“Carta de Demandas: Vozes do Território da Amazônia para COP30” é lançada com apelo por justiça climática enraizada.

Documento reúne vozes de quase mil lideranças da Amazônia Legal e apresenta propostas concretas para enfrentar a crise climática a partir da proteção dos modos de vida tradicionais e da sociobiodiversidade Belém (PA), 24 de julho de 2025 — Em 2025, pela primeira vez, o Brasil sediará a Conferência das Partes (COP30), o evento climático mais importante do mundo. A COP é o espaço onde governos, cientistas e sociedade civil se reúnem para discutir soluções globais para a crise climática. No entanto, as vozes dos territórios mais impactados pela destruição ambiental seguem sendo marginalizadas desses debates. Foi para mudar essa lógica que nasceu a Mobilização dos Povos pela Terra e pelo Clima, uma articulação da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM-Brasil), que busca garantir participação ativa de povos da floresta, movimentos sociais e comunidades tradicionais antes, durante e depois da COP30 — fortalecendo sua incidência a partir dos próprios territórios. Escuta territorial e incidência concreta Como parte dessa mobilização, 18 rodas de conversa foram realizadas em cinco estados da Amazônia Legal — Pará, Tocantins, Maranhão, Mato Grosso e Roraima — reunindo 964 participantes, com ampla maioria de mulheres lideranças (72,5%). Os encontros aconteceram em localidades como Santarém, Ananindeua, Afuá, Marabá, Paulino Neves, Araguaína, Bacabal, Cuiabá, entre outras. Dessas escutas coletivas nasceu a Carta de Demandas: Vozes do Território da Amazônia para a COP30, entregue ao enviado especial da COP30, pela ONU, Joaquim Belo e que será apresentada como contribuição às Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) do Brasil. Segundo Irmã Irene Lopes, secretária executiva da REPAM-Brasil, a iniciativa tem como foco a democratização do debate climático: “A cartilha ‘ABC das COPs’ foi o ponto de partida das rodas de conversa. Ela explica o que é a conferência do clima da ONU e por que a COP30 é tão importante. Essa agenda costuma ficar restrita a salas de reunião e a grupos privilegiados. Com as rodas, tiramos essa discussão desses espaços e levamos para quem mais sente os efeitos da crise: as comunidades ribeirinhas, indígenas, quilombolas, pescadoras e extrativistas. A carta nasce dessa escuta real e enraizada.” A Cartilha ABC das COPs está disponível em português, inglês e espanhol, já ultrapassou 3.500 downloads e teve 8 mil cópias impressas distribuídas em diversas comunidades da Amazônia. A força das rodas de conversa nos territórios A metodologia das rodas de conversa, realizada em cinco estados da Amazônia Legal, foi o coração do processo de escuta popular que deu origem à Carta de Demandas. Ao todo, foram 18 encontros em comunidades urbanas, rurais, ribeirinhas e quilombolas do Pará, Tocantins, Maranhão, Roraima e Mato Grosso — com destaque para cidades e municípios como Santarém, Ananindeua, Marabá, Paulino Neves, Araguaína, Bacabal, Afuá, Cuiabá e diversos outros. Um dos momentos marcantes foi a roda de conversa, no Quilombo Catucá, em 4 de junho, na zona rural da Diocese de Bacabal (MA). Mobilizada pelas mulheres do território, em parceria com a irmã Alessandra e com apoio da REPAM-Brasil, a roda de conversa foi realizada em articulação com a Escola Quilombola Catucá. O encontro fortaleceu o protagonismo das mulheres negras na luta pelo bem viver e reuniu partilhas profundas sobre os efeitos das mudanças climáticas, a escassez de água e as dificuldades enfrentadas no cultivo de hortaliças afetadas pelo calor extremo. Durante a atividade, Arlete Gomes, coordenadora de projetos da REPAM, acompanhou as mulheres quilombolas em visitas aos quintais produtivos da comunidade: “Foi emocionante ver como essas mulheres resistem todos os dias às mudanças do clima. Elas plantam, colhem, cuidam da terra, mesmo com o calor castigando as hortas e a água ficando mais escassa. É desse chão, desses corpos-territórios, que surgem as propostas mais potentes para a COP30.” Arlete Gomes – Coordenadora de Projetos da REPAM-Brasil Arlete destaca que a legitimidade da carta está enraizada nesse processo: “Toda a comunidade participou: crianças, jovens, anciões, donas de casa, produtoras. As cartas foram escritas à mão, desenhadas. Elas são o espelho dos territórios mais distantes da Amazônia. Recebemos muitas falas dizendo: ‘a carta me representa’. Isso mostra que a escuta foi real.” Para ela, o método foi mais que um instrumento de consulta — foi também um gesto político de devolução de voz: “As rodas permitiram capilarizar o debate climático e integrar os povos da floresta à agenda global com afeto, sabedoria e incidência concreta.” Justiça climática começa onde a floresta vive O documento denuncia que as mudanças climáticas já afetam profundamente a vida nas comunidades: doenças respiratórias causadas pela fumaça das queimadas, escassez de alimentos, secas severas, contaminação de rios e avanço de doenças infecciosas são apenas alguns exemplos. A carta também alerta para os impactos das grandes obras de infraestrutura, como a construção e ampliação de rodovias federais (como a BR-319 e BR-163), que têm colocado em risco comunidades inteiras e acelerado o desmatamento. O avanço de empreendimentos sem consulta prévia às comunidades viola direitos constitucionais e amplia a vulnerabilidade de povos tradicionais diante da crise climática. Propostas prioritárias da Carta de Demandas Entre os principais pontos do documento estão: Compromisso com o território A escolha de Joaquim Belo para receber a carta carrega um simbolismo profundo. Líder extrativista com longa trajetória na defesa das comunidades tradicionais da Amazônia, ele atua hoje como secretário de Formação e Comunicação do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), organização que presidiu por três mandatos. Ao longo dos anos, tem participado ativamente de conselhos e comitês voltados à proteção ambiental e ao desenvolvimento sustentável. Sua presença como enviado especial da COP30 representa não apenas uma missão institucional, mas também o compromisso de alguém que vem do próprio território e entende, na pele, o que está em jogo. Ao receber a carta, Joaquim destacou o valor da solidariedade aprendida com a floresta, com os rios e com quem sempre cuidou desse ambiente: “Foi nesse chão que aprendi o que é ser solidário — com a natureza, com o povo, com a vida. A carta expressa isso com força: o valor da floresta, da biodiversidade e de quem cuida. A gente sente isso na pele. Essa floresta