A abertura do Tapiri Ecumênico e Inter-Religioso de hoje (12), foi marcada pela mística das Suraras do Tapajós e pela 1ª mesa do dia — coordenada pelo Pe. Dário — dedicada ao tema “Justiça climática, democracia e direito à vida: diálogos inter-religiosos por justiça socioambiental.” Durante a sessão, foram apresentados materiais de apoio pastoral para situações de conflito ligadas à mineração e a campanha de desinvestimento em empreendimentos de alto impacto, com convite a comunidades e instituições de fé para “desempoderar os bancos” e fortalecer os territórios.
A REPAM acompanhou a mesa com a presença de lideranças e articuladores dos territórios, reforçando o enraizamento local do Tapiri como espaço de convergência entre espiritualidade, território e ação. Essa participação territorial garantiu que as reflexões e encaminhamentos fossem iluminados pela escuta das realidades amazônicas e pela incidência concreta junto às comunidades.
Vozes e chaves de leitura
A bispa Marinez sublinhou a centralidade espiritual da criação e o sentido de pertença amazônico:
“Nós existimos com tudo o que existe. Se não nos dermos conta disso, não vamos existir.”
“Deus não está fora da criação — Ele está na criação. É hora de revermos a imagem que fazemos do Criador.”
“Nada fazemos sozinhos: nossas ações na Amazônia são sempre em parceria — com a REPAM, Cáritas, Ministério Público, Defensoria, movimentos e outras tradições religiosas.”
Luiz Felipe Lacerda (Observatório Nacional de Justiça Socioambiental) apontou a dimensão civilizatória da crise:
“Dessacralizamos a natureza e a transformamos em mercadoria. O diálogo inter-religioso é ferramenta potente para reconectar as pessoas ao sagrado da criação e reparar a democracia.”
Ele também destacou quatro agendas convergentes das comunidades de fé: revisão da dívida externa do Sul Global; fortalecimento do Fundo de Perdas e Danos; transição energética justa; e sistemas alimentares baseados na agroecologia. Sobre o Acordo de Escazú, foi enfático:
“É uma vergonha o Brasil ainda não ter ratificado o Escazú. Precisamos de um movimento forte para proteger defensores e garantir transparência.”
Já Dom Vicente Ferreira (Comissão para Ecologia Integral e Mineração, CNBB) chamou atenção para as “contradições sistêmicas” e para a disputa de narrativas:
“Agora tudo virou ‘verde’ — até a mineração. A economia que mata não pode apresentar-se como solução.”
“Se a ecologia integral não nos convencer a darmos as mãos no diálogo inter-religioso, nada mais vai nos convencer.”
Ele lembrou a mobilização das igrejas antes e durante a COP e reforçou que a defesa da casa comum parte “desde baixo, desde o barro”, com os atingidos no centro.
O Pastor Josias Caeté trouxe a perspectiva indígena sobre ecoteologia e ancestralidade, lembrando que o rompimento com os saberes dos povos é parte da crise atual e que é preciso um “novo encontro com a criação” a partir do respeito às cosmologias e à teia da vida.
O Tapiri segue como espaço de convergência entre espiritualidade, território e ação, animando comunidades de fé, lideranças tradicionais e organizações a alinhar compromisso espiritual e incidência pública em defesa da vida na Amazônia e no planeta.

