A guerreira do Xingu

Antônia Melo da Silva, do Movimento Xingu Vivo para Sempre é uma militante defensora da vida e dos direitos dos povos da floresta e da biodiversidade amazônica 

 

Por Karla Maria e Osnilda Lima, fsp

 

Ela é forte, seu olhar comunica a verdade, a luta. Quando fala transmite a resistência e a esperança de um povo, dos povos da Amazônia, que são atropelados por projetos desenvolvimentistas que mais trazem dor, desespero e morte do que o aclamado “desenvolvimento”. 
Essa é Antônia Melo da Silva, uma militante defensora da vida, membro do Movimento Xingu Vivo para Sempre, um coletivo de organizações e movimentos sociais e ambientalistas da região de Altamira e das áreas de influência do projeto da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, que historicamente se opuseram à sua instalação no rio Xingu. 
Filha dos cearenses Eliza e Gentil de Melo, dois religiosos de fé e ética inabalável, “mocinha”, como era carinhosamente chamada pelos pais e seus sete irmãos, nasceu no Piauí, mas cresceu em Altamira. Ali amou, iniciou seus estudos, gerou cinco filhos e acolheu tantos outros pela estrada.
Em Altamira é chamada de guerreira e não por acaso. Quem cruza seu caminho, sua história, é tocado por uma força e uma empatia que transpõem os inúmeros obstáculos que a vida na Amazônia apresenta. Foi assim desde pequena. A vida na cidade nunca foi fácil, mas os pais sabiam da importância, da necessidade de os filhos estudarem, tanto que recorreram a dom Clemente Geiger, então bispo do Xingu, para conseguirem uma vaga para Antônia estudar no internato do Instituto Maria de Mattias, que homenageia as primeiras Irmãs Adoradoras do Sangue de Cristo que chegaram a Altamira em 1937.
Antônia permaneceu no Instituto de 1958 a 1967, quando completou 18 anos e decidiu voltar à zona rural para dar aula. Gostava de ensinar, de partilhar o conhecimento. Casou-se em 1970 e dez anos depois, contrariando a normalidade de seu tempo, voltou a estudar para concluir o magistério, graduando-se em 1983.
Ela mesma conta que sua militância e consciência do papel de cristã e cidadã começou a partir da vivência com as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), baseada na Teologia da Libertação que inspira a caminhada das CEBs e motiva o cristão a viver de modo solidário à dor e à luta do próximo, especialmente dos mais vulneráveis. 


A morte nos braços - Em 1987 viu morrer em seus braços, baleado, o filho de alguém cujo nome desconhecia. Era um jovem, vítima da violência em Altamira, uma realidade no sudoeste do Pará que parece só piorar; 30 anos depois, o município se destaca no Atlas da Violência 2017 do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) como a primeira entre as cidades com mais de 100 mil habitantes no quesito homicídios e mortes violentas sem causas determinadas.
Sobre a realidade daquele ano, seu compadre, o bispo do Xingu, dom Erwin Krautler, conta: “Com o garoto morto nos braços, Antônia Melo se abala até as entranhas. Uma profunda indignação, uma indizível revolta a invade. Que mundo injusto e assassino é esse! E é neste momento que jura lutar, enquanto Deus lhe der fôlego, contra a violência e a injustiça, contra as estruturas desumanas de um sistema iníquo que, em vez de promover vida, gera morte”.
Dali em diante, Antônia estava decidida a viver em busca de igualdade e justiça, no combate à violência daqueles que elegem os mais vulneráveis como o foco de seus ataques em detrimento do poder, do lucro, da terra. Em 1989, Antônia fundou um grupo de mulheres, o "Comitê em Defesa das Crianças e Adolescentes de Altamira", que passou a denunciar a omissão do poder Judiciário e a degradação dos direitos humanos na região.
Lutava e chorava ao lado das mães que perdiam seus filhos. Confiava na força transformadora das mulheres, tanto que em 1991 fundou o "Movimento das Mulheres do Campo e da Cidade". Em 1994 tornou-se a primeira conselheira do Conselho Tutelar de Altamira, permanecendo nesta função até 2000. 
“Em Altamira nunca houve alguém que assumiu com tanta garra, dia e noite, correndo até risco de vida, este "ministério da defesa" da infância e adolescência desvalida. Considero Melo a candidata inquestionável e imbatível para todos os prêmios que o mundo outorga a pessoas engajadas pelos Direitos Humanos”, escreveu dom Erwin Krautler.


Bandeiras em favor da vida - Nos anos seguintes, organizou a luta das mulheres nos Movimentos Sobrevivência na Transamazônica e Desenvolvimento Amazônia e Xingu. “Lutávamos por políticas públicas, por direitos após a abertura da Transamazônica, quando o governo jogou aqui milhares de famílias de todos os estados deste país e nos virou as costas. Então, quem não morreu de malária, de doenças e desastres, teve de se organizar, se juntar para lutar por políticas públicas e direitos para essa região”, explica Antônia.
Essas bandeiras se juntaram às bandeiras dos povos indígenas em 2008 e assim nasceu o Movimento Viva Xingu para Sempre, um grande movimento em defesa do rio, dos povos, da natureza e da vida. “Em 2008, os kaipós, os índios da bacia do Xingu, do Mato Grosso, nos convidaram a realizar um grande encontro para chamar o governo Lula e reafirmar a posição dos indígenas de que eles não queriam uma barragem no seu rio, no seu território”, conta Antônia.
O grande evento aconteceu. Imprensa, indígenas, ambientalistas, lideranças de movimentos e pastorais sociais se reuniram para fazer pressão ao governo Lula, mas de nada adiantou, já que as obras da usina hidrelétrica de Belo Monte foram iniciadas mesmo debaixo de muitos protestos e denúncias do Ministério Público Federal.
A Usina Hidrelétrica de Belo Monte foi a principal obra do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) e, desde os Estudos de Impacto Ambiental (EIA) para a construção da usina, o movimento denuncia a dimensão dos impactos econômicos e sociais que causariam à população de Altamira, indígena ou não, que de modo desorganizado chegou a receber quase cem mil pessoas desde o começo das obras. 
“Nós tínhamos a esperança de que ele [Lula] não fosse construir a barragem, que ouvisse a comunidade, que respeitasse os povos indígenas, que respeitasse as leis, mas isso não aconteceu”, lamenta Antônia, revelando a tática do governo para enfraquecer a mobilização contrária às obras de Belo Monte.
“Não conseguimos [barrar as obras] porque o governo se utilizou de propagandas falsas e um grande poder econômico, cooptando e dividindo as lideranças indígenas. Logo depois investiram em dividir as lideranças sociais que eram muito fortes nessa região”, denuncia Antônia.
A militante lamenta, mas não desiste, e no intervalo de mais um encontro de formação e união de forças realizado entre os povos da Amazônia falou da articulação do Movimento Xingu Vive para Sempre. 
“Somos um movimento além-fronteiras e continuamos lutando contra esse modelo de destruição e morte. Com essa grande articulação em nível nacional e internacional ganhamos a comunicação e denunciamos os crimes, a destruição que Belo Monte fez aqui nessa região, na Amazônia e no planeta’.
Para Antônia, “Belo Monte foi feita para a corrupção, para a destruição de vidas, para o roubo do dinheiro público, para a violação dos direitos humanos no Xingu”, denuncia.


A ameaça só muda de nome - A militante acredita que só a organização popular é capaz de barrar projetos e decisões que não sejam de prioridade das populações locais, e essa organização mais uma vez é exigida, já que a mineradora canadense Belo Sun já iniciou trabalhos na região.
Em fevereiro de 2017, sem consulta popular, a Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) do governo do Pará concedeu uma licença de instalação para a empresa canadense Belo Sun extrair ouro por 12 anos no município de Senador José Porfírio, na região do Xingu.  
A empresa já possuía Licença Prévia (LP) aprovada pelo Conselho Estadual de Meio Ambiente (Coema) e expedida pela Semas em 2014. Em abril, o Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região suspendeu a licença da Belo Sun, atendendo a um pedido do Ministério Público Federal (MPF), após o desembargador Jirar Meguerir entender que a empresa não apresentou estudos de licenciamento ambiental que levassem em consideração as comunidades indígenas da região, entre Altamira e Senador José Porfírio.
“Neste momento, a instalação da mineradora canadense está suspenso tanto por uma ação da Justiça do estado do Pará quanto por uma ação do Ministério Público Federal. Se essa empresa se instalar aqui na Volta Grande, no Rio Xingu, será uma morte total, não só para o Xingu, para os povos, mas para toda a Amazônia e todo o planeta”, alerta Antônia.
Para a militante, a instalação de uma mineradora na região de Altamira é um atentado contra a vida, contra a soberania do Brasil. “Se isso acontecer, os governos estadual, federal e municipais dessa região serão os criminosos ao lado do Judiciário brasileiro e nós não vamos poupá-los, eles terão de responder por esses prejuízos se voltarem atrás e autorizarem a instalação e a construção desse empreendimento de morte chamado Belo Sun”.


O modo de viver na Floresta - Antônia ensinou e aprendeu com os povos da Amazônia a valorizar os frutos da terra, os peixes do rio, a gente que sorri e juntas produzem de maneira solidária, e lamenta que os governos não tenham respeito pela sabedoria dos povos tradicionais e pelas leis, já que não consultam as populações para a implantação dos projetos que visam ao desenvolvimento da região.
“Nós da Amazônia não somos escutados, eles [governo e empresas] fazem muitas reuniões dizendo que vão ouvir a população. Eles ouvem, mas não escutam. Escutar é respeitar os modos de vida, as falas, as reivindicações, a vida e os direitos das populações. E nós sabemos o que é desenvolvimento com respeito à natureza”.
Antônia lembra que todos os projetos implantados na Amazônia pelas corporações com anuência e o apoio dos governos e do Judiciário não têm trazido desenvolvimento e melhoria de condições de vida para a população, ao contrário.
“O que Belo Monte deixou para as mulheres? Deixou um adoecimento profundo, esses são projetos de morte. O governo não cuida desse povo, estraçalha a vida desse povo”, conclui a mulher que já foi colo pra tantos doentes da região e que em grupos trabalha a questão da sustentabilidade das mulheres, do cuidado de si e do meio ambiente. 

 

A mão de Francisco – A nova encíclica do papa Francisco, Laudato Si, “Louvado seja”, é um convite a todos os cristãos homens e mulheres a refletir sobre o meio ambiente e a pensar nos diversos males que os homens têm causado ao planeta Terra em virtude da ação descontrolada da atividade humana, em busca do poder e do progresso econômico.
Para Antônia essa encíclica vem para somar forças na luta contra a deterioração global do ambiente. “A Laudato Si só vem somar a luta do Xingu Vive para Sempre, só vem fortalecer, e tenho a certeza de que a nossa luta vai ficar grandiosa nesse convencimento e compromisso no cuidado com o meio ambiente. Estou muito contente e nada é por acaso”, pontua.
Com ternura, o papa Francisco se dirige a cada pessoa que habita neste planeta e faz um apelo sobre o urgente desafio de proteger a “casa comum” e inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral. Antônia também. 
Assim como Francisco, a mocinha de Altamira, à exemplo de seus pais, defende a vida, o meio ambiente e se fortalece com a mística das CEBs e da força da natureza, daquele rio Xingu, de uma Teologia que não se curva para a escravidão em nenhuma forma. “Todos os dias acordo com um compromisso de vida, de cristã. O que tenho que fazer é espalhar isso às pessoas que trabalham comigo no Movimento Xingu Vive para Sempre, o compromisso de lutar pela vida, pela felicidade e isto está junto à natureza”, ensina e inspira Antônia. 
Para ela, que não tem medo de enfrentar e denunciar, a força vem da convicção de que o que está fazendo é o certo: o caminho da fraternidade, da humanidade, da vida, dos direitos humanos, do respeito.
Hoje, Antônia Melo é conhecida não apenas na região do Xingu e no Brasil, é admirada em todo o mundo pela firmeza das palavras que desafiam os poderes político e financeiro com a sabedoria do povo e a verdade da lei que neste país ainda defende os direitos dos povos tradicionais da Amazônia. Ao menos na lei.
Pelo trabalho que desenvolve, pela luta incansável que tem em defesa do Xingu contra os projetos que atropelam a vida que brota daquele leito, Antônia Melo recebeu em 2013 o prêmio João Canuto de Direitos Humanos. Antônia vive bravamente com a força e a leveza que só as mulheres conseguem imprimir em seus dias nem sempre fáceis.