No coração de Rondônia, onde o verde da floresta se mistura ao barulho das motosserras, nasceu Ahé Kawahiba, nome tradicional de Adriano Karipuna. Aos 39 anos, ele é uma das principais vozes do povo Karipuna, um dos mais ameaçados da Amazônia. Filho de Abagaju e Katica Karipuna, cresceu em meio à luta pela sobrevivência de seu território, um espaço ancestral que vem sendo invadido por grileiros e madeireiros há décadas.
“Eu nasci dentro da floresta e vi ela mudar. Vi árvores sendo cortadas, vi gente entrando onde não devia. O que me move é a vontade de garantir que os meus filhos ainda tenham onde viver”, diz Ahé, com a serenidade de quem aprendeu a resistir sem perder a esperança.
Formado em Direito pela Universidade Federal de Rondônia, ele transformou o conhecimento jurídico em ferramenta de defesa. Foi tesoureiro da Associação dos Indígenas Karipuna-Abytucu-Apoika e hoje preside o Instituto Etno-Ambiental Tangarei Naripuna (Eitka). Sua atuação vai além das fronteiras da aldeia: articula-se com organizações nacionais e participa da Articulação Agro é Fogo, que reúne mais de vinte coletivos e movimentos na defesa de territórios ameaçados por queimadas e expansão agropecuária.
O trabalho de Ahé é acompanhado e fortalecido pela Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), uma articulação da Igreja Católica que há mais de uma década apoia povos e comunidades tradicionais na Amazônia. A REPAM promove formação, assessoria jurídica e visibilidade internacional a lideranças como a de Ahé, garantindo que as vozes indígenas não fiquem restritas aos limites da floresta.
“A REPAM nos dá estrutura para chegar mais longe, para mostrar que o que acontece aqui afeta o mundo todo. A gente não quer só ser lembrado quando a floresta pega fogo. Queremos ser ouvidos enquanto ainda há tempo”, afirma.
Na COP30, que será realizada em Belém, Ahé leva mais do que denúncias: leva histórias, rostos e memórias de um território que insiste em viver. Ele acredita que a presença indígena no debate climático é fundamental. “Estar na COP é levar o grito da Amazônia pro mundo. É dizer que estamos vivos e resistindo”, resume.
Enquanto prepara a viagem, Ahé carrega consigo um propósito simples e inegociável: garantir que a floresta continue de pé, não apenas como um símbolo ecológico, mas como casa, sustento e identidade de um povo inteiro.