Dom Erwin lança livro sobre profecia e missão da Igreja na Amazônia

A noite deste domingo (9), em Belém (PA), foi marcada por emoção, memória e compromisso com a vida na Amazônia. O lançamento do livro A Igreja Profética e a Amazônia, de Dom Erwin Kräutler, reuniu dezenas de pessoas na sede da CNBB Norte 2, em um sarau promovido pelo Regional e REPAM-Brasil. O evento integrou a programação das atividades da Rede que antecedem a COP 30 e celebram a presença da Igreja junto aos povos e territórios amazônicos. A celebração começou em clima de alegria e gratidão. O livro, que reúne reflexões e palestras do bispo emérito do Xingu, foi apresentado como “o retrato de uma caminhada feita de fé, coragem e compromisso”. Durante as homenagens, a pesquisadora Ima Vieira destacou o reencontro com Dom Erwin na preparação e depois nas atividades do Sínodo Especial para a Amazônia. Para ela, o novo livro reafirma a força profética e o olhar atento do bispo às causas que unem fé, justiça e ecologia integral. O procurador da República, Felício Pontes, fez memória das ações de Dom Erwin no estado do Pará e do enfrentamento missionário em tempos de ditadura militar. “Ele foi um dos faróis da resistência, uma voz firme em defesa dos direitos humanos e dos povos da floresta”, afirmou. Já o bispo prelado do Marajó, Dom Ionilton Lisboa, destacou a presença profética e fraterna de Dom Erwin “na e para a Igreja da Amazônia”, recordando sua capacidade de unir espiritualidade e compromisso social em favor da vida. Ao tomar a palavra, Dom Erwin Kräutler contou que o livro é fruto de muitos pedidos vindos do Regional Norte 2, para que ele sistematizasse algumas das palestras e falas realizadas ao longo dos anos. Em tom sereno e afetuoso, compartilhou algumas histórias que inspiram o conteúdo da obra, entre elas, o relato de uma árvore cortada para abrir uma estrada, fato celebrado por autoridades como “o início do desenvolvimento”. “Aquilo me marcou profundamente, porque ali começava também a destruição de um modo de vida e de uma relação sagrada com a natureza”, lembrou. O momento final foi de celebração e reconhecimento. A religiosa Irmã Ivoneide Viana de Queiroz apresentou o “Prêmio Dom Erwin Krautler”, recebido em Salzburg, na Áustria, por sua tese de doutorado sobre a presença da vida religiosa na Amazônia. O prêmio é concedido a pesquisas que dialogam com a trajetória e a missão do bispo. Após as falas, Dom Erwin recebeu os convidados em uma sessão de autógrafos, acompanhada de uma apresentação cultural e de um coquetel. Entre abraços e partilhas, o sarau reafirmou a vitalidade de uma Igreja que segue acreditando na força da profecia e na esperança que brota da Amazônia.
Circuito Pan-Amazônico celebra saberes e sabores da Amazônia

Feira do Bem-Viver e celebração de abertura marcaram o início das atividades da REPAM-Brasil na COP30 O domingo (9/11) foi de partilha, espiritualidade e trocas de conhecimento na sede da CNBB Norte 2, em Belém (PA), durante o Circuito Pan-Amazônico de Saberes e Sabores da Amazônia, promovido pela REPAM-Brasil. As atividades reuniram representantes de comunidades tradicionais, movimentos sociais, instituições parceiras e organizações da Igreja para um dia de integração em torno da Casa Comum, da economia solidária e do cuidado com os territórios. A programação começou com a celebração de acolhida e abertura. O momento, guiado pelo tema “Escuta: voz da terra, voz dos povos”, convidou os participantes a ouvir, de forma profunda, as dores e esperanças da Amazônia, em sintonia com o espírito da COP30, que será realizada em Belém nos próximos dias. Leituras, cantos e orações coletivas trouxeram à tona a mensagem de que “a escuta é o primeiro passo da transformação”. Ao final da celebração, Arlete Gomes, da equipe da REPAM-Brasil, destacou a importância desse espaço de diálogo e valorização das mulheres nos territórios. “Trazer essas mulheres para esse cenário de debate é fazer uma nova economia possível. Que essa feira seja uma troca de experiências e de grande conhecimento entre os biomas que convergem na nossa Amazônia brasileira. Temos aqui o Cerrado, o Pantanal e a Amazônia com suas cores diferenciadas. Aproveitem muito”, convidou. Ainda durante a manhã, teve início a Feira do Bem-Viver, espaço de partilha de produtos da agricultura familiar, da economia solidária e de saberes tradicionais dos diversos biomas brasileiros, como o Cerrado, o Pantanal e a própria Amazônia. Biojoias, ervas medicinais, artesanatos, sementes e alimentos agroecológicos chamaram a atenção dos visitantes e simbolizaram a diversidade e a força das mulheres e comunidades produtoras. À tarde, a programação seguiu com exibição de documentário sobre gestão comunitária da água, produzido por pela REPAM-Colômbia. De acordo com Juan Felipe Martinez, secretário da Rede na Colômbia, neste ano, toda a REPAM adotou a água como um elemento central para a incidência e a comunicação. “No contexto da campanha pela água e pelos direitos das comunidades, lançamos um documentário, como REPAM Colômbia, para mostrar que a água não é apenas um bem comum ou um recurso, mas algo que está integrado à vida das comunidades, aos seus direitos, às suas formas de ser, de estar e de agir no território”, destacou Juan. Segundo Matinez, o documentário mostra que o pulsar da água na Amazônia é uma luta pela própria vida no território. “Por isso, apresentamos aqui três experiências de trabalho e exibimos este importante documentário, que pode ser encontrado no YouTube da REPAM”, concluiu. As atividades da REPAM-Brasil na COP30 seguem nesta segunda-feira (10/11), com escuta das lideranças dos territórios e movimentos sobre desafios e das boas práticas comunitárias na resposta à crise climática e com a contextualização sobre a importância, desafios e atuação da REPAM na COP30 e Cúpula dos Povos.
REPAM-Brasil e lideranças amazônicas visitam barcos-hospitais na acolhida da COP30

Em Belém, a visita aos barcos Papa Francisco e São João XXIII evidenciou o compromisso da Igreja com o cuidado integral e a presença junto aos povos da Amazônia Na tarde deste sábado (9), a REPAM-Brasil e lideranças de comunidades amazônicas visitaram os barcos-hospitais Papa Francisco e São João XXIII, ancorados em Belém (PA). A atividade fez parte da acolhida das delegações que participam das mobilizações populares e eclesiais que antecedem a 30ª Conferência das Partes da Convenção da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30). Durante a visita, o frei Ezequiel Salvático, da Fraternidade São Francisco na Providência de Deus, destacou o significado dos barcos como expressão concreta da presença da Igreja nas margens e do cuidado com a vida. “Esses barcos são um sinal de esperança. Representam a alegria, a saúde e, acima de tudo, o amor de Deus que chega até cada pessoa ribeirinha, quilombola e indígena”, afirmou o religioso. “O nosso carisma é servir com empatia, levando o Evangelho através do cuidado, com consciência e qualidade, um apelo a sermos uma Igreja em saída, sinal de fé e gratidão”, completou o Frei, destacando a missão do instituto religioso. Os barcos-hospitais realizam atendimentos médicos e cirúrgicos gratuitos, alcançando comunidades que vivem em áreas isoladas da Amazônia. Segundo Frei Ezequiel, a atual expedição tem atendido uma média de 300 a 400 pessoas por dia, com especial destaque para as áreas de oftalmologia, odontologia e clínica médica. “Entre pequenas e grandes cirurgias, conseguimos operar cerca de 35 a 40 pessoas por dia. Cada gesto de cuidado é também um gesto de evangelização”, completou. A estrutura das embarcações é mantida por meio de parcerias com o Sistema Único de Saúde (SUS), congregações religiosas e uma ampla rede de voluntários e voluntárias. Atualmente, mais de 8 mil profissionais da saúde estão cadastrados para atuar nas missões, muitos deles oriundos de hospitais parceiros, bem como médicos e profissionais de saúde que se voluntariam para as expedições. Frei Ezequiel recorda que essa rede cresce por meio da solidariedade: “Cada médico que vem traz outros, e assim a missão se multiplica”. Além do atendimento médico, o trabalho das equipes inclui ações educativas, acompanhamento social e espiritual e distribuição de medicamentos. O barco Papa Francisco, inaugurado em 2019, foi o primeiro da frota. Em 2020, foi a vez do barco João Paulo II chegar para a missão. E em 2024, foi lançado o barco São João XXIII, ampliando a capacidade de atendimento e a presença missionária nas comunidades. Para a irmã Maria Irene Lopes, secretária executiva da REPAM-Brasil, a visita representa um gesto simbólico e profético neste tempo de preparação para a COP30. “Estar aqui é reconhecer que o cuidado com a vida humana e o cuidado com a Casa Comum caminham juntos. Esses barcos são o rosto da Amazônia que resiste, cura e anuncia a esperança. A Igreja que aqui se faz presente é a mesma que clama por justiça climática e por políticas que garantam dignidade aos povos e territórios”, afirmou a religiosa.
ONU destaca papel da cooperação global em discurso na Cúpula de Líderes em Belém

Nesta sexta-feira (7), durante a Cúpula de Líderes em Belém, o Secretário Executivo de Mudanças Climáticas da ONU, Simon Stiell, reforçou a importância da cooperação internacional e do financiamento climático para acelerar a transição energética e garantir justiça climática. O evento, intitulado “10 anos do Acordo de Paris: Contribuições e Financiamento Nacionalmente Determinados”, celebrou uma década de avanços desde o marco histórico que mudou a trajetória da crise climática global. Em sua fala, Stiell destacou que, graças à coragem coletiva iniciada em 2015, o planeta evitou um cenário catastrófico de aquecimento de até 5°C. “A curva se curvou abaixo de 3°C — ainda perigoso, mas prova de que a cooperação climática funciona”, afirmou o secretário. Ele também ressaltou o avanço da revolução da energia limpa, com mais de US$ 2 trilhões investidos em 2024, o dobro do destinado aos combustíveis fósseis, e 90% da nova capacidade energética mundial sendo de fontes renováveis. Para o dirigente, planos climáticos sólidos e financiamento adequado são as chaves para impulsionar o crescimento verde e a resiliência das nações, especialmente as mais vulneráveis. “As finanças são o grande acelerador. Cada dólar investido em soluções climáticas traz múltiplos dividendos: empregos, ar limpo, saúde, segurança alimentar e energética.” A realização do evento em Belém reforça o papel simbólico e estratégico da Amazônia no centro das discussões climáticas globais, a poucos dias da COP30, que acontecerá na mesma cidade.
REPAM divulga programação oficial na COP30

A REPAM-Brasil compartilha com alegria a sua programação oficial na COP30, que acontecerá em Belém (PA), entre os dias 7 e 20 de novembro. As atividades da REPAM integram a Cúpula dos Povos e o Tapiri Ecumênico e Inter-religioso, com o propósito de dar visibilidade às vozes dos povos amazônicos e fortalecer o compromisso com a ecologia integral, justiça climática e defesa da vida. A programação reúne rodas de diálogo, seminários, oficinas, feiras, celebrações e intervenções culturais, que refletem a diversidade e a espiritualidade dos povos da floresta, das águas e das cidades amazônicas. Destaques Confira a programação completa [aqui] Acompanhe as atualizações pelas redes da REPAM e participe conosco deste caminho de fé, esperança e compromisso pela Casa Comum.
Ahé Kawahiba: a resistência Karipuna que chega à COP30

No coração de Rondônia, onde o verde da floresta se mistura ao barulho das motosserras, nasceu Ahé Kawahiba, nome tradicional de Adriano Karipuna. Aos 39 anos, ele é uma das principais vozes do povo Karipuna, um dos mais ameaçados da Amazônia. Filho de Abagaju e Katica Karipuna, cresceu em meio à luta pela sobrevivência de seu território, um espaço ancestral que vem sendo invadido por grileiros e madeireiros há décadas. “Eu nasci dentro da floresta e vi ela mudar. Vi árvores sendo cortadas, vi gente entrando onde não devia. O que me move é a vontade de garantir que os meus filhos ainda tenham onde viver”, diz Ahé, com a serenidade de quem aprendeu a resistir sem perder a esperança. Formado em Direito pela Universidade Federal de Rondônia, ele transformou o conhecimento jurídico em ferramenta de defesa. Foi tesoureiro da Associação dos Indígenas Karipuna-Abytucu-Apoika e hoje preside o Instituto Etno-Ambiental Tangarei Naripuna (Eitka). Sua atuação vai além das fronteiras da aldeia: articula-se com organizações nacionais e participa da Articulação Agro é Fogo, que reúne mais de vinte coletivos e movimentos na defesa de territórios ameaçados por queimadas e expansão agropecuária. O trabalho de Ahé é acompanhado e fortalecido pela Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), uma articulação da Igreja Católica que há mais de uma década apoia povos e comunidades tradicionais na Amazônia. A REPAM promove formação, assessoria jurídica e visibilidade internacional a lideranças como a de Ahé, garantindo que as vozes indígenas não fiquem restritas aos limites da floresta. “A REPAM nos dá estrutura para chegar mais longe, para mostrar que o que acontece aqui afeta o mundo todo. A gente não quer só ser lembrado quando a floresta pega fogo. Queremos ser ouvidos enquanto ainda há tempo”, afirma. Na COP30, que será realizada em Belém, Ahé leva mais do que denúncias: leva histórias, rostos e memórias de um território que insiste em viver. Ele acredita que a presença indígena no debate climático é fundamental. “Estar na COP é levar o grito da Amazônia pro mundo. É dizer que estamos vivos e resistindo”, resume. Enquanto prepara a viagem, Ahé carrega consigo um propósito simples e inegociável: garantir que a floresta continue de pé, não apenas como um símbolo ecológico, mas como casa, sustento e identidade de um povo inteiro.