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Uma conversa com Letícia Beilla

Durante a Semana dos Direitos Humanos, a REPAM-Brasil dá destaque às vozes que constroem proteção, esperança e resistência nos territórios amazônicos. Nesta entrevista, conversamos com Letícia Beilla, pesquisadora de Porto Velho cuja Trabalho de Coclusão de Curso (TCC) investigou o discipulado feminino de Jesus Cristo, e como esse discipulado se manifesta na vida de mulheres amazônicas que defendem direitos humanos, cuidam de suas comunidades e enfrentam contextos de violência estrutural — muitas vezes marcada por elementos de violência de gênero e práticas que especialistas já caracterizam como genocidas.

Letícia traz uma perspectiva singular, que nasce da espiritualidade encarnada, do testemunho cotidiano e da força das mulheres que, na Amazônia, defendem a vida em múltiplas frentes: na fé, na política, na sobrevivência, no cuidado e na justiça.



1️⃣ A partir da sua pesquisa, como você enxerga a relação entre violência de gênero e a violência estrutural que atinge povos e comunidades na Amazônia? Há um padrão de ataques direcionados às mulheres que defendem seus territórios?

A minha pesquisa analisa o discipulado feminino de Jesus Cristo e sua convergência com os direitos humanos. Quando trago isso para a realidade amazônica, especialmente a partir da Igreja particular de Porto Velho, percebo que há uma coerência profunda entre o ensinamento de Jesus — que afirma a dignidade e a igualdade de todas as pessoas — e a luta concreta das mulheres nos territórios.

Jesus sempre deixou claro, em seu agir, que todas as pessoas são iguais em dignidade e direito. Os direitos humanos afirmam o mesmo. E as mulheres que pesquisei expressam esse discipulado vivo.

Essas mulheres — indígenas, ribeirinhas, lideranças de pastorais, agentes de base — enfrentam assédio, ameaças e tentativas de silenciamento. Há, sim, um padrão de ataques que buscam retirar sua legitimidade e desestabilizar suas vozes.

Isso revela a coexistência de violência estrutural com violência de gênero na Amazônia. Ambas se entrelaçam e recaem de forma mais dura sobre as mulheres que defendem seus territórios.


2️⃣ Em contextos que muitos especialistas já caracterizam como genocidas, quais têm sido os impactos específicos sobre as mulheres — seja na vida comunitária, na saúde ou no exercício de seus direitos?

Os impactos são profundos. As mulheres vivenciam diariamente as consequências de políticas e práticas que violam direitos e colocam vidas em risco. Muitas delas atuam na linha de frente, seja para garantir moradia, alimentação ou segurança para suas comunidades.

Na minha pesquisa, apresento exemplos concretos:

  • Dona Raimunda Manso, foi das mulheres que acompanhei, ela reconstruía barracos com suas próprias mãos durante a noite, após a polícia derrubar tudo durante o dia. A atitude dela devolvia dignidade, proteção e esperança às famílias que lutavam por moradia.
  • Dona Olímpia Costa acolhia em sua casa pessoas que precisavam de alimento e abrigo, praticando a hospitalidade como dever ético e espiritual.
  • Dona Maria de Fátima, ribeirinha, caminha quilômetros pela mata e pelas margens do rio para catequizar, pesar crianças desnutridas pela Pastoral da Criança e levar conhecimento a quem mais precisa. Nada a impede — nem distância, nem cansaço, nem ameaça.

A violência que atinge esses territórios é genocida porque destrói vidas, modos de ser, culturas e corpos. E as mulheres sentem esse impacto de maneira ampliada: emocional, espiritual, física e política.


3️⃣ Quais são os principais desafios enfrentados pelas mulheres defensoras de direitos humanos na Amazônia quando denunciam violações e exigem políticas de proteção? Você percebe avanços ou ainda predomina a impunidade?

Os desafios são enormes.

O primeiro é a impunidade. Muitas denúncias não avançam e não chegam às mulheres que precisam de retorno e proteção. O silenciamento é constante, sobretudo quando elas ocupam espaços de liderança em movimentos sociais.

Outro desafio essencial é o isolamento geográfico. Muitas comunidades estão distantes dos centros urbanos, o que dificulta:

  • acesso ao apoio jurídico,
  • acionamento de mecanismos de denúncia,
  • chegada de políticas públicas.

Apesar disso, tenho percebido que a visibilidade vem crescendo — inclusive graças ao trabalho da mídia e das próprias redes de mulheres. Essa visibilidade fortalece o caminho rumo à coragem e ao reconhecimento.

Na minha pesquisa, tento valorizar esses testemunhos para que outras mulheres possam se inspirar, se encorajar e agir em defesa da dignidade humana.


4️⃣ Que caminhos — institucionais, comunitários ou de mobilização social — podem fortalecer a proteção das mulheres defensoras e garantir que suas vozes sejam centrais na construção de justiça e reparação?

Vejo três eixos fundamentais:

1. Caminho institucional

Precisamos de políticas públicas efetivas de proteção a defensoras e defensores de direitos humanos. Essas políticas precisam chegar aos territórios, inclusive aos mais distantes. Sem isso, a proteção não se materializa na vida real.

2. Caminho comunitário

As redes de mulheres são essenciais. Em Porto Velho, por exemplo, as Mulheres de Todas as Cores vão até as comunidades, escutam, dialogam e fortalecem o protagonismo feminino — tanto urbano quanto ribeirinho e rural.

3. Mobilização social

É urgente ampliar a participação das mulheres na vida social e política, porque sua voz traz uma visibilidade diferente às discussões sobre justiça, reparação e defesa da vida.
As vozes das mulheres precisam ecoar.


5️⃣ Gostaria de acrescentar algo?

Sim. Acredito que vale destacar a espiritualidade da resistência das mulheres amazônicas. Minha pesquisa mostra que elas vivem uma espiritualidade encarnada, profundamente ligada:

  • à terra,
  • à comunidade,
  • ao cuidado,
  • ao amor ao próximo.

Essa espiritualidade fortalece o discipulado e as torna capazes de enfrentar violências e reconstruir esperança.

As mulheres que analisei — Dona Raimunda Manso, Sueli Ribeiro, Dona Olímpia Costa, Marlene, Dona Maria de Fátima, Zilda Cesco e Dona Joelina Barros — são testemunhos vivos de um discipulado que defende a Amazônia e defende a vida.

Elas não lutam apenas por si mesmas.
Elas lutam pelo próximo.
E é isso que as torna tão essenciais para a justiça e a dignidade na região.

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