Nos últimos décênios, o conceito de dívida ecológica emergiu como uma chave essencial para entender as injustiças ambientais globais. Tradicionalmente associado às dificuldades financeiras dos países em desenvolvimento frente às economias industrializadas, este conceito agora reconhece um aspecto crucial: os países mais industrializados não apenas emitiram a maior parte dos gases de efeito estufa, contribuindo significativamente para o aquecimento global, mas também prosperaram à custa da exploração intensiva dos recursos naturais dos países em desenvolvimento, frequentemente às custas das comunidades locais e dos ecossistemas.
O Papa Francisco, na Bula de Proclamação do Jubileu de 2025, reafirmou o apelo ao perdão da dívida dos países mais pobres, destacando a necessidade de uma nova arquitetura financeira internacional que reconheça o crédito ecológico atribuível aos países em desenvolvimento. Esta iniciativa visa não apenas reestruturar a dívida econômica, mas também reconhecer a interligação complexa entre a dívida financeira e a dívida ecológica, ambas refletindo desequilíbrios históricos de poder entre o Norte e o Sul global.
A crise atual da dívida nos países em desenvolvimento, exacerbada pelas crises pandêmica, climática e econômica, ampliou as disparidades existentes. Segundo a UNCTAD, entre 2004 e 2023, a dívida externa desses países quadruplicou, alcançando US$ 11,4 trilhões. Paralelamente, uma “dívida ecológica” crescente resulta das responsabilidades desiguais na crise climática, onde os países menos desenvolvidos são os mais afetados pelas consequências devastadoras, como escassez de água, perda de biodiversidade e deslocamentos forçados.
A transição para uma economia verde e digital, embora apresentada como uma resposta sustentável, corre o risco de perpetuar lógicas extrativas e desigualdades históricas. A intensificação da demanda global por matérias-primas críticas pressiona os ecossistemas dos países do Sul global, frequentemente desprovidos de proteções ambientais adequadas, enquanto os benefícios econômicos são colhidos pelos países mais ricos.
A Igreja Católica, através das encíclicas Laudato si’ e Fratelli tutti, reitera a necessidade urgente de uma mudança de paradigma. Não apenas como um ato de solidariedade, mas de justiça, o perdão da dívida ecológica é um passo crucial para corrigir modelos de desenvolvimento insustentáveis e promover um desenvolvimento humano integral, equitativo e sustentável.
Neste Jubileu, a Igreja convida as nações a construir uma nova aliança global, fundamentada em regras econômicas reformuladas e um compromisso com o cuidado da criação e a justiça ambiental. Esta aliança não apenas responde aos desafios contemporâneos, mas reafirma os princípios da Doutrina Social da Igreja, incluindo a promoção do bem comum, a solidariedade, a justiça social e a proteção da criação.

