Conteúdo do site Lições da Amazônia Reportagem de Daniela Pantoja, produção de Samela Bonfim, com fotos e edição de imagens de Júnior Albuquerque. Edição de texto por Daniel Nardin, Nara Bandeira e revisão de Rodolfo Rabelo, com roteiro de vídeo por Anna Suav. Esta série especial do Amazônia Vox foi viabilizada em parceria com o Instituto Bem da Amazônia com o apoio da Fundação Avina e do WWF-Brasil, através do programa Vozes pela Ação Climática Justa.
“A água que a gente usava antes era do igarapé, para o banho, lavar as coisas, fazer a comida”. O relato é de dona Nilzete Araújo, moradora da comunidade Retiro, localizada na região do Tapajós, em Santarém, oeste do Pará.

A viagem de lancha até a comunidade, com saída de um dos portos de Santarém, leva um pouco mais de duas horas, em períodos favoráveis à navegação. No trajeto, é quase impossível não se deslumbrar com a grandiosidade do Rio Tapajós e, ao mesmo tempo, se questionar por que, com essa imensidão de água, as comunidades ainda sofrem com o desabastecimento.
Além da falta de estrutura de distribuição de água, a região tem sido castigada pelos períodos mais severos de estiagem. No ano passado, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) declarou situação crítica de escassez hídrica no Rio Tapajós. Comunidades ficaram isoladas. A navegação ficou prejudicada, assim como o acesso à água potável e aos alimentos.

A redução da disponibilidade de água afeta ecossistemas inteiros, aumenta o risco de queimadas e perda de biodiversidade, pode acelerar o processo de desertificação e degradação do solo, dificultando a regeneração natural. Estiagens prolongadas afetam a produção agropecuária, levando à inflação de alimentos e prejuízos financeiros. E também atrapalham o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), principalmente: ODS 2, Fome zero e agricultura sustentável; ODS 6, Água potável e saneamento; ODS 13, Ação contra a mudança global do clima; e ODS 15, Vida terrestre.
Para minimizar os danos causados pela escassez de água, é preciso preparar e adaptar sistemas e comunidades para que sofram menos. Uma das estratégias é apostar na gestão sustentável da água. Foi o que aconteceu na comunidade Retiro, com a implantação do Programa Cisternas – ação realizada com o empenho da própria população.
Hoje, dona Nilzete já consegue manter uma hortinha no quintal de casa, regada com muita alegria e água em abundância. “Depois que veio o microssistema, mudou muito para a gente, facilitou muita coisa. Tem água nos banheiros. Serve para tudo, para molhar a hortinha e outras plantas pelo quintal. E eu ainda consigo fazer a minha farinha, pois para lavar a mandioca a gente precisa de água”, conta.

De acordo com Dionei Tárcio, coordenador local do Microssistema da Comunidade de Retiro, antes da implantação, as crianças da comunidade precisavam acordar cedo para ir à escola. “Era bem complicado, principalmente na parte do estudo das crianças. Pela parte da manhã todos eles tinham que se deslocar da sua casa até o igarapé para tomar banho, fazer higienização e voltar para suas casas. Isso tudo era muito cedo, porque a aula começa às sete horas da manhã. As crianças sofriam muito com a água fria do igarapé”, recorda.
O início da implementação
Vamos voltar um pouco no tempo para entender como foi o processo de implementação do Programa Cisternas na comunidade de Retiro. O diálogo com o Projeto Saúde e Alegria (PSA), responsável pela iniciativa, começou em 2020.

Marcos Alcântara, professor e diretor da escola da comunidade, conta que o período da seca era o mais difícil para as famílias conseguirem captar a água do rio por causa da distância. O que não foi obstáculo para a implantação do sistema, que contou com o apoio da comunidade que se mobilizou em puxirum (mutirão), para carregar os materiais, como madeiras e estruturas hidráulicas.
“Não foi fácil. Mas, hoje nós temos a recompensa. As famílias passaram a ter água de qualidade para lavar os alimentos e as roupas, assim como para todas as suas necessidades de casa. Hoje, a água está perto da gente, nas nossas casas, nos nossos quintais”, comemora o professor.
De fato, todo sacrifício valeu a pena. Tanto na cheia dos rios, como na seca, o desafio era o mesmo: ter uma água limpa e de qualidade, e o melhor, na torneira das casas. Hoje, a água que serve para lavar a roupa, cozinhar os alimentos e banhar os curumins (menino), é a água que ajuda na produção da agricultura familiar.

Eles podem colocar mandioca para amolecer e torrar farinha, cuidar dos animais e produzir alimentos sem medo da escassez da água, sem precisar caminhar horas e horas para ter um pouco de água.
O educador não esconde a felicidade em ter na palma das mãos água pura e limpa. “Eu como liderança dessa comunidade, presidente da associação, fico feliz. Hoje, se você não tiver uma água encanada, você não tem mais uma água de qualidade”, complementa.
Programa Cisternas e resiliência climática
O Programa Cisternas é uma iniciativa do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) e tem levado, além do acesso à água, inclusão social a diversas comunidades da região amazônica. Implementado desde 2018 pelo Projeto Saúde e Alegria na Bacia do Tapajós, o programa já beneficiou populações de várzea e terra firme, como o Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Lago Grande, a Resex Tapajós-Arapiuns, a Flona Tapajós e territórios indígenas no município de Itaituba.
Na primeira etapa do programa, entre 2019 e 2022, três comunidades da Resex Tapajós-Arapiuns (Retiro, Parauá e Mangal) foram contempladas com tecnologias sociais de captação, armazenamento, tratamento e distribuição de água. Em 2023, a iniciativa foi retomada com o objetivo de expandir o projeto para 25 comunidades até 2026. Além de estruturas para captação da água da chuva e abastecimento de água subterrânea, as comunidades também recebem melhorias no saneamento, com instalação de banheiros e sistemas de tratamento de esgoto.

O modelo de gestão do PSA se baseia na participação comunitária, garantindo que os moradores acompanhem todas as etapas do projeto, desde a identificação das necessidades até a gestão das infraestruturas implantadas. “O programa busca envolver as comunidades em todo o processo, para que possam autogerir a infraestrutura e garantir a sustentabilidade do acesso à água. Com isso, a gente acaba tornando a comunidade mais resiliente pra passar por esse processo de seca que está sendo cada vez mais intenso na região”, explica Jussara Salgado, coordenadora de Infraestrutura Comunitária do PSA. Para ela, a pauta do acesso à água precisa ser tratada como uma estratégia de adaptação climática.
E a participação da comunidade é essencial na implementação de soluções por motivos sociais, práticos, culturais e políticos. As comunidades conhecem melhor o ambiente onde vivem, entendem o problema e a urgência da solução, e assim, se engajam mais em manter e fiscalizar as ações, valorizar as iniciativas e se sentem parte da mudança, não alvo dela. É a promoção de justiça social e ambiental com conscientização sobre causas e efeitos dos impactos ambientais, incentivo à mudança de hábitos no cotidiano e criação de um senso de responsabilidade coletiva.
Expectativa pela expansão
As tecnologias implementadas incluem calhas instaladas nos telhados para captar a água da chuva, direcionando-a para reservatórios onde é feita a primeira filtração. Para consumo, a água passa por tratamento com fervura, filtragem e adição de cloro. Outras soluções adotadas são a perfuração de poços e a captação de fontes superficiais próximas, garantindo um abastecimento seguro e de qualidade.

O impacto do programa é sentido diretamente pelos moradores. “Antes, carregávamos água na cabeça para lavar louça, cozinhar e beber. Hoje, temos água encanada em casa, o que melhorou muito a nossa vida”, relata Rosivete Santos. Para ela, a ampliação do programa seria essencial para garantir ainda mais segurança hídrica na região.
Resumo da solução
Problema
As comunidades da região do Tapajós, como a comunidade Retiro, em Santarém (PA), enfrentavam falta de acesso à água potável e períodos de estiagem severa, agravados por mudanças climáticas. A escassez hídrica afetava o dia a dia das famílias, a produção de alimentos, o acesso à educação infantil e a qualidade de vida.
Resposta
A implantação do Programa Cisternas, com forte mobilização comunitária, instalou microssistemas de captação e distribuição de água da chuva, construção de poços, banheiros, sistemas de saneamento e tratamento doméstico da água (fervura, filtragem, cloração). A comunidade participou ativamente da construção das infraestruturas, fortalecendo o senso de pertencimento e manutenção local.
Por que isso é uma solução climática?
Atua na adaptação às mudanças climáticas, ao garantir resiliência hídrica frente às estiagens prolongadas e eventos climáticos extremos. Reduz a vulnerabilidade social e ambiental das populações, especialmente em áreas remotas da Amazônia. Fortalece a segurança alimentar, ao permitir a continuidade da agricultura familiar mesmo durante secas. Promove justiça climática e inclusão social, ao envolver as comunidades na autogestão do recurso e no reconhecimento do conhecimento tradicional.

