4º Fórum Internacional da Amazônia destaca justiça climática e o papel da comunicação popular nos territórios

Realizado na UnB, o evento reuniu lideranças sociais, acadêmicas e governamentais e abriu espaço para experiências de comunicação comunitária rumo à COP30. Realizado entre os dias 10 e 13 de junho na Universidade de Brasília (UnB), o 4º Fórum Internacional da Amazônia reuniu lideranças sociais, acadêmicas, governamentais e representantes de países pan-amazônicos em uma ampla programação voltada à justiça climática, proteção dos territórios e valorização dos saberes tradicionais. Com a presença de povos extrativistas, quilombolas, indígenas, ribeirinhos, pesquisadores e ativistas, o Fórum foi um espaço de escuta e articulação entre diferentes setores comprometidos com a defesa da Amazônia e dos povos que nela vivem. Ao longo da semana, o evento promoveu debates, oficinas, apresentações culturais e rodas de conversa com temas como transição ecológica, segurança alimentar, educação, juventude, direitos territoriais e enfrentamento à crise climática. Uma feira com produtos da Amazônia também integrou a programação. Comunicação popular como ferramenta de justiça climática No dia 12 de junho, o 4º Fórum Internacional sobre a Amazônia contou com a roda de conversa “COP30 e Amazônia: Comunicação Popular, Justiça Climática e Proteção dos Territórios”, reunindo comunicadores de diferentes regiões, territórios e trajetórias de luta. Participaram da roda Nathalia Purificação (CONAQ), Elisa Estronioli (MAB), Marcos Wesley (Tapajós de Fato / Comitê COP30), Letícia Leite (Vem de Áudio / Escola de Rádio e Clima) e Erisvan Guajajara (Coletivo Mídia Indígena). A atividade foi promovida pela Mobilização COP30, articulada pela REPAM-Brasil, e faz parte de um esforço coletivo de escuta, articulação e fortalecimento dos territórios rumo à Conferência do Clima da ONU, que será realizada em 2025, em Belém do Pará. Durante a conversa, os participantes compartilharam experiências e estratégias que colocam a comunicação como ferramenta de denúncia, memória, formação política e mobilização popular. “Elisa Estronioli, do Movimento dos Atingidos por Barragens, destacou que ‘a comunicação, pra nós, é parte da estratégia do movimento. Ela precisa estar nas mãos da militância, ser uma ferramenta viva de organização e denúncia das violações que os territórios sofrem’.” Letícia Leite, da Escola de Rádio e Clima da UnB, ressaltou o valor dos espaços de formação que valorizam a prática e o aprendizado coletivo: “A gente precisa criar espaços de comunicação onde o erro não seja um problema, onde a gente possa simplesmente se juntar pra falar do que é importante pra nossa cultura — e aprender fazendo.” Na mesma direção, Nathalia Purificação, da CONAQ, afirmou: “Fortalecer a comunicação popular é fortalecer os territórios. A gente precisa se reconhecer como parte de um ecossistema de presença — um sistema vivo, diverso, que se comunica no seu tempo, no seu idioma, com sua força ancestral.” Marcos Wesley, do Tapajós de Fato e do Comitê COP30, trouxe uma crítica à forma como o poder público tem comunicado a COP30: “A COP30 não pode ser só uma vitrine de turismo e negócios. O real debate climático tem que vir dos territórios, das periferias, das comunidades impactadas — e a comunicação popular tem o papel de levar essas vozes até onde as decisões são tomadas.” Já Erisvan Guajajara, do Coletivo Mídia Indígena, apontou que comunicar é, também, um direito coletivo dos povos: “A gente comunica o tempo todo. A comunicação é um direito dos povos indígenas e um instrumento de luta. Estamos organizando uma rede de comunicadores indígenas para atuar de forma coletiva e estratégica, com foco na defesa dos territórios.” Na oficina, a Cartilha ABC das COPs — iniciativa da Articulação da REPAM rumo à COP30 — também teve destaque como um material acessível e didático para abordar os temas da agenda climática com comunidades e territórios. A proposta da Cartilha é democratizar o acesso à informação, levando para além das salas de reunião os debates sobre clima, para que cheguem diretamente às populações indígenas, tradicionais e periféricas. “A Cartilha nasceu do compromisso de traduzir uma linguagem técnica em algo que possa ser vivido e discutido nos territórios. É uma ferramenta feita para que mais pessoas se reconheçam no debate climático e participem ativamente da construção de soluções.” — Natália Mitie, REPAM-Brasil A roda evidenciou que o fortalecimento das vozes da base — com suas linguagens, contextos e práticas próprias — é condição fundamental para uma justiça climática que, de fato, reconheça e valorize os povos e territórios da Amazônia.