Por Eliane Rocha  - Amazônia Real

 

Boa Vista (RR) – Ameaçados de deportações por várias vezes ou enfrentando preconceitos e xenofobia por causa da mendicância nos semáforos de Boa Vista, os índios Warao agora são apoiados pelos órgãos governamentais e instituições de ajuda humanitária para buscar meios de sobrevivência digna na capital de Roraima.

Dos imigrantes que cruzaram a fronteira de Santa Elena do Uairén para Pacaraima no último ano, 619 são índios venezuelanos Warao que se deslocaram das aldeias localizadas nos estados do Delta Amacuro, Monagas e Sucre, região do Delta do Orinoco, no norte da Venezuelana. Eles permaneceram em Roraima.

Em Boa Vista, 369 índios Warao moram no abrigo público Centro de Referência do Imigrante, localizado no bairro Pintolândia. No lugar, a maioria confecciona artesanato e fabrica redes com apoio da organização não governamental Fraternidade – Federação Humanitária Internacional.

De segunda à sexta-feira, um grupo com cerca de 40 mulheres se junta para fazer artesanato e redes no abrigo. Com um vestido amarelo, tecido que ela ganhou e costurou à mão, Alessandra Pérez, 32 anos, trocou a mendicância nas ruas de Boa Vista para se dedicar à confecção de redes.

 

“É melhor fazer artesanato. Não gosto de ir para rua. É muito perigoso”, diz Pérez.

 

Para Ramon Gomez, 32 anos, um dos líderes indígena, o incentivo à produção fortalece a cultura do povo Warao. “Nossa cultura não é ir para rua pedir”, acrescenta.

A produção do artesanato Warao é modesta. Aos poucos eles vão produzindo e vendendo no próprio abrigo. “Queremos dar a eles uma forma de subsistência no Brasil”, explica a coordenadora da missão humanitária Fraternidade, irmã Clara, assim se apresenta nas entrevistas.


“Eles já chegam no País com o hábito da mendicância. Eles entendem que pedir é um trabalho”, observa.

 

As mulheres que vendem mais artesanatos, segundo irmã Clara, são consideradas rainhas entre os Warao. “Na cultura deles, são as mulheres que saem com as crianças para pedir esmola”, completa a missionária.

O início do projeto, para compra de materiais, contou com ajuda do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) da ONU, da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e de pessoas que visitam o ginásio poliesportivo.

“Sempre pedimos doações de miçangas, linhas, tecidos, agulhas, tudo que eles utilizam para fazer o artesanato. Porque o que eles venderem, já teriam esse ganho total. Elas também têm sido orientadas a darem o preço justo da peça e guardarem uma parte do dinheiro do que venderem para comprar a matéria prima, porque o dia que não estiverem mais morando no abrigo elas vão saber como administrar, como gerir isso”, explica irmã Clara.

Atualmente, o artesanato das índias Warao é vendido aos domingos no Parque Anauá, área de lazer localizado na região central de Boa Vista.

 
Escola para indígenas

Fora da escola por não falarem a língua portuguesa, crianças e adolescentes do abrigo vêm recebendo aulas de português, espanhol e Warao em espaço improvisado dentro do ginásio poliesportivo. Os professores são os próprios líderes indígenas e voluntários.

Um dos professores é Ramon Gomez. Ele chegou a Boa Vista com a mulher e dois filhos – um de quatro e outro de dois anos – há dez meses. “Estou estudando português na UFRR [Universidade Federal de Roraima]. Quero fazer vestibular indígena”, conta.

A falta de cuidados com a saúde, culminou em surto de catapora em janeiro deste ano no abrigo. Houve também casos de sífilis, malária e outras doenças tropicais. Os voluntários das organizações Fraternidade e Acnur/ONU auxiliaram os índios nos curativos e nas atividades improvisadas com as crianças. São cerca de 20 pessoas trabalhando diariamente no abrigo. “A maioria nunca foi numa escola, nunca tomou vacina”, diz irmã Clara.

 
As adaptações nos abrigos

Um parecer técnico apresentado pelo antropólogo do Ministério Público Federal em Roraima, Eduardo Tarragô, sobre o acolhimento dos indígenas venezuelanos residentes em Roraima, prestação de segurança e assistência social, além de proteção à liberdade e locomoção constatou que os Warao estavam insatisfeitos no abrigo do Centro de Referência do Imigrante (CRI), localizado no bairro Pintolândia, periferia de Boa Vista.

Acostumados a viver na floresta, a tomar banho em rios, agora precisam entrar em filas para usar banheiros e tomar um banho de chuveiro.

Em setembro passado, quando a reportagem visitou o local, havia um pequena aglomeração de barracos de lona e pedaços de papelão do lado de fora do lugar. Os índios Warao não queriam se misturar com os venezuelanos não-índios.

“Há muitos conflitos entre os indígenas e não indígenas. Há casos de se declararem inimigos e o grupo intervém, fazemos reunião de conciliação”, explica irmã Clara.

Em relatório do Ministério Público Federal, relatos feitos pelos “Aidamo”, como são chamados os líderes Warao, os indígenas falam do motivo dos conflitos com não-índios. Constatou-se, inclusive, incidentes de ameaças e roubo de objetos pessoais. Esses acontecimentos influenciaram a algumas famílias abandonarem o abrigo e irem para Manaus.

O cacique Basílio Cardona Pérez, 48 anos, relatou os conflitos. “Muita briga, não queremos nos juntar aos outros grupos”, afirma.

Ele veio com a mulher e três filhos – mais cinco deles ficaram na Venezuela. “Vim buscar roupa, colocar as crianças para estudar. Quero trabalhar, limpar quintal”, conta, ao exibir feliz a blusa comprada a R$ 2 e a calça jeans a R$ 10, no Garimpeiro, feira popular na periferia da capital, que abre somente aos domingos.

Quem permanece no abrigo reclama da estrutura do local, que é muito quente, e os alimentos servidos não fazem parte do cardápio deles, que é “arepa”, composto por peixes e frutas. No CRI, eles contam, servem mais arroz e frango e a quantidade é pouca.

 

“Eles passaram dois meses comendo osso e arroz”, denuncia a coordenadora do Centro de Migrações e Direitos Humanos da Diocese de Roraima, Telma Lage.

 

E faz um apelo: “Eles precisam de um lugar digno, estrutura digna e alimentação digna. Até o café da manhã foi negado pela prefeitura”, desabafa sobre a gestão do município de Boa Vista.

Cerca de 90% das pessoas que estavam no abrigo eram homens não-índios. Agora, o abrigo aloja somente indígenas.

Os 495 imigrantes não-índios foram abrigados pelo governo de Roraima em um ginásio no bairro Tancredo Neves, em Boa Vista. Adultos e crianças chegaram a viver em barracas e debaixo de árvores em condições subumanas, ao lado da Rodoviária Internacional de Boa Vista José Amador de Oliveira.

 

Intercâmbio com outros povos

A irmã Clara explica que foi feito um intercâmbio com índios brasileiros com visitas às terras indígenas Raposa Serra do Sol e São Marcos. “Os Warao querem terra para viver”, diz.

Ela esclarece que há uma certa resistência dos índios brasileiros. “Eles têm medo de sofrer interferência da mendicância nas mulheres índias brasileiras.”

Para o Conselho Indígena de Roraima (CIR), a crise humanitária da imigração de índios venezuelanos é uma questão para ser resolvida pelos governos estadual e municipal. “Não adianta ter uma cidade toda florida se tem crianças no meio dessas flores passando fome. Não adianta ter uma cidade iluminada se tem crianças jogadas ao relento durante a noite. São seres humanos que foram expulsos do seu território, que viviam de benefícios do governo, que foi tomando suas terras, e quando a Venezuela entrou nesse colapso, os benefícios que sustentavam eles ali foram cortados e eles já não tinha terras para viver”, critica o coordenador geral do CIR, Enock Taurepang.

 

O desconhecimento

Na capital roraimense, a imigração venezuelana foi percebida no ano de 2014 com a presença de um pequeno grupo de índias Warao carregando filhos no colo e pedindo esmolas nos sinais de trânsito em Boa Vista. Vindas da região do Delta Orinoco, na Venezuela, elas já viviam nas ruas de seu país como pedintes porque foram expulsas de seus territórios, que já não ofereciam mais meio de sobrevivência.

Segundo a coordenadora do Centro de Migrações e Direitos Humanos da Diocese de Roraima, Telma Lage, a maior dificuldade dos Warao é com a cultura deles dentro do Brasil e citou como exemplo uma denúncia de que as índias eram agenciadas. “Não tem agenciador. Essas mulheres que praticam a mendicância foram filmadas entregando o valor para um homem, mas é porque a estrutura social deles é essa. O líder é o homem e é ele quem toma as decisões. É uma sociedade patriarcal e, às vezes, tem gente que entende isso como exploração, mas é a estrutura deles”, reforça.

Telma explicou que os Warao se comunicam por meio de um líder do grupo que fala espanhol, o que dificulta o diálogo. “A dificuldade com eles continua sendo o idioma. A gente depende do líder para ter um contato e não sabemos se o líder está dizendo realmente o que a pessoa está falando ou o que ele quer”, diz.

O Centro de Migrações ajuda os índios e não-índios venezuelanos dando assistência na regularização dos migrantes. Eles fazem encaminhamento à Polícia Federal, onde tem um grupo de voluntários para preencher o formulário de solicitação de refúgio; também são quem fazem as fotos para documentação. Essa ação conta com parcerias da Acnur, Instituto de Migrações e Direitos Humanos, Pastoral Universitária, serviço Jesuíta de Migrante e UFRR.

Os imigrantes também ganham cesta básica – os alimentos são frutos de campanhas e projetos que o centro vem fazendo para arrecadar alimentos. “Hoje só temos arroz. Estamos doando 15 quilos”, diz Telma. Cerca de 600 famílias venezuelanas estão cadastradas.

O centro ainda ajuda com encaminhamentos de saúde e educação. “Quando alguém tem problema de saúde, quando a pessoa chega dizendo que não quiseram matricular o filho na escola fazemos encaminhamento para DPU [Defensoria Pública da União], que é parceira, assim como para o MPF [Ministério Público Federal e MPT [Ministério Público do Trabalho]. A gente usa essa rede de parceiros”, explica Telma.

Ela critica a morosidade do governo estadual e a ausência do município de Boa Vista nas ações de enfrentamento à crise humanitária que abate a capital roraimense. “A sociedade civil tem buscado fazer sua parte, tem corrido atrás. Mas os governos, a morosidade predomina, muitas vezes há falta de vontade política”, avalia.

Telma disse que, em julho, ficou decidido que o estado teria que contratar uma equipe para gerenciar o abrigo. O seletivo foi lançado só em meados de outubro.  “É muito demorado o processo”, acrescenta ao dizer que, mesmo assim, “o governo do estado ainda se mexe, ainda conseguimos fazer algo juntos”.

O mesmo, disse a coordenadora, acontece com o município. “Não tem nenhuma ação conjunta. Eles ficam inacessíveis para nós. E para situação emergente, a gente precisa de resposta de emergência. E não temos”, desabafa Telma Lage.

A Prefeitura de Boa Vista informa em seu site oficial que promove diversas ações de amparo aos venezuelanos nas áreas da educação e saúde, com o levantamento e cadastramento junto aos programas sociais. “Além disso, é estudado junto ao governo federal a criação de abrigos para atender aos migrantes”, diz o município. A prefeita Teresa Surita (PMDB) anunciou, em agosto do ano passado, a instalação de um ponto de recepção dos imigrantes e reforma do abrigo em Pacaraima, entre outras medidas. No entanto, essas medidas não foram realizadas até o momento pela prefeita.

O governo federal repassou ao Estado de Roraima R$ 480 mil para serem utilizados na assistência aos imigrantes venezuelanos. Segundo a Secretaria Estadual e Bem-Estar Social (Setrabes), o recurso foi para alimentação, entrega de gás de cozinha e contratação de duas equipes técnicas – compostas por psicólogos, assistente social, antropólogo e agentes sócios-instrutores. Eles trabalham nos abrigos provisórios em Boa Vista e Pacaraima.

De acordo com o governo de Roraima, com o recurso federal 200 pessoas foram atendidas, mas a demanda já estava alta pois o número de abrigados já estava em 570 imigrantes.

No final do ano passado, o governo estadual decretou situação de emergência social devido ao grande número de venezuelanos entrando pela fronteira. Segundo nota enviada pela assessoria, “o decreto de emergência atende a uma solicitação do governo federal para subsidiar o envio de recursos ao Estado para atendimento aos venezuelanos em situação de vulnerabilidade social”.

 

Tragédia humanitária

Fora de seu país, os indígenas Warao vêm sofrendo preconceito e xenofobia por parte de brasileiros que ainda não sabem como lidar com a migração. Cidades como Santarém e Belém, no Pará, estão recebendo os imigrantes venezuelanos. “A situação dos refugiados é uma das maiores tragédias humanitárias do planeta”, avalia a missionária irmã Clara.

“Você sair do seu lugar, é um outro costume e a pessoa não te aceita. O exercício que eu faço é me colocar no lugar do outro”, analisa ao dizer que o Brasil não sabe lidar com refugiados. “Um refugiado não traz somente problema, traz grandes possibilidades”, defende irmã Clara.

Ela trabalha na Fraternidade como missionária há cinco anos, sendo que desde 2016 em Roraima. Já esteve em missões na África, Turquia, Guatemala, Paraguai, Argentina, Chile, Uruguai. No Brasil, trabalhou após o desastre da barragem em Mariana, Minas Gerais, e no sertão de Alagoas. Ela acredita que a grande mudança sobre o olhar da crise humanitária de imigrantes venezuelanos no Brasil pode estar nas mãos da juventude.

“A grande revolução vem do jovem. Eles já não agridem os venezuelanos. Se conseguirmos envolver a juventude de Roraima podemos mudar essa situação”, diz irmã Clara.