Por Luis Miguel Modino - Repam-Brasil

 

Era uma visita esperada, preparada com carinho pela Igreja de Puerto Maldonado, pela Igreja da Pan-Amazônia, que entendia a data de 19 de janeiro como um momento histórico pelo que pode representar no futuro da região. Ninguém pode esquecer que o papa Francisco tem credibilidade, autoridade moral, que suas palavras são escutadas.

Por isso, podemos dizer que seu discurso aos povos indígenas vai se tornar algo histórico, uma referência que aponta luzes para o futuro, do mesmo modo que aconteceu com suas palavras aos movimentos sociais em Santa Cruz de la Sierra. O papa Francisco estava alegre, emocionado, se sentia em casa, ele desejava estar lá e fez questão de dizer que quis começar sua visita no Peru pela Amazônia.

Ele veio para escutar o grito da terra e dos mais pobres, para se solidarizar com os desafios dos povos e da Igreja da Amazônia. Uma atitude reconhecida e agradecida tanto pelo bispo de Puerto Maldonado, o dominicano dom David Martínez de Aguirre Guiné, como pelos indígenas que em nome de seus parentes, de todos os povos indígenas da Pan-Amazônia, disseram-lhe que a riqueza da região está em seus povos, gente que se sente orgulhoso daquilo que eles são, de sua língua, cultura e tradições, gente que quer viver unido, pois “se sentir sozinho é uma tristeza, mas se encontrar é uma alegria”, sublinhando assim um dos elementos que determina a vida dos indígenas, que é uma visão comunitária da existência.

Povos sobreviventes de muitas crueldades e injustiças, que continuam sofrendo, consequência da exploração descontrolada e irresponsável dos recursos naturais, que querem preservar sua cultura para que as gerações futuras não sofram e não sejam discriminadas, como hoje está acontecendo. Povos que assumem e fazem vida a Laudato Si, que hoje liam na frente do Papa em diferentes línguas originárias.

Os indígenas, vestidos com traje de festa, pediram o Papa que os defenda, que reze para que a Amazônia não perca sua identidade e agradeceram de coração que o Papa chegasse para os escutar. Mas eles também gritaram ao mundo, dizendo que temos que cuidar da natureza e proteger a terra para viver em harmonia, palavras que têm autoridade vindo de alguém de quem o próprio papa Francisco definiu como “memória viva da missão que Deus nos confiou a todos: cuidar da Casa Comum”.
 
O Discurso do papa Francisco mostra que ele conhece a realidade da Pan-Amazônia, que ele mesmo define como uma terra santa, onde devemos tirar as sandálias, e tem coragem em denunciar o que acontece, pois “nunca os povos originários amazônicos estiveram tão ameaçados nos seus territórios como o estão agora”. Ele fala abertamente que existem “certas políticas que promovem a «conservação» da natureza sem ter em conta o ser humano”, denuncia o “tráfico de pessoas: o trabalho escravo e o abuso sexual. A violência contra os adolescentes e contra as mulheres” e ainda mais, ele nos diz que “não nos façamos de distraídos! Há muita cumplicidade... A pergunta é para todos!”.

O bispo de Roma tem chegado na Amazônia e alçado sua voz como profeta, seguindo o exemplo “daqueles homens de fé”, que ao longo da história assumiram as causas dos últimos e que nos fazem ver que “esta profecia deve continuar presente na nossa Igreja, que nunca cessará de levantar a voz pelos descartados e os que sofrem”. Ele não tem medo de pedir “espaços institucionais de respeito, reconhecimento e diálogo com os povos nativos, assumindo e resgatando a cultura, a linguagem, as tradições, os direitos e a espiritualidade que lhes são próprios”, onde eles sejam “os principais interlocutores”, como “melhor caminho para transformar as velhas relações marcadas pela exclusão e a discriminação”.

Olhando a história, o papa Francisco agradece pelos “missionários e missionárias se comprometeram com os vossos povos e defenderam as vossas culturas!”, mas também desafia a quem hoje dá continuidade a essa missão para superar os medos que não nos deixam defender quem mais sofre, nos comprometermos com os povos da Amazônia e defender suas culturas, inspirados no Evangelho, sem desarraigar a fé católica, sendo conscientes que “cada cultura e cada cosmovisão que recebe o Evangelho enriquecem a Igreja com a visão duma nova faceta do rosto de Cristo”.

Obrigado papa Francisco, por nos animar mais uma vez a “plasmar uma Igreja com rosto amazônico e uma Igreja com rosto indígena”, uma Igreja que “não é alheia aos vossos problemas e à vossa vida, não quer ser estranha ao vosso modo de viver e de vos organizardes”, que fomenta o diálogo com todos, que está a caminho de um Sínodo para a Amazônia, que vai marcar novos e melhores caminhos na evangelização da Amazônia e seus povos, especialmente os povos indígenas.

A visita papal à Amazônia, seu discurso aos povos indígenas em Puerto Maldonado, nos mostra, acima de tudo, a necessidade de aprender a escutar, a olhar, a reconhecer que o mundo vai viver melhor na medida em que sejamos conscientes que “nós, que não habitamos nestas terras, precisamos da vossa sabedoria e dos vossos conhecimentos para podermos penetrar – sem o destruir – no tesouro que encerra esta região”.