A Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM/Repam Brasil) realizou um Encontro de Escuta com Jovens da Amazônia, reunindo lideranças juvenis de diferentes territórios para dialogar sobre desafios locais, fortalecer a mobilização social e construir estratégias de comunicação e participação cidadã no contexto das campanhas Amazoniza-te e Eu Voto pela Amazônia, especialmente em ano eleitoral.
O encontro reuniu jovens indígenas, quilombolas, ribeirinhos e representantes de organizações sociais, pastorais e movimentos populares, criando um espaço de escuta, partilha de experiências e construção coletiva de propostas para fortalecer o protagonismo das juventudes na defesa dos territórios amazônicos.
Entre os participantes estiveram lideranças como Adriano Karipuna, de Porto Velho (RO), presidente do Instituto Tangarei Karipuna e representante da Associação do Povo Indígena Karipuna (APOIKA); Íris Fidelis, representante dos povos de terreiro de Porto Velho (RO); Tireniwa Suruí, da Aldeia Yetá, na Terra Indígena Sororó, do povo Suruí Aikewara; Larissa, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do Coletivo de Juventude de Povos e Comunidades Tradicionais; Eudes Miranda, de São Miguel do Guaporé (RO), do povo Puruborá; e Antônio Elison, da Reserva Extrativista Ituxi, além de representantes de centros juvenis e organizações de base.
Escuta dos territórios e desafios vividos pela juventude
Durante o encontro, os jovens compartilharam as realidades vividas em suas comunidades, apontando desafios relacionados à falta de infraestrutura, acesso limitado à educação, saúde, internet e transporte, além das dificuldades de permanência e organização da juventude nos territórios.
Também foram destacados os impactos provocados por grandes empreendimentos, mineração, hidrovias, agronegócio e projetos de infraestrutura, que afetam diretamente os territórios e o modo de vida das comunidades amazônicas.
Os participantes alertaram ainda para situações de invasões de terras, avanço do desmatamento e conflitos territoriais, que impactam diretamente as comunidades e geram insegurança para jovens que permanecem e lutam em defesa de seus territórios.
Formação e comunicação como ferramentas de mobilização
Um dos pontos mais recorrentes nas falas foi a necessidade de investir na formação das juventudes, especialmente na área da comunicação comunitária e da educomunicação.
Entre as propostas apresentadas pelos jovens estão:
- formação em produção audiovisual e comunicação digital
- capacitação em edição de vídeos, produção de conteúdos e uso de ferramentas tecnológicas
- apoio para aquisição de equipamentos de comunicação
- fortalecimento de redes juvenis de comunicação nos territórios
As juventudes destacaram que a comunicação é uma ferramenta essencial para fortalecer narrativas próprias dos povos amazônicos e enfrentar a desinformação que muitas vezes circula sobre os territórios e suas realidades.
Juventude e participação cidadã em ano eleitoral
O encontro também destacou a importância da participação da juventude na construção de uma consciência cidadã e política, especialmente no contexto das eleições.
As campanhas Amazoniza-te e Eu Voto pela Amazônia foram apresentadas como instrumentos estratégicos para incentivar o protagonismo juvenil, ampliar o debate público e fortalecer a mobilização em defesa da Amazônia.
Os jovens ressaltaram a necessidade de formar multiplicadores nos territórios, capazes de dialogar com suas comunidades e promover a participação democrática, contribuindo para a escolha de representantes comprometidos com a proteção dos povos, dos rios e da floresta.
Análise de discursos e desafios da agenda climática
Durante o encontro também foi destacada a importância de realizar uma análise crítica dos discursos relacionados à agenda climática. Os participantes apontaram que a questão climática tem ganhado grande visibilidade no cenário internacional, mas alertaram para a necessidade de atenção às propostas que vêm sendo implementadas nos territórios.
Entre as preocupações levantadas está o avanço de iniciativas relacionadas ao mercado de carbono, que em alguns casos têm sido apresentadas às comunidades sem diálogo adequado ou sem garantir a participação efetiva dos povos.
Segundo os jovens, existe o risco de que tais mecanismos possam limitar a autonomia das comunidades tradicionais sobre seus territórios, caso não respeitem os processos de decisão coletiva e os modos de vida dos povos da Amazônia.
Criação de um Grupo de Trabalho de Juventude
Como encaminhamento do encontro, foi acolhida pela REPAM a proposta de criação de um Grupo de Trabalho (GT) de Juventude e Comunicação, com o objetivo de organizar processos de formação, mapear iniciativas juvenis e fortalecer estratégias de mobilização nos territórios.
O GT deverá contribuir para a construção de materiais formativos, conteúdos de comunicação e ações de incidência política, fortalecendo a participação das juventudes nas campanhas e nos debates sobre o futuro da Amazônia.
A REPAM Brasil seguirá articulando esse processo junto às juventudes e lideranças dos territórios, reforçando o compromisso da rede com o protagonismo juvenil na defesa da Amazônia e na construção de caminhos de justiça socioambiental.

