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Na noite desta segunda-feira, bispos e cardeais de diferentes continentes se reuniram no Museu das Amazônias, em Belém, para um gesto simbólico e profundamente espiritual durante a COP30: a entrega da cruz que carrega em seu interior água proveniente do descongelamento da Groenlândia. A ação, marcada por forte sentido profético, reafirmou o chamado urgente das Igrejas do Sul Global para o cuidado da criação e a defesa dos povos e territórios amazônicos.

Além da cruz, cardeais do Sul Global entregaram ao Museu das Amazônias uma rede de grande significado, marcada pela memória viva do Sínodo para a Amazônia, realizado em outubro de 2019. Esta foi a mesma rede utilizada na abertura do Sínodo, quando o Papa Francisco caminhou da Basílica até o local dos trabalhos sinodais, encontrando-se com os povos da floresta em um gesto histórico de escuta, proximidade e compromisso com a Amazônia. 

A rede, portanto, carrega não apenas um valor simbólico, mas espiritual e político: representa a conexão entre os povos, a reciprocidade amazônica e a opção da Igreja por caminhar ao lado das comunidades. Durante o evento, os cardeais presentearam a peça à Secretaria de Cultura do Estado do Pará — como registrado em foto — reforçando o reconhecimento da Amazônia como lugar de memória, resistência e profecia. Agora integrada ao acervo permanente do Museu das Amazônias, a rede mantém viva a presença do Sínodo e renova seu significado como símbolo de encontro, cuidado e compromisso com a vida na Pan-Amazônia.  

O encontro ocorreu em clima de oração, partilha e compromisso, reunindo representantes da Igreja engajados na construção de respostas éticas e concretas à crise climática. A presença conjunta de cardeais e bispos reforçou que a Amazônia permanece no centro das preocupações pastorais e socioambientais da Igreja, especialmente em um momento em que o mundo observa os impactos devastadores das mudanças climáticas sobre as populações mais vulneráveis. 

Durante a cerimônia, foi exibido um vídeo enviado pelo Papa Francisco especialmente para a ocasião, no qual o Santo Padre dirigiu uma palavra de encorajamento às Igrejas reunidas no Museu Amazônico e aos participantes da COP30. No vídeo, o Papa destacou a importância da unidade global, da coragem pastoral e da urgência de ações que estejam à altura da gravidade da crise climática. 

O Papa lembrou que “a mudança climática não é algo distante”, citando os clamores da criação — “enchentes, secas, tormentas e um calor implacável” — que fazem com que “uma em cada três pessoas viva em grande vulnerabilidade”. E acrescentou: “ignorar essas pessoas é negar nossa humanidade compartilhada.” 

O Santo Padre também reforçou que “ainda há tempo para manter o aumento da temperatura global abaixo de 1,5 °C, mas a janela está se fechando”, convocando as lideranças presentes a agir “com rapidez, fé e profecia, como custódios da criação de Deus.” 

Ao falar do Acorddo de Paris, o Papa foi direto: 
“O Acordo de Paris tem impulsionado um progresso real e continua sendo nossa ferramenta mais poderosa para proteger as pessoas e o planeta. Mas não é o Acordo que está falhando, e sim nossa resposta.” 

E concluiu com um apelo à união e à memória do encontro: 
“Somos guardiões da criação, não rivais por seus bens. Que este Museu Amazônico seja recordado como o espaço onde a humanidade escolheu a cooperação frente à divisão e à negação.” 

A entrega da cruz com a água do degelo simboliza o alerta que a própria criação faz à humanidade — um chamado para que governos, instituições e sociedade civil assumam compromissos reais de mitigação e adaptação, reforçando a cooperação internacional prevista no Acordo de Paris. 

Hoje, o Museu da Amazônia comemora 70 mil visitas em apenas 40 dias de funcionamento, um marco que revela o interesse crescente do público pela ciência, pela cultura e pela defesa da floresta. A partir deste gesto histórico realizado durante a COP30, a cruz com a água do degelo da Groenlândia passa a integrar o acervo permanente do museu, como símbolo duradouro do compromisso global com a vida e com a proteção da Amazônia. 

A noite no Museu da Amazônia tornou-se, assim, um marco espiritual da COP30, lembrando ao mundo que a fé, quando aliada à responsabilidade ecológica, tem força para inspirar mudanças profundas. O gesto das Igrejas do Sul Global envia um recado claro: é tempo de esperança ativa, solidariedade e coragem política para proteger a casa comum. 

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