Melillo Dinis do Nascimento
23 de fevereiro de 2026
Após o fim da 30ª Conferência das Partes sobre Mudança do Clima da ONU, a COP30, o debate climático segue sendo disputado. No Brasil, com os embates permanentes com parte do setor do agro, o governo federal aprovou em dezembro de 2025 o “Plano Clima”1, que estabelece metas e diretrizes de curto, médio e longo prazo que visam à adaptação climática e à transição para uma economia com emissões líquidas zero de gases de efeito estufa até 2050. No início de fevereiro, houve a publicação de seu sumário executivo, considerado o guia do país para uma economia de baixo carbono. Nele, são apresentadas metas climáticas para os próximos dez anos. Contudo, o Plano enfrenta críticas de especialistas e ambientalistas por indefinições de implementação e
financiamento das metas.
Antes mesmo da divulgação do Plano, o contraste entre a construção de uma imagem de líder climático internacional e as práticas
ligadas às atividades vinculadas à alta emissão de carbono já eram evidentes. No artigo “Quantas Amazônicas cabem na COP-30?
Perspectivas acerca do clima em disputa no Brasil” (em anexo), de pesquisadoras do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental
(CNPq/UFRGS), essas profundas contradições que cercaram a realização da COP30 em Belém são analisadas, contrastando as ambições diplomáticas do Brasil com a realidade ambiental no estado do Pará – que, em alguma medida, se estendem também por outras regiões.
No texto, as autoras indicam como o modelo de desenvolvimento predatório, baseado no agronegócio e na mineração, transformou a Amazônia em uma fonte de emissões e palco de conflitos territoriais agudos que atingem a vida das populações locais e o clima de todo o planeta, principalmente da América Latina.
O estudo identifica as principais disputas de sentidos sobre a realização da COP30. Entre elas, a infraestrutura urbana em Belém, com tensões a partir do discurso oficial acerca do “legado turístico” da cidade, versus as necessidades da população local. Também, a insistência da exploração de petróleo em meio à discursos de cuidado ambiental do governo no evento; as apostas tecnofinanceiras do governo paraense, que tem gerado novas camadas de conflito territorial; e qual o lugar dos povos e comunidades tradicionais no evento, que buscam legitimidade, poder e visibilidade para tratar do futuro do planeta.
Diante do Plano Clima – e de outras políticas brasileiras que buscam fortalecer o enfrentamento da mudança do clima –, observam-se os desafios profundos na transição de setores poderosos como energia, agronegócio e infraestrutura urbana. Evitar mudanças profundas continua sendo uma linha de ação que envolve greenwashing, lobby e circulação de desinformação. Ainda assim, é preciso que o governo delimite suas prioridades, considerando a gravidade e urgência da emergência climática.
Como apontado pelo estudo referenciado, uma verdadeira justiça climática exige o fortalecimento da luta pelo meio ambiente, a
visibilidade de quem está nesse enfrentamento, e a superação da lógica do lucro em detrimento da preservação da natureza. É preciso que as mudanças climáticas sejam discutidas com seriedade e compromisso real das autoridades políticas brasileiras, para se colocar em prática o discurso da valorização da vida, em todas as suas formas.
1 O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) publicou, na sexta-feira (13/2), a Estratégia Nacional de Adaptação e seus 16 Planos Setoriais e Temáticos que integram o Plano Clima, consolidando as diretrizes e as estratégias de adaptação. O Plano Clima é o guia de implementação da meta climática nacional sob o Acordo de Paris (a NDC, na sigla em inglês), pela qual o Brasil se comprometeu a reduzir entre 59% e 67% de suas emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2035 em relação a 2005.

