Por Osnilda Lima, fsp

Debaixo do santuário natural, uma infinidade de pés mangas que com seus troncos  formam pilastras e que com suas folhas amenizavam os raios do sol intenso, a pequena munduruku dormia o sono profundo, no chão, em cima de uma toalha aos pés da mãe atenta a cada palavra proferida na assembleia. As demais crianças brincantes corriam alvoroceiras. A juventude guerreira sempre aposta para servir. Com frequência preparavam o xibé para servir ao grupo. “Assim não dá fome nem sede”, disse a jovem munduruku Marineide, que servia a mistura de farinha de mandioca com água, o xibé, preparado pelo jovem guerreiro Eldo Manhuary. Os caciques e lideranças com frequência pediam a palavra para expressar suas preocupações frente aos grandes projetos na Bacia do Rio Tapajós. 
Assim, por três dias, estiveram em reunião 200 pessoas para juntos definirem uma agenda comum em defesa dos rios, da floresta e seus territórios. Participaram povos indígenas da Bacia do Tapajós: Munduruku, munduruku cara preta, arapiun, tupinambá, sateré-mawé, manoki, myky, apiaka, rikibaktsa, kayabi, arara vermelha, tupaiú, borari, juruna, beradeiros do Projeto Agroextrativista Montanha do Mangabal, comunidade de São Luiz do Tapajós, comunidade de São Francisco-Periquito, Movimento Tapajós Vivo, Franciscanos OFM, membros da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), Prelazia de Itaituba, Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e Comissão Pastoral da Terra/Prelazia de Itaituba (CPT),  nos dias 06 a 08 de outubro no Centro de Formação São José Laranjal, município de Itaituba, Estado do Pará, para discutir estratégias e resistência na Bacia do Tapajós e ampliar as alianças na Pan-Amazônia.
A encontro foi uma proposta do Eixo Povos Indígenas da Repam com o apoio da Prelazia de Itaituba e organizado pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI).
Ao redor do fogo, liderado pelo cacique Juarez Munduruku, o encontro se iniciou, ali os indígenas fizeram memória de seus antepassadas e a cultura que deles receberam e a história dos povos ali presentes. O Rio Tapajós também foi visitado. A assembleia seguiu por cerca de 10 minutos até chegar ao Rio Tapajós, neste local assumiram o compromisso de proteger o Rio. “O Rio é a nossa dispensa. Aqui buscamos nosso alimento, diário e fresco. Não podemos deixar que a mineração destrua e contamine nossas águas. Não queremos barragens, elas servirão a uns poucos”, disse a jovem liderança do povo Manoki, Tipuici Manoki, que ainda pediu fosse expressado o nome das lideranças indígenas assassinadas por defenderem a lutas dos povos indígenas. Em seguida, às margens do Tapajós fizeram a dança circular, o toré, de braços entrelaçados no compromisso de juntos em aliança defenderem a Bacia do Tapajós.
“Eu sou do Mato Grosso, de um Rio que forma o Juruena e os demais povos que viemos juntos, somos do Rio Teles Pires, Rio dos Peixes, do Rio Juruena, esses formam o Tapajós. E nós estamos sofrendo com as hidrelétricas. Para ser ter uma ideia, em torno da terra do meu povo, há estudos para construção de 11 usinas e pchs. No Rio Juruena são mais de 111 usinas.... todos nós, povos da Bacia do Tapajós estamos sofrendo a mesma violência”, descreve Tipuici, que diz ser de uma importância essa aliança para o fortalecimento de todos. Tipuici também denuncia que são realizados estudos para a construção das hidrelétricas na região se consultar e escutar o seu povo. “E se não nos ouvem, nós costumamos dizer que lutamos com a caneta, mas também se necessário for lutaremos com a borduna. Por isso estamos aqui crianças, jovens, mulheres e homens para juntos lutarmos. O Rio é um bem comum, porque vou deixar o parente lutar sozinho, vamos todos juntos unir as forças, ressaltou a jovem.

Agenda comum - Na conclusão do encontro as lideranças assumiram compromissos de ações conjuntas, dentre elas construir um protocolo dos Povos da Bacia do Tapajós e continuar na articulação dos povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e entidades parceiras que apoiam a causa, entre elas a Igreja Católica por meio Repam. Também decidiram criar uma Comissão com representantes indígenas, ribeirinhos e comunidades tradicionais de cinco regiões da Bacia do Tapajós: Alto, Médio, Baixo e Mato Grosso e Sateré-Mawé. 
Pediram à Igreja Católica “missionários comprometidos para ajudar na formação de novas lideranças indígenas e comunidades tradicionais e não somente priorizar a ‘catequização’. Convidaram a Igreja Católica à “uma presença diferenciada de acordo com cada realidade, que possa orientar os nossos caciques e lideranças e preparar a nossa juventude para lutar e defender os seus povos futuramente, para não serem enganados pelos governantes ou cooptados pelos grandes empreendimentos”. Na parceria com a Igreja Católica sugeriram um diálogo com as Igrejas Evangélicas para juntos possam defender os povos e a floresta que estão ameaçados na região. 
Em documento publicado afirmam: “Diante desse cenário de retrocessos dos nossos direitos, entendemos que apenas com a união e a coletividade dos Povos da Bacia do Tapajós e toda a Amazônia e com a presença solidária da Igreja como aliada, vamos continuar impedindo a destruição de nossos rios, matas e de toda vida existente no planeta terra. Por isso somos contra qualquer tipo de negociações que colocam em risco todos os direitos conquistados durante anos de lutas por aqueles que entregaram suas vidas para que a nossa pudesse existir. A mãe terra não se negocia, o direito a vida não se vende. 
Portanto, exigimos para toda a Bacia do Tapajós: A demarcação imediata dos Territórios Indígenas; A titulação e demarcação dos Projetos de Assentamentos da Reforma Agrária das comunidades ribeirinhas e tradicionais; A imediata paralisação dos grandes empreendimentos na Bacia do Tapajós. Nossa luta é uma luta só, e a nossa palavra é uma palavra só. Juntos continuaremos na defesa da vida dos Povos na Bacia do Tapajós!”.