Entrevista com Johnson Portela – Articulador do GT-INFRAESTRUTURA e Justiça Sociambiental e Militante do Movimento Tapajós Vivo
“A Ferrogrão não é apenas uma obra de infraestrutura. É parte de um modelo que ameaça os territórios, as florestas e os povos da Amazônia. O que está em jogo é o futuro de uma região que já sofre com a pressão do agronegócio e da mineração. Por isso, precisamos de um debate mais amplo e responsável, que coloque a vida acima do lucro”, afirma Johnson Portela.
Para a gente entender, o que é o projeto da Ferrogrão?
O projeto da Ferrogrão é uma ferrovia planejada para ligar Sinop (MT) ao distrito de Miritituba, em Itaituba (PA), no Médio Tapajós. A proposta é criar uma rota de escoamento para commodities agrícolas, especialmente soja e milho produzidos no Mato Grosso, até os portos do Tapajós e, dali, seguir pelo rio Amazonas até o oceano e o mercado internacional.
O problema central é que se trata de uma obra voltada exclusivamente ao agronegócio exportador, sem benefícios diretos para as populações locais. É um projeto caro, pensado apenas para o transporte de commodities, e que acarreta graves impactos ambientais e sociais em toda a região.
Quais os impactos que a construção de uma ferrovia nessa unidade de conservação poderia acarretar?
Os impactos da Ferrogrão são diretos e indiretos, ou seja, envolvem efeitos cumulativos e sinérgicos. A ferrovia, com aproximadamente 970 quilômetros de extensão, demandaria um grande corredor de desmatamento, incluindo áreas laterais para obras e manutenção.
Essa faixa atravessa unidades de conservação, terras indígenas, assentamentos agroextrativistas e florestas públicas, comprometendo ecossistemas inteiros. Além disso, o projeto aumenta a pressão sobre os territórios, incentivando a especulação fundiária, o avanço do agronegócio e o desmatamento.
Não se pode olhar para a Ferrogrão de forma isolada. Ela faz parte de uma lógica mais ampla de expansão da fronteira agrícola, conectando portos, estradas e áreas de produção, e agravando problemas já existentes, como a grilagem de terras, o garimpo ilegal e os conflitos sociais.
Há a possibilidade de o projeto acontecer mesmo sem cortar o Parque Nacional do Jamanxim?
Na prática, não há saída técnica que evite danos. A engenharia ferroviária busca trajetos retilíneos, com o mínimo possível de curvas — e, nesse caso, a linha inevitavelmente atravessa áreas sensíveis. Mesmo que houvesse um desvio, a ferrovia impactaria outras unidades de conservação e terras indígenas.
A BR-163, por onde se discute um possível traçado alternativo, também não comporta esse tipo de obra, pois está em processo de ampliação e duplicação. Assim, qualquer cenário de execução implicaria prejuízos ambientais e sociais profundos.
Caso o projeto da Ferrogrão saia do papel e não passe pelo Parque Nacional do Jamanxim, ainda assim traria problemas ambientais e sociais para a região?
Sim. Mesmo sem cruzar o Parque Nacional do Jamanxim, o projeto acentuaria as pressões sobre todo o território. A região já enfrenta ilegalidades graves, como retirada de madeira, garimpo e ocupações irregulares. A chegada da ferrovia facilitaria a entrada de novos agentes econômicos e aumentaria a especulação e a degradação ambiental.
Do Mato Grosso até Miritituba — e, depois, até Santarém —, os impactos se multiplicariam: mais portos, mais barcaças, mais desmatamento e um futuro incerto para comunidades e ecossistemas amazônicos.

