Por Luis Miguel Modino


Cuidar da Casa Comum tem que nos levar a estarmos atentos aos sofrimentos e necessidades dos mais pobres, pois não podemos esquecer que eles são quem mais sofre as consequências da devastação ambiental. Dentro do pensamento cristão, o conceito de ecologia integral nos ajuda a dar esse passo e entender que o cuidado da criação implica a solidariedade com os excluídos.

Refletir sobre essa dimensão tem sido o objetivo do “Encontro de Ecologia Integral: Discípulos Missionários Guardiões da Criação”, celebrado em Quito, Equador, de 24 a 24 de novembro, onde umas 140 pessoas chegadas de diferentes países de América Latina, participaram do evento organizado pelo CELAM, DEJUSOL, CARITAS, REPAM, CLAR e a Rede Igrejas e Mineração.

Ninguém pode negar que estamos diante de um “momento transcendental para a humanidade e para a Mãe natureza”, como reconhece Mauricio López, Secretário Executivo da Rede Eclesial Pan-Amazónica (REPAM). Desde essa perspectiva, a Laudato Si, supõe um chamado, segundo López, a assumir essa Ecologia Integral “em todas as instâncias e espaços de nossa Igreja e seja um verdadeiro instrumento de todo nosso trabalho pastoral”.

O Encontro tem se desenvolvido partindo do método ver, julgar, agir, presente na reflexão teológico-pastoral da Igreja Latino-americana. O ponto de partida tem sido alguns trabalhos em grupo que têm estudado diferentes temáticas, que fazem referencia aos Direitos Humanos, as Mudanças Climáticas, o extrativismo, a interculturalidade, que têm ajudado a refletir sobre a situação que vive o continente e os povos que o habitam.

Assumir a Laudato Si é um chamado “a construir o Reino de Deus no meio de nós”, em palavras de Dom Pedro Barreto, arcebispo de Huancayo-Perú e vice-presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), “um chamado urgente a crentes e não crentes”, que faça realidade “uma conversão ecológica, que envolve todos os aspectos da vida dos seres humanos, para conviver de modo harmônico com os outros seres e espécies do Planeta”. Essa conversão só é possível na medida em que estejamos dispostos a “mudar para um estilo de vida sóbrio, de consumir só o necessário, de modo que não falte a quem não tem nada”.

Do mesmo modo que Medellín provocou uma mudança de mentalidade na Igreja latino-americana 50 anos atrás, esse novo paradigma de ecologia que a Igreja está propondo, supõe entrar nesse mesma dinâmica, para o que é preciso, segundo José Maria Vigil, “desenhar novos cursos de formação cristã e novos métodos de pastoral”, que nos levem necessariamente “numa mudança na visão do mundo e do ser humano, uma mudança de espiritualidade. Um mundo novo corresponde com uma nova visão, uma nova leitura”.

Partindo dessa realidade, o encontro, desde a perspectiva do julgar, tem acentuado a necessidade de uma ecologia cultural que nasce da sabedoria dos povos originários, sempre ligados com a dimensão espiritual e do cuidado. Um novo paradigma eco teológico, que brota de diversas intuições teológico-pastorais e que nos leva a encontrar chaves de leitura que surgem dessa ecologia integral.

Nesse sentido, como nos diz Mauricio López, “o elemento central de nossas propostas desde a REPAM, é buscar reconectarmos com o elemento histórico e profundo já existente. Tratando de encontrar sentido ao momento do kairós que estamos vivendo”. As reflexões que vão aparecendo nesse campo não inventam nada novo e sim resgatam aquilo já existente, pois como conta a tradição dos Maias em seu livro sagrado, Popol Vuh, “Tiraram nossos frutos, cortaram nossos ramos, queimaram nossos troncos, mas não puderam matar nossas raízes”.

Essas raízes estão presentes no Evangelho de Jesus, e têm sido assumidas pela Igreja da Amazônia, onde alem de luzes e sombras, encontramos mártires e pessoas que têm oferecido suas vidas em favor dos povos amazônicos e da mesma natureza. No meio deles está Dom Alejandro Labaka, cuja vida tem sido recolhida num documentário apresentado no Encontro, onde mostra a experiência da Fraternidade Capuchinha em chave de Ecologia Integral. Seu exemplo deve nos conduzir a viver uma Espiritualidade da Criação, da fraternidade, libertadora, da encarnação e do diálogo.

Desde essa perspectiva, Alfonso Murad, um dos referentes na reflexão eco teológica, fazia um chamado a descobrir que “fazer teologia é pensar a fé em relação com a realidade comunitária, pessoal, social, política, econômica... Não é simplesmente repetir a Bíblia ou a doutrina”.  

Por isso a eco teologia tem que nos levar a descobrir que “somos filhos e filhas da terra, em interdependência, responsáveis de que nosso planeta siga adiante”. Não podemos nos esquecer de uma das ideias chave da Laudato Si: “tudo está interligado em nossa Casa Comum”. Isso tem que nos levar a fazer realidade “uma sociedade justa, inclusiva e sustentável, com outros atores sociais, a cultivar a espiritualidade do Bem Viver”.

No encontro participou uma representação da Rede Eclesial da Bacia do Congo (REBAC), que inspirada na REPAM, pretende ser “um serviço especial da Igreja na evangelização e que ajuda os povos da Bacia do Congo a defender a natureza, as florestas, animais, a água e o conjunto do meio ambiente”, como afirmou o jesuíta Rigobert Minani, quem destaca a esperança que a Laudato Si tem trazido para muitas comunidades e pessoas de África.

Toda reflexão teórica se torna importante na medida em que isso se concretiza em ações. Desde essa dinâmica, o encontro propõe algumas iniciativas e pautas para fazer da Laudato Si um instrumento de vivência em diferentes níveis, desde o âmbito internacional ao pessoal, que gere uma toma de consciência sobre a importância desse modo de viver que o Papa Francisco oferece.

Se faz necessário que essa concretização da Ecologia Integral se torne uma realidade na Missão da Igreja na América Latina e, no caso da Pan-Amazonia, no Sínodo dos Bispos convocado recentemente e que vai acontecer em outubro de 2019, mas que já começou fazer parte da reflexão da Igreja da região.