Por Luis Miguel Modino – REPAM-Brasil

O anúncio do Evangelho deve responder à realidade local, como nos lembra o Papa Francisco em seu Magistério. Na Amazônia, a diversidade de povos, línguas, culturas e realidades, fazem que os desafios aumentem e que a missão se torne muitas vezes uma tarefa difícil. Nesse sentido, o protagonismo dos agentes locais cobra uma importância singular. Os leigos e leigas, religiosas e religiosos, e padres da região, que conhecem a realidade, tem em princípio maior facilidade para se adaptar à vida das comunidades e desenvolver um trabalho onde os frutos se tornem mais presentes.

A Diocese de São Gabriel da Cachoeira, na fronteira entre o Brasil, a Colômbia e a Venezuela, é a diocese com uma maior porcentagem de população indígena, superando o 90%. Com uma extensão de 293.000 quilômetros quadrados, nela habitam 23 povos indígenas que falam 18 línguas diferentes, três delas, tukano, baniwa e nheengatú, oficiais no município de São Gabriel da Cachoeira.

Neste último sábado, 17 de março, dom Edson Damian, o bispo local, ordenava o primeiro padre do povo baniwa, Geraldo Trindade Montenegro, conhecido como Geraldo Baniwa. Depois de sua formação no Seminário Interdiocesano de Manaus, realizou seu estágio pastoral na Paróquia Nossa Senhora da Assunção, que acompanha as comunidades do Rio Içana e Rio Ayarí, região próxima da fronteira com a Colômbia, onde ele nasceu, na comunidade de Araripirá Cachoeira.

O novo padre reconhece que “ser padre, receber o Sacramento da Ordem é se tornar presença de Jesus no mundo cotidiano”, insistindo em que o padre deve ser mais um na comunidade e não aquele que decide e manda. A partir de agora ele vai ser o pároco de sua paróquia de origem, no meio de seus parentes, onde quer ser presença plena de Deus, como reconhecia para eles no final de sua ordenação, acontecida na Casa dos Saberes da comunidade de Assunção do Içana.

Na celebração se fizeram presentes elementos da espiritualidade indígena, profundamente relacionada com o cristianismo, pois no meio dos povos indígenas, de suas culturas, a gente descobre claramente as sementes do Verbo. A ornamentação, as danças e pinturas rituais, mostraram essa ligação entre a mensagem do Evangelho e a vivência religiosa dos povos locais. Foi uma celebração carregada de emoção, nem só para o novo padre como para todos os presentes, representantes de comunidades distantes que não mediram esforços para acompanhar esse momento impar na vida do povo baniwa.

Um povo que está profundamente esperançoso diante do futuro que se apresenta, pois agora o padre é alguém que fala sua língua, que está identificado com sua cultura e que pretende inculturar o Evangelho numa realidade que sempre fez parte de sua vida e que ele mesmo considera muito importante. Muitos catequistas reconhecem que o fato de seu parente ser o novo pároco é um aspecto que vai ajudar decisivamente ao trabalho missionário no futuro.