A Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM-Brasil) realizou 16 Seminários sobre a Laudato si, em diferentes regiões do Brasil. Por que pareceu importante realizar tais seminários? A resposta é: porque é grave e urgente a crise climática e ecológica que nosso Planeta-Terra está enfrentando. A crise climática vem do aquecimento global, chamado também efeito estufa. A crise ecológica, por sua vez, é o processo de devastação e degradação da terra, a contaminação das águas, do solo, do ar, do meio ambiente. Essas duas crises, a climática e a ecológica, influem uma na outra. Elas se alimentam reciprocamente. O Papa Francisco na sua encíclica Laudato si’ trata justamente desta crise global, que afeta todo o planeta e não apenas algumas regiões. Ele convoca a sociedade humana a somar forças para superar a crise e envolve também a Igreja neste esforço. Ele diz que a terra é nossa casa comum, que está correndo risco iminente de não poder mais oferecer condições de vida aos seres deste Planeta. O risco é iminente e fatal. Contudo, ainda há tempo para afastar este risco, mas não muito. Por isso, é urgente. Nossos seminários sobre a Laudato si’ pretendem ser uma ajuda significativa neste esforço.

Em Paris, em dezembro de 2015, reuniu-se a COP21, que foi uma conferência de cúpula de todos os países para tratar da crise climática. Nós, da REPAM, também estivemos lá. No final, chegou-se a um acordo histórico, assinado por 195 países (quase a totalidade dos países do mundo). Entre os assinantes estavam todos os grandes países como Estados Unidos, Rússia, China, Índia, Alemanha, França, e também o Brasil. Foi um acordo para somar esforços e começar iniciativas de grande porte para salvar o Planeta. O ministro francês dos exteriores, que era um dos coordenadores, Laurent Fabius, disse com razão: “Mais tarde, tarde demais”. Não podemos empurrar a questão para mais tarde, pois seria tarde demais. Os cientistas afirmam que é neste século 21 que deverá ser realizada a grande batalha para salvar o Planeta ou será tarde demais. Mas não será fácil, porque terá enormes custos. Será necessário abandonar gradativamente o uso do petróleo, do carvão mineral e do gás natural como fontes de energia, pois estes materiais, que são fósseis, ao serem queimados, p. ex. para produzir energia elétrica, produzem gases, principalmente gás carbônico – CO² - que, jogados na atmosfera, produzem uma capa ao redor do Planeta, que deixa entrar o calor do sol mas não permite a suficiente saída do calor e assim vai aquecendo sempre mais o Planeta: é o efeito estufa. Podemos imaginar o tamanho da resistência que haverá da parte p.ex. das grandes empresas que fornecem petróleo ao mundo. O mundo é movido a petróleo. Os grandes complexos empresariais que trabalham e se enriquecem com o petróleo vão resistir até o fim para que não haja mudança. A mesma resistência haverá da parte dos que vendem ou usam o carvão mineral, especialmente para produzir energia, como também os que trabalham com o gás natural. E os altos custos de encontrar e produzir outras fontes de energia, de energia limpa para todo o mundo, em substituição ao petróleo, ao carvão mineral e ao gás natural. 
Além disso, requerem-se grandes reformas no modo como evitar o desmatamento e como fazer agricultura sustentável e aí será o agronegócio que não vai gostar e vai resistir. Muitas outras reformas serão também necessárias, como: a necessidade de um outro estilo de vida menos consumista, de maior cuidado com o solo, a água, o ar, e menor desperdício de energia, de água e de comida;  um sistema econômico que tenha como meta o bem comum dos seres humanos e o bem do planeta e não a acumulação de lucros cada vez maiores, às custas da pobreza de centenas de milhões de seres humanos e às custas do planeta. 

Neste contexto, a Laudato si’ cita a nossa Amazônia, com sua realidade formada de imensas águas, grandes florestas, enorme biodiversidade e os indígenas como guardiães milenares deste sistema. A Laudato si’ afirma que a Amazônia é um dos pulmões do planeta e, portanto, exigirá cuidados especiais para não ser destruída e devastada. Mas, para o Papa e para nós, não se trata só da Amazônia. A crise afeta todo o planeta e, portanto também, todo o território brasileiro: basta pensar no agronegócio, na mineração, na situação dos nossos rios e nascentes fora da Amazônia, cujas matas protetoras, as matas ciliares – que são essenciais - foram praticamente todas dizimadas. Pensemos também na poluição do ar, do solo, da água, na falta de adequado tratamento do lixo, principalmente nas cidades pelo Brasil afora.

Neste contexto da crise ecológica, o Papa Francisco na Laudato si’ fala da importância dos indígenas e denuncia os maus tratos e violação de direitos de que são vítimas os indígenas em muitas regiões do mundo e também no nosso país. Ele diz: “Neste sentido, é indispensável prestar uma atenção especial às comunidades indígenas com as suas tradições culturais. Não são apenas uma minoria entre outras, mas devem tornar-se os principais interlocutores, especialmente quando se avança com grandes projetos que afetam os seus espaços. Com efeito, para eles, a terra não é um bem econômico, mas dom gratuito de Deus e dos antepassados que nela descansam, um espaço sagrado com o qual precisam interagir para manter a sua identidade e os seus valores. Eles, quando permanecem nos seus territórios são quem melhor os cuida. Em várias partes do mundo, porém, são objeto de pressões para que abandonem seus terras e as deixem livres para projetos extrativos e agropecuários que não prestam atenção à degradação da natureza e da cultura” (n. 146).

 Essas são palavras do Papa. Tudo o que ele diz aqui se aplica à triste situação dos povos indígenas no Brasil. Tudo isto está acontecendo com os nossos povos indígenas. É preciso defendê-los, defender seus direitos, dar-lhes de novo a possibilidade de serem os protagonistas de sua história, os sujeitos de sua história. Deles foi tirado tudo: a identidade, a terra, as línguas, sua cultura, sua história, tudo. A Igreja e a sociedade brasileira não podem ficar indiferentes a esta situação.
Além do mais, na Laudato si’, o Papa Francisco mostra como toda esta problemática tem ao mesmo tempo uma dimensão religiosa e ética. A dimensão religiosa se baseia em nossa fé em Deus Criador. Nós cremos que Deus criou o universo e, portanto, também nosso Planeta, a Terra. Deus deu este planeta a nós, seres humanos, como um dom gratuito, para dele tirarmos nosso sustento e para cuidarmos dele como de um jardim, para o administrarmos, sim, mas não para o devastar e destruir. Por isso, a Igreja canta e louva a Deus pela criação e lhe dá graças por podermos usufruir da terra. Mas a Igreja também orienta a humanidade para cuidar da terra, segundo as indicações de Deus. Porém, o mais importante em nossa fé cristã, relativo à terra, é que o Filho de Deus se fez homem para nos salvar da morte e de todos os males. Fez-se homem e tomou o nome de Jesus. O corpo de Jesus, como qualquer corpo humano, é feito dos elementos da terra. Assim, Deus se uniu definitivamente e de modo radical com nosso planeta. Este corpo de Jesus morreu na cruz e depois ressuscitou glorioso e vencedor e está definitivamente junto de Deus. Ora, nesta morte e ressurreição gloriosa a terra toda, presente no corpo de Cristo, toma parte. Assim, há em Cristo uma nova criação e no final dos tempos todo o universo criado de alguma forma misteriosa participará do Reino definitivo de Deus, como nova criação.

A dimensão ética de que fala o Papa na Laudato si’ tem a ver com nossa responsabilidade para com os pobres e para com as futuras gerações. A devastação e a degradação da terra atingem em primeiro lugar os pobres, que terão cada vez menos acesso à água segura e à terra para cultivar. O grito dos pobres e o grito da terra, diz o Papa, é o mesmo grito. Quanto ao  futuro, a humanidade de hoje tem o dever moral de deixar para as futuras gerações, os filhos, netos e bisnetos, um planeta bom, saudável, viável e bonito. 

Por todos estes motivos, sobretudo porque a crise é grave e urgente, os nossos seminários sobre a Laudato si’ são importantes e querem dar uma contribuição concreta e decidida para a superação da crise. 
Cardeal Dom Cláudio Hummes