Porto Velho (RO), 26 de junho de 2016

 

Carta Compromisso do Regional Norte 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

 

Dialogando com o apelo do Papa Francisco, na Laudato Si’, para o cuidado da Casa Comum, a Rede Eclesial Panamazônica – REPAM, idealizou uma série de Seminários na Amazônia Legal para dar eco ao chamado do Papa à conversão ecológica, em vista da fraternidade universal. O segundo destes seminários aconteceu na cidade de Porto Velho/RO, nos dias 24, 25 e 26 de junho, no auditório da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus (Catedral), reunindo 104 representantes das Dioceses e Prelazia do Regional Noroeste da CNBB.

Nós, bispos, presbíteros, religiosos/as, leigos/as, seminaristas, representantes das dioceses que compõem o Regional Noroeste da CNBB, reunidos, assessorados pela Rede Eclesial Panamazônica (REPAM), partilhamos o conhecimento da realidade da nossa região através de 5 oficinas:

  1. Povos e comunidades tradicionais;
  2. Questão migratória, tráfico humano e área de fronteira;
  3. Questão agrária e violência no campo;
  4. Cidades – desafios e perspectivas;
  5. Grandes projetos: questão ambiental – mudanças climáticas.

Estudamos a Carta Encíclica Laudato Si’, grande referência da missão da REPAM e instrumento que contribui na leitura da realidade, segundo o princípio do Evangelho da Criação. Tendo presente o conhecimento da REPAM, seus desafios e perspectivas, em como a iluminação da Encíclica, socializamos, a seguir, três critérios para um novo agir:

 

  1. Somos Amazônia, interligados na “casa comum”, na terra sem males!

Compreendemos que o aumento da violência, da injustiça socioambiental, da criminalização dos movimentos sociais e dos pobres não são fenômenos isolados, mas frutos de um sistema de exploração de nossos territórios, de nossas vidas e dos bens comuns.

Também nós estamos interligados na denúncia das violações e na resistência. Na Igreja vivemos em redes de comunidades, onde se renova a cada dia a pertença, a solidariedade e o compromisso em favor das vítimas dessas agressões.

     2.  Alternativas para o desenvolvimento: não ao domínio do capital!

Consideramos que esse modelo de desenvolvimento não gera a vida plena que Deus sonha para a Criação, pois está fundado na acumulação, na exclusão, na indiferença para com a vida dos outros e do planeta. A Igreja tem a missão profética de denunciar a cultura do individualismo, do consumismo, do progresso ilimitado, do mercado sem regras. Busca e anuncia um novo modelo, a partir de nossos estilos de vida comunitária e dos compromissos que assumimos nessa carta.

3. Há esperança em nossas ações e compromissos cotidianos!

Contemplamos a vida cotidiana e os tantos projetos da Igreja e da Sociedade civil de nosso Regional, a dignidade dos povos da floresta e das águas, camponeses, quilombolas, extrativistas, ribeirinhos, pequenos agricultores, indígenas e das comunidades urbanas que nos ensinam uma relação de respeito, equilíbrio e harmonia com o meio ambiente. Há muitos sinais de esperança e empenho que já estão traduzindo o ensinamento de Papa Francisco em nossos territórios. É importante apoiá-los e reforçá-los, pois Deus nos chama a anunciar o Evangelho e a aprofundar nossa espiritualidade numa radical conversão ecológica.

Como consequência de todas as discussões, à luz da Laudato Si’, dos documentos da Igreja na Amazônia, dos gritos do XII Intereclesial das CEBS, assumimos os seguintes compromissos:

- Realização de seminários, organizados pelas dioceses, sobre desafios e perspectivas a partir da Laudato Si’, em diálogo com as experiências pastorais das comunidades;

- Facilitação do acesso a subsídios para encontros nos grupos, na catequese e nas comunidades, como meios de multiplicação deste seminário na Igreja Local;

- Estudo com profundidade da legislação ambiental para assessorar a REPAM e o Regional Noroeste neste tema;

- Investimento na união das pastorais, movimentos e serviços a partir da conversão ecológica e da lógica da casa comum, usando a metodologia do trabalho em rede;

- Avaliação de como a política, no seu compromisso com a construção do bem viver, pode contribuir para um desenvolvimento que respeite a terra sem males;

- Aprofundamento e a ampliação do diálogo com os pobres do campo, da floresta e centros urbanos, considerando a divulgação de experiências positivas já em curso em nosso regional, para empoeirá-los nas suas lutas;

- Maior visibilidade a essa realidade de fronteiras internas e internacionais nessa região que representa um grande desafio à Igreja e à Sociedade, marcada pelas migrações internas, ultra regionais e transfronteiriças, pelos deslocamentos forçados, pelo trânsito de refugiados, no contexto vulnerável ao tráfico humano e ao trabalho escravo;

- Criação e fortalecimento das ações que visam acesso à soberania, à segurança alimentar e à agua limpa, com respeito à biodiversidade amazônica, contrapondo-se aos projetos de desenvolvimento hídrico e energético;

- Denúncias proféticas das injustiças cobrando dos poderes constituídos ações que inibam a violência no campo, na cidade e na floresta, repudiando os massacres, genocídios e a criminalização de lideranças;

-Intensificação do diálogo com os povos e comunidades tradicionais, em vista de exigir que seus direitos sejam assegurados e efetivados;

-Visibilidade e fortalecimento das experiências de bem viver em harmonia com a casa comum;

- Apoio e formação de leigos missionários na Amazônia;

- Fortalecimento das CEBs no campo e nas cidades em suas realidades, nos aspectos: social, político, ambiental, econômico, cultural e religioso, para aprofundar a evangelização libertadora;

- Criação da equipe regional da REPAM como elo de ligação entre dioceses, regional, nacional, para trabalhar as temáticas da Amazônia e que a REPAM, como rede das redes, se torne uma referência de informação e integração;

Tendo presente que a conversão ecológica nos renova na consciência de guardiões e guardiães da obra de Deus, como parte essencial da experiência cristã (cf. LS, 194) nos comprometemos com as propostas supracitadas. Assumimos nossa responsabilidade na construção da fraternidade universal (cf. LS, 228), confiando-nos à especial proteção de “Maria que cuidou de Jesus e agora cuida com carinho e preocupação materna deste mundo ferido” (LS, 241).