Manaus - AM, 31 de julho de 2016

 

Carta Compromisso: do jeito de ser na nossa Casa Comum

 

Assim como as águas de muitos rios, lagos e igarapés amazônicos afluem em nossa direção, assim também a Igreja de Manaus acolheu, nos dias 29, 30 e 31 de julho de 2016, na Maromba, representantes das Igrejas do Alto Solimões, Tefé, Coari, Manaus, Borba, Itacoatiara, Parintins, São Gabriel da Cachoeira e Roraima para celebrar o Seminário Laudato Si’ e REPAM.

Reafirmamos neste espaço nosso Nhandereko-há, que na língua Nheengatu, ou língua geral amazônica, significa identidade étnica ou “jeito de ser na nossa casa”. Mostra-nos um modo de ser, não capitalista, no qual a floresta tem um valor não comercial.  Significa o lócus da organização social e política, lugar da produção e transmissão do conhecimento próprio dos povos que não pode ser reduzido a um lugar, mas encontra-se em todos os lugares da floresta. Para nós, amazônidas, a floresta não é propriedade. É lugar e espaço vivencial; não é terreno nem gleba. É lócus e território vivenciado, sentido e imaginado. É o lugar da agroecologia e do extrativismo de subsistência, da pesca, da festa, dos jogos, das danças. É a partir dessa visão que podemos vivenciar melhor o discipulado-missionário.

Seguindo o dinamismo das águas, das florestas e das cidades, o encontro se realizou de maneira criativa, participativa, celebrativa e propositiva. Assim sendo, para além do grupo, da data e do local oficial da reunião, muitas atividades em torno do mesmo tema foram sendo realizadas nas semanas anteriores em muitos bairros, comunidades eclesiais, grupos de pastoral, escolas e organizações populares. Vários grupos almejam realizar a celebração e planejar ações de caráter socioambiental no período posterior ao encontro.

Outra significativa preparação ao Seminário foram os questionários respondidos pelos participantes e sintetizados anteriormente. Assim foi possível ter uma noção mais atualizada das realidades existentes em nossos contextos referentes a: “meio” ambiente, questões indígenas/ribeirinhos, comunidades tradicionais, migração e tráfico humano, dentre outros.

Assim como o Amazonas não se detém em Manaus, mas segue seu curso para irrigar nossas áreas existenciais, e além de continuar recebendo novas águas rio a cima e rio abaixo, também nós queremos que o conhecimento e a prática de Laudato Si’ continuem a ser portadores de vida e cuidado com a Amazônia, que é um punhado importante da Casa Comum.

Nos círculos financeiros nacionais e internacionais, a Amazônia é vista como “lugar de exploração” dos recursos existentes por poderosos grupos econômicos transnacionais. No país, é o lugar da expansão energética, através da construção de mega-hidroelétricas para geração de energia, dita “limpa e renovável”, mas que causam terrível destruição de nossa biodiversidade e dos territórios tradicionais de nossos povos. A vida dos povos e florestas está ameaçada pela mudança na legislação ambiental, pela possibilidade de aprovação da PEC 215 e PL1610 e pelo ataque aos direitos humanos e sociais, duramente conquistados. O atual governo faz parte de uma grande ofensiva neoliberal que deseja intensificar a superexploração de nossas riquezas naturais, ampliar as áreas para os monocultivos, transformar serviços públicos, como saúde e educação, em grandes negócios a serem privatizados, aumentar a idade para aposentadoria e fazer retroagir os direitos dos trabalhadores. É nesse contexto que prosseguem as agressões e destruições às nossas terras, rios e comunidades humanas.

A Igreja e a sociedade de Manaus, que acolheram o seminário, foram convidadas a participar da sua abertura na noite do dia 29, na Igreja e na praça de São Sebastião, no Centro histórico da cidade, quando celebramos Laudato Si’ na Eucaristia e nas apresentações culturais amazônicas.

Tanto nas respostas aos questionários vindas das dioceses, prelazias, pastorais, instituições e participantes, quanto nas rodas de conversa, presenciamos, dentre outros, os seguintes clamores: um modelo de desenvolvimento que gera desigualdades, injustiça social e ambiental. Grandes áreas são dedicadas à monocultura que agride a biodiversidade. Ainda ocorrem a extração ilegal de madeira e garimpos e a poluição de nossos rios e lagoas. Continuam a grilagem de terras, a especulação imobiliária, o desmatamento, a destruição dos igarapés em áreas urbanas, a deterioração da qualidade de vida na cidade, a aceleração dos ritmos de vida, de trabalho e de uso do bem comum, a cultura do descarte, a poluição e os efeitos das mudanças climáticas. Constatam-se muitos preconceitos e discriminações aos povos indígenas e comunidades tradicionais, a invasão de seus territórios, inclusive de povos “isolados”, e a omissão governamental diante das muitas demandas de demarcação. Existe exploração sexual de crianças e adolescentes, tráfico de pessoas e violências causadas pelo tráfico de drogas, assim como a destruição de nossas famílias e comunidades.

Diante dessas correntezas, corredeiras, banzeiros, rebojos, balseiros, norteados pelos princípios do direito, da justiça socioambiental e do respeito à diversidade cultural, nós nos organizamos como Rede Eclesial e assumimos os seguintes compromissos em vista da defesa e cuidado com a vida, integrando e somando forças às organizações e iniciativas existentes:

  1. Multiplicar nas dioceses e prelazias, em articulação com as redes existentes, as aprendizagens realizadas no Seminário, utilizando materiais apresentados e produzir outros, inclusive em línguas indígenas, realizando seminários de educação socioambiental.
  2. Divulgar os resultados do Seminário em escolas, catequese, meios de comunicação, movimentos sociais e celebrações. Utilizar melhor os meios de comunicação e as atividades pastorais para divulgação da Laudato Si’.
  3. Mapear/levantar os grupos, redes e organizações que possam fortalecer a articulação em defesa da vida urbana e rural na Amazônia.
  4. Fortalecer a presença solidária da Igreja Católica nas comunidades, ampliando espaços de convivência e troca de conhecimentos, bem como a ação missionária junto aos Povos Indígenas para inclusão de seus saberes e suas práticas em nossa evangelização.
  5. Valorizar e utilizar os ricos elementos e significados das artes, músicas e diversas expressões das culturas amazônicas na evangelização em nossas comunidades, pastorais e em nossos compromissos socioambientais.
  6. Fortalecer as pastorais e organismos que atuam na área dos Direitos Humanos, principalmente com respeito à migração e ao enfrentamento ao tráfico de pessoas.
  7. Envolver-se em lutas por políticas públicas socioambientais como forma de ampliar as parcerias e o trabalho em rede.  Priorizar a luta pelo Plano de Saneamento Básico.
  8. Formação:
  • Socializar e produzir materiais para serem usados nos espaços de atuação da Igreja sobre as contribuições dos povos indígenas e comunidades tradicionais para o cuidado da Casa Comum e de toda a humanidade, destacando a garantia dos seus territórios.
  • Manter a constância das temáticas na educação contínua, formal e informal, fomentando a questão do ambiente dentro das instituições públicas e privadas.
  • Sensibilizar para o questionamento das estruturas do poder público utilizando-se dos conselhos locais: paróquias, áreas missionárias.

 

Saímos do seminário mais conscientes de que tudo está interligado “como se fossemos um”: a natureza, o ser humano e o Criador. Por isso, o trabalho em rede nos fortalece na esperança. E bem sabemos que “se nós cuidarmos da Terra, a Terra cuida de nós”. Rogamos ao Deus da vida, a Nossa Senhora da Amazônia e aos muitos mártires do Reino da vida que nos fortaleçam no discernimento e na atitude comprometida de cuidarmos da natureza e das muitas comunidades humanas presentes na Amazônia, “fonte de vida no coração da Igreja”.