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Neste domingo, a Cúpula dos Povos encerrou sua intensa programação na COP30 com mística, entrega de declarações e o anúncio de compromissos que reafirmam a centralidade dos povos da Amazônia e da sociedade civil na luta global pelo clima.
Depois de dias de trocas, plenárias, marchas, articulações e poderosas experiências espirituais, as delegações se reuniram pela última vez para celebrar uma caminhada coletiva que marcou a história do processo rumo à COP30.

A manhã começou com uma animação mística conduzida por lideranças espirituais e comunitárias, abrindo os caminhos para a leitura das cartas construídas a partir da escuta de povos indígenas, comunidades tradicionais, juventudes, crianças e organizações de toda a Pan-Amazônia e do mundo.

Presidente da COP30: “Que esta seja lembrada como a COP da virada”

Em tom emocionado, o presidente da COP30 destacou o papel determinante da sociedade civil na construção do evento:

“O Brasil está organizando uma COP única — e grande parte disso se deve à sociedade civil tão ativa nesta Cúpula. O presidente Lula queria uma COP especial, capaz de mostrar ao mundo que a sociedade civil tem influência. Saber que essa voz está viva em Belém é sensacional. Registrarei esse trabalho na reunião de alto nível e espero que a COP30 seja lembrada como a COP da virada.”

Ministra dos Povos Indígenas: “Democracia é participação — e nossa presença aqui transforma a COP”

A Ministra dos Povos Indígenas celebrou a maior presença indígena já registrada em uma COP, denunciou a assimetria histórica e reforçou o papel dos povos originários:

“Estamos vivendo a maior participação indígena da história das COPs. Em Dubai éramos 350, contra sete lobistas do petróleo e da mineração para cada indígena. Aqui, na Amazônia, já somos 900 — e ainda precisamos avançar mais. A COP não pode seguir excludente. A Amazônia tem gente, tem vida, tem guardiões que nos protegem. Viemos reafirmar que queremos uma COP inclusiva e democrática, construída com os povos para proteger o presente e o futuro que já está ameaçado.”

Mensagem do Presidente Lula: “Esta é a COP da verdade”

A Ministra do Meio Ambiente leu a mensagem enviada pelo Presidente Lula ao encerramento da Cúpula dos Povos:

“A COP30 não seria viável sem vocês. Esta extraordinária concentração de pessoas que acreditam que um outro mundo é possível é o coração desta conferência. Esta é a COP da verdade — e a urgência expressa pela sociedade civil está alinhada com a ciência. Não podemos sair de Belém sem decisões sobre transição justa, florestas e financiamento climático. Cada árvore da Amazônia guarda uma vida: um homem, uma mulher, uma criança.”

Em sua fala pessoal, a ministra resgatou memórias de sua infância no Pará e reforçou que democracia, ciência e verdade são pilares inegociáveis:

“Só na democracia uma seringueira, um operário, uma indígena podem chegar onde chegamos. Não há como dizer não à ciência, à verdade. Estamos vivendo emergência climática. Precisamos zerar o desmatamento, zerar as emissões e abandonar os combustíveis fósseis.”

Guilherme Boulos: “A COP da verdade exige dizer quem destruiu o planeta”

O deputado federal Guilherme Boulos trouxe um recado direto às grandes corporações:

“Não basta derrotar o negacionismo climático. É preciso colocar os pingos nos is: quem encheu nossa atmosfera de carbono, poluiu rios e desmatou florestas foram grandes corporações e multinacionais. Agora é a vez deles fazerem sua parte. O Brasil já tem uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo. O presidente Lula foi firme ao cobrar quem gasta trilhões com guerra, mas não investe metade disso na transição energética.”

Cartas entregues na plenária final fortalecem a voz dos territórios

O encerramento foi marcado pela entrega de importantes documentos construídos de forma participativa:

Carta dos Povos à Presidência da COP30

Construída ao longo de mais de dois anos de processo, a Declaração da Cúpula dos Povos reúne contribuições de 70 mil pessoas de diversos territórios e lutas.
O documento denuncia:
• o papel central do capitalismo e das corporações na crise climática;
• o racismo ambiental e a violência contra povos e territórios;
• o fracasso do multilateralismo atual;
• a captura dos Estados por interesses privados;
• a necessidade urgente de desmantelar falsas soluções de mercado.

E apresenta propostas estruturantes, como:
• transição energética justa e popular;
• demarcação de terras indígenas;
• combate ao racismo ambiental;
• proteção de defensoras e defensores;
• reforma agrária popular e agroecologia;
• desmilitarização e fim das guerras;
• financiamento público e taxação de super-ricos e corporações;
• mecanismos internacionais vinculantes para responsabilizar empresas transnacionais.

O documento afirma:

“Não há vida sem natureza. Não há vida sem cuidado. É tempo de unificar nossas forças e enfrentar o inimigo comum. Se a organização é forte, a luta é forte.”

Carta das Infâncias: “Queremos viver num mundo bonito — agora!”

Em uma das mais emocionantes participações, crianças e adolescentes apresentaram a Carta das Infâncias, elaborada a partir de diálogos, oficinas, desenhos e escutas sensíveis.
O texto denuncia o calor extremo, a falta de sombra nas escolas, queimadas, rios poluídos e adoecimento infantil.

As crianças afirmam:

“Não queremos crescer num mundo destruído. Queremos que o planeta seja cuidado como se fosse uma criança: vivo, precisando de atenção.”

Entre as propostas:
• plantar mais árvores em todos os lugares;
• parar o desmatamento e as queimadas;
• limpar rios e mares;
• fortalecer educação ambiental;
• garantir participação real de crianças e adolescentes nas decisões políticas.

E concluem:

“Não temos cargos nem dinheiro, mas temos o futuro — e o presente. Cuidem do nosso planeta agora. Queremos continuar vivos.”

A Cúpula dos Povos encerra suas atividades deixando um recado contundente à COP30: não há solução climática sem justiça, sem participação social e sem o protagonismo dos povos que há séculos cuidam da Amazônia e dos territórios da vida.

Os dias em Belém mostraram que espiritualidade, luta, ciência, memória e futuro caminham juntos quando os povos se encontram para defender a Casa Comum.

A REPAM segue comprometida em amplificar essas vozes e fortalecer os caminhos de justiça socioambiental que emergiram desta grande construção coletiva.

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