foi acusado não tardou. Ato contínuo sofri ameaças de morte.

Continuo até hoje sob proteção policial. São quatro PMs que assumem a vigilância, revezando-se dois a dois. Acompanham-me onde quer que eu esteja, nas celebrações litúrgicas, visitas às comunidades, encontros e palestras. Têm quarto na Casa da Prelazia e tomam as refeições à nossa mesa.

 

A importância do laicato

As comunidades não funcionam sem o engajamento decidido de leigas e leigos. Só existe realmente comunidade quando leigas e leigos assumem a sua responsabilidade batismal e crismal. O padre e o bispo visitam as comunidades, celebram a Eucaristia e ministram os sacramentos. Fazem reuniões com as lideranças, instruem, informam e animam a comunidade. Mas o dia a dia da comunidade depende dos leigos.

Lembro-me da minha primeira visita “ad limina” em 1985 quando o papa João Paulo II queria saber o número de padres e religiosas/os na Prelazia. Ficou assustado com minha resposta e perguntou: “Com faz com tão pouca gente?”. Respondi: “Existem também leigas e leigos comprometidos nas comunidades”. Ele então retrucou “Comunidades de base?” Corrigi o Papa dizendo: “Comunidades eclesiais de base, pois é aí que a Igreja vive!”

O que seria a Igreja do Xingu sem leigos e leigas comprometidos? Afirmo o mesmo em relação a toda a Amazônia. No Xingu há atualmente em torno de oitocentas comunidades. Para os leigos, o empenho em favor de sua comunidade é um grande desafio. São pais e mães de família. Exercem uma profissão. São professoras, agricultores, funcionários, donas de casa. Aceitam responsabilidades por causa de sua fé e de seu amor à Igreja que se concretiza “pé no chão” na sua comunidade. Não pedem remuneração. São voluntários. Sempre admirei toda essa generosa dedicação. Participam de reuniões, encontros, retiros (junto com os padres e religiosas/os). Muitas vezes com grande sacrifício!

 

Organização sindical e política partidária

A Igreja foi muitas vezes o ponto de partida para a formação de sindicatos de trabalhadores e diversas associações de mulheres e homens. As lideranças das comunidades sempre se perguntavam quais ferramentas poderiam ajudar na luta pela melhoria de vida – reivindicar escola, posto de saúde, estradas – e refletiam sobre isso nas reuniões das comunidades. E os dirigentes e membros das diversas organizações e entidades eram e são animadores, dirigentes de comunidades. Vários deles continuam participando da vida das comunidades.

 

Muito além do Xingu

Em julho de 1983, fui eleito presidente do CIMI.

Em junho daquele ano, depois do episódio na Transamazônica que culminou com minha detenção pela Polícia Militar, visitei junto com Dom Tomás Balduíno – piloto de teco-teco – várias aldeias indígenas Kayapó no Alto Xingu. Ele retornou depois a Goiás e numa reunião do CIMI em que se preparou a assembleia eletiva da entidade ele teria falado: “Há no Xingu um bispo novo. É corajoso. Vamos apostar nele.”

No mês de julho estávamos de retiro na Prelazia. O cardeal dom Aloísio Lorscheider veio até o Xingu orientar esses dias de oração e meditação. Terminado o retiro recebi um telefonema perguntando se eu estava disposto a ser candidato à presidência do CIMI. Respondi: “Pelo amor de Deus, sou bispo novo e não tenho preparo para assumir uma responsabilidade tão grande, em nível nacional”. Dom Aloísio ainda se encontrava em Altamira. Perguntei assim ao cardeal o que devia fazer. Ele reagiu imediatamente e disse: “Você tem que assumir, pois se trata de um serviço à Igreja e, em nome da Igreja, aos povos indígenas”. Com o aval de dom Aloísio, fiquei mais tranquilo e aceitei. Fui eleito e durante oito anos, de 1983 a 1991 exerci o cargo, sempre em sintonia com a CNBB. A Assembleia Nacional Constituinte de 1987 foi a hora propícia para lutarmos pela inclusão dos direitos indígenas na Carta Magna do Brasil. Mantivemos contatos com deputados e senadores, tudo para convencer os constituintes que os índios precisavam ser considerados cidadãos adultos, donos de sua história, brasileiros e brasileiras com todos os direitos respeitados, direitos a suas terras ancestrais, às suas línguas, expressões culturais e tradições, às suas organizações. Nosso empenho em favor destes povos, é claro, não agradou a todos, especialmente não recebeu aplausos dos que queriam ocupar as terras indígenas e explorar as riquezas naturais nelas existentes.

Entre tantos encontros lembro-me de um que parece até misterioso. Não consigo explicar. Nunca acreditei em mero “acaso“. Recordo antes a expressão do profeta Ezequiel: “A mão do Senhor veio sobre mim e me conduziu...“ (Ez 37,1). A figura central desta história é Jarbas Gonçalves Passarinho, ex-governador do Pará, ex-senador, ex-ministro. Jarbas se considerou amigo de meu tio. Eu mesmo não me senti tão amigo de quem teve um papel importante no AI-5. No dia do falecimento de sua esposa, o prefeito de Altamira veio pedir que celebrasse uma missa “em sufrágio da alma de Dona Ruth”. Foi numa terça-feira à noite na Catedral do Xingu. Por uma “coincidência“ daquelas que chamo de “mão de Deus“, o Evangelho do dia foi Lucas 18,15-17: “Deixai as criancinhas virem a mim e não as impeçais, pois delas é o Reino de Deus“. Na breve homilia lembrei a finada e seu empenho em favor das crianças. Dias depois tive que viajar a Brasília para uma reunião do CIMI. Quando em Belém embarquei no avião da VASP, reconheci numa das primeiras poltronas o Senador Jarbas Gonçalves Passarinho. Fui mais para trás, sentei e comecei a rezar o meu breviário. De repente me deu um estalo. Senti até vergonha por ter passado pelo Senador sem cumprimentá-lo e apresentar minhas condolências. Levantei e fui para frente. “Senador!“ – “Oh, Dom Erwin!“ – “Venho apresentar-lhe minhas mais sentidas condolências pelo falecimento de sua esposa!“. O senador se levanta. É uma cena um tanto estranha no meio do corredor do avião. Abraço Jarbas Passarinho e ele soluça: “V. Excia. não pode imaginar a lacuna que Dona Ruth deixou em minha vida!“ Digo qualquer coisa como “Está com Deus!“ e “Deus há de confortá-lo.“ Aí, ele retoma a palavra: “Dom Erwin, sou-lhe muito grato. Fiquei emocionado ao saber como V. Excia. lembrou minha falecida esposa na missa que celebrou na catedral de Altamira.” Um pouco desajeitado retruquei algo como “É o que tinha que ser dito até por questão de justiça.“ Despedi-me e voltei ao meu lugar lá atrás. No saguão do aeroporto de Brasília só o vi de longe, cercado de parentes e amigos.

Fui recebido em Brasília pelos assessores jurídicos do CIMI. Entrei no carro e um deles logo me fulminou: “O Sr. conhece o Jarbas Passarinho?“ – “Sim, conheço, mas não tão de perto. Coitado, perdeu a mulher!“. – “Mas ele o conhece?“ – “Sem dúvida! Chegamos agora no mesmo avião em Brasília. Falei com ele enquanto cruzávamos os céus do Brasil, dando-lhe os pêsames.“ – “O Sr. se importaria de marcar logo mais um encontro com ele?“ – “Ora, o homem está de luto e certamente foi para o seu apartamento. Não quero importuná-lo agora. Creio que seria falta de educação!“ – “E se a questão for de vida ou morte?“ – “Mas será que de repente existe algo tão grave?“

O CIMI até então investiu todo o seu esforço em conscientizar e sensibilizar para a causa indígena os constituintes situados mais à esquerda. O raciocínio dos advogados e do então secretário do CIMI Antônio Brand foi que urge ampliar a nossa ação conscientizadora para além dos já aliados desta causa. Só os votos da esquerda brasileira não seriam suficientes para garantir a inscrição dos direitos indígenas na Constituição sem todo esse ranço colonialista de querer “incorporar os silvícolas à comunhão nacional” como pretendiam as Constituições anteriores.

“A ’peça chave’ para ampliar o raio de nossos colaboradores na Assembleia Nacional Constituinte é o Senador pelo Pará Jarbas Passarinho. Se conquistarmos o Jarbas para a causa que defendemos, a vitória é segura“ argumentaram Antônio Brand e os advogados do CIMI. – “Mas, eu nem sequer tenho o número do telefone do senador“ arrisquei. “Não se preocupe! Temos tanto o número do gabinete quanto do apartamento“. Chegamos no Secretariado Nacional do CIMI, Edifício Venâncio III. Telefonei! “Senador! É Dom Erwin!“ – “Que prazer! Fizemos boa viagem, não foi!“ – “Graças a Deus! O Senador me desculpe, mas, se não for muito inoportuno, existiria uma possibilidade de encontrá-lo ainda hoje ou então amanhã cedo? Queria falar com o Senador sobre os direitos indígenas na nova Constituição.“ – “V. Excia. é quem manda! Se quiser vir logo, estou no meu gabinete. Recebo-o com muito prazer!“ – “Pois então, Senador, já estou indo. Posso levar dois assessores jurídicos do CIMI?“ – “Sem dúvida! Pode trazê-los!“

Já era noite em Brasília. Chegamos ao gabinete do Senador Jarbas Passarinho. Uma secretária nos serviu um cafezinho e o Senador, apesar do luto, estava visivelmente descontraído. A gentileza e a grande erudição sempre constituíram sua logomarca. Agora é minha vez de falar! Pedi as luzes do Espírito Santo, respirei fundo e comecei: “O Senador é acreano de nascimento e paraense de coração. Acre e Pará são as duas extremidades que abraçam a Amazônia. O senhor como Senador Constituinte não representa apenas o Pará, mas é uma referência para a Amazônia toda. Na Amazônia vive o maior número dos povos indígenas do Brasil. Eles não têm representante no Congresso. Peço que o senhor assuma essa função, defendendo os seus interesses, sua dignidade, seus direitos que precisam ser inscritos na nova Constituição.“ O Senador ouviu muito atento. Senti que minha exposição lhe era simpática. “Nos detalhes, Senador, como se deve encaminhar essa causa, os meus assessores jurídicos conhecem as filigranas da questão do ponto de vista jurídico!“ – Terminei e senti-me aliviado. Não me recordo mais, quanto tempo durou a conversa do Senador com os advogados do CIMI. Dias depois o Senador Jarbas Gonçalves Passarinho fez um inflamado discurso em favor dos povos indígenas. E o Capítulo VIII - DOS ÍNDIOS (Artigos 231 e 232). da Constituição da República Federativa do Brasil é prova de que surtiu o efeito almejado. Graças a Deus!

Após dois mandatos, eu não podia mais ser reeleito. Na Assembleia da CNBB, em 1995, me elegeram responsável pela Linha 2 – Dimensão Missionária. Nesta função fui reeleito em 1999 para mais quatro anos.Em 2006 faleceu o presidente do CIMI,dom Franco Masserdotti. Pedalava sua bicicleta quando um carro o derrubou. Morreu na hora. Representantes do CIMI vieram então falar comigo para eu assumir interinamente a presidência do CIMI, pelo menos como mandato tampão. Aceitei. Em 2007, houve eleição e fui novamente eleito. Em 2011, fui reeleito para mais um período, até 2015. Na assembleia daquele ano finalmente foi eleito meu grande amigo e irmão dom Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho.

 

A Comissão Episcopal para