Notícia

André e Adriano Karipuna lideram a resistência de um povo que quase foi extinto e hoje volta a viver sob invasões e ameaças de morte.

No início da década de 1970, o povo indígena Karipuna esteve a um passo de desaparecer. As invasões às suas terras durante o processo de ocupação de Rondônia e as doenças trazidas com a aproximação da sociedade não indígena reduziram a população a apenas oito sobreviventes – quatro adultos e quatro crianças – conforme registros do  Conselho Indigenista Missionário (Cimi)

Mais de meio século depois, os Karipuna – hoje 64 pessoas – voltam a viver sob pressão de invasões, grilagem de terras e ameaças de morte dentro do próprio território, mesmo após a retirada de invasores do território.

Entre os que carregam a responsabilidade de impedir que essa história volte a se repetir estão os irmãos André e Adriano Karipuna, lideranças da terra indígena. Guardiões da floresta e de um povo que quase desapareceu, eles vivem sob ameaça constante enquanto tentam proteger a terra onde seu povo conseguiu recomeçar.

Registro atribuído a uma família Karipuna pelo fotógrafo oficial da Estrada de Ferro Madeira Mamoré – EFMM. (Foto: Dana Merrill, entre 1907 e 1912)

180 quilômetros até o território Karipuna

Para entender de perto essa realidade, os jornalistas do VOZ DA TERRA, Josi Gonçalves e Francisco Costa, com apoio da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), percorreram cerca de 180 quilômetros a partir de Porto Velho até a aldeia Panorama, onde vive o povo Karipuna. A reportagem integra o programa Defensores Ambientais, iniciativa da Agence Française de Développement (AFD), coordenada pela Transparência Internacional Brasil, com participação de organizações como Abraji, Operação Amazônia Nativa (OPAN), Instituto Centro de Vida (ICV) e Instituto Ethos.

O trajeto começou pela BR-364, no sentido Acre, até o distrito de Jaci-Paraná, a aproximadamente 90 quilômetros da capital. A partir dali, a paisagem mudou. O asfalto deu lugar à poeira da estrada de chão que segue pela Linha 1 em direção ao distrito de União Bandeirantes, num percurso de aproximadamente 60 quilômetros.

Após o distrito começa a parte mais difícil da viagem. Os últimos 25 quilômetros até a aldeia Panorama são feitos por uma estrada estreita de terra que corta a mata. Em muitos trechos, só há espaço para a passagem de um único veículo e a floresta se fecha sobre o caminho, formando um corredor verde e denso.

Estrada de acesso ao território Karipuna, cercada por floresta e marcada por placa que indica área protegida e restrição de entrada a não autorizados. (Foto: Francisco Costa)

Aqui e ali, porém, surgem clareiras abertas pelo desmatamento, sinais da presença de grileiros e madeireiros que avançam sobre a região. O trecho também tem pontes estreitas e mal conservadas que, no inverno amazônico, ficam cheias de lama e buracos. 

Apesar dessas marcas de destruição, grande parte do percurso ainda é dominada pela mata preservada. É nesse cenário que se entende melhor o papel dos Karipuna na proteção da floresta: guardiões de uma área tradicional cercada por pressões externas do agronegócio.

Conforme o Instituto Socioambiental (lSA), a Terra Indígena Karipuna se localiza entre os municípios de Porto Velho e Nova Mamoré e tem como limites naturais os rios Jacy-Paraná e Formoso, além dos igarapés Fortaleza, do Juiz e Água Azul. Dentro dessa área, que foi demarcada em 1997 com 152.930 hectares e homologada por Decreto em 8 de setembro de 1998, vive hoje a pequena população indígena reunida em oito casas de madeira.

Adriano e André Karipuna nos aguardavam na entrada da aldeia Panorama.

Da quase extinção à resistência

André Karipuna atua na defesa de sua terra e de seu povo (Foto: Francisco Costa)

André, aos 33 anos, é cacique do povo Karipuna e não esconde a preocupação com o futuro da terra indígena.

“Como eu sou filho de uma anciã (Katiká Karipuna), ela conta que a gente era dez mil pessoas, mas porém teve muito massacre, invasões mesmo naquele tempo. A gente foi quase extinto. Primeira vez foi na Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, naquela época, onde tinha vários povos aqui e a rodovia passou bem no meio dos territórios e na nossa comunidade Karipuna, passou bem na aldeia mesmo. A gente, para não ser extinto, a gente nos fortalecemos, casemos, criamos mais família, né? E aí nós estamos aqui hoje”, conta o cacique.

Ao lembrar a história do quase genocídio do seu povo, André olha para a aldeia Panorama e explica que as ameaças não ficaram no passado. Ao lado do irmão Adriano, ele passa a narrar a realidade que enfrentam hoje: uma área cercada, desde 2005, por invasões, retirada ilegal de madeira e tentativas constantes de ocupação da terra indígena.

Áreas desmatadas na Terra Indígena Karipuna, registradas em sobrevoos em setembro de 2020. (Foto: Greenpeace)

“Mas naquele tempo (2005) a questão política era muito… qualquer coisa você já ligava para a Funai e aí eles vinham com a equipe deles e conseguiam tirar, né? E essas coisas cresceram muito de 2018 para cá. Aí que as invasões cresceram mesmo: grileiro, madeireiro e tudo. ‘Pessoal para criar gado também?’ Tudo, tudo, tudo. ‘Soja por aqui, tem?’ Tem no sul do território, bem na ponta, não dentro da terra, mas na divisa.”

Quando proteger a floresta vira risco

Para reunir provas das invasões, o próprio André percorre o território, registra áreas desmatadas, fotografa acampamentos clandestinos e anota as coordenadas geográficas dos pontos onde encontra sinais de ocupação ilegal. O relatório detalhado do cacique é enviado ao Ministério Público, à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e a outros órgãos responsáveis pela fiscalização ambiental e pela proteção das terras indígenas. Um trabalho de vigilância que deveria ser feito pelo Estado.

“Isso é muito arriscado pra gente. A gente faz porque a gente gosta de fazer, mas isso não é nosso serviço, né? Quem deveria fazer isso é a própria Funai e a equipe dos órgãos que fazem essa proteção do território.”

De acordo com o cacique, o problema é que a resposta raramente é imediata.

“Demoroso porque a gente sabe que tem que insistir, insistir, mandar documento, ir no local onde tá queimado, derrubado, bater foto. E com a ajuda do Ministério Público também, que cobra os órgãos.”

André Karipuna monitora o território, onde identifica e documenta sinais de ocupação ilegal. (Foto: Francisco Costa)

“Nós estamos cercados”

Mesmo sabendo dos riscos, André e outros moradores da aldeia continuam percorrendo partes da região para verificar sinais de invasão. Em uma dessas incursões, em 2018, a comunidade percebeu o quanto os invasores já estavam próximos da aldeia.

“Foi no dia que a gente fomos ali dar uma volta a dois quilômetros. Chegamos lá e deparamos com a casa dos invasores. Chegamos aqui e avisamos todo mundo: nós estamos cercados agora. Tá menos de dois quilômetros as invasões.”

O clima na comunidade mudou. “Todo mundo ficou preocupado.” 

A partir daquele momento, os indígenas registraram a situação e iniciaram uma série de denúncias à Funai.

“E aí fizemos o documento, demorou um pouco, demorou e não chegou, até que chegou a ajuda”.

Em maio de 2019, após as denúncias feitas pelos indígenas, uma operação conjunta foi realizada na terra indígena Karipuna, envolvendo equipes da Funai, Ibama, Exército, Batalhão da Polícia Ambiental e Sedam (Secretaria Estadual de Meio Ambiente). A ação integrou a missão Curare Ajuricaba IV e teve como objetivo combater invasões, grilagem e extração ilegal de madeira na região. 

Durante a fiscalização, foram destruídos acampamentos de invasores e aplicadas multas a empresas madeireiras que atuavam nas proximidades da Terra Indígena Karipuna. Mesmo assim, a avaliação da liderança, os invasores nunca deixaram de representar uma ameaça constante para a comunidade.

Ponte sobre o rio Formoso, utilizada pelos invasores para retirar madeira da Terra Indígena. (Foto:Christian Braga/Greenpeace)

“O medo aqui é perder o nosso território”

Embora diga nunca ter recebido uma ameaça direta frente a frente, André afirma que os recados chegam de outras formas. De acordo com o cacique, os avisos circulam entre ribeirinhos e moradores da região, que acabam repassando comentários feitos por pessoas ligadas às invasões para a comunidade indígena.

“Falaram que se encontrasse alguém que tava fazendo a denúncia na estrada, indo bater foto, ia ver para nunca mais fazer isso. Isso para nós é uma ameaça, sim.”

André reconhece que teme pela própria vida.

“Eu tenho medo sim. Acho que todo mundo aqui tem medo.”

Segundo ele, o medo também reside na possibilidade de perder a terra onde vivem.

“Acho que todos aqui têm medo de perder o território, porque é o único espaço que a gente tem. Quem quer ser expulso da sua casa? Ninguém quer sair do seu espaço.”

Aldeia Panorama, onde vivem 64 pessoas do povo Karipuna no território marcado por conflitos e ameaças. (Foto: Francisco Costa)

A voz que ecoa fora da aldeia

Se André vigia a terra indígena por dentro, Adriano Karipuna atua em outra frente da mesma luta. Aos 39 anos, pai de três filhos e estudante do sétimo período de Direito em Porto Velho, ele se define como uma liderança de “porta-voz fora da aldeia”. 

“A minha articulação fora da aldeia é com relação a levar todas as denúncias saindo da base, ou seja, da aldeia para os órgãos de fiscalização, que são eles Polícia Federal, Ibama e MPF, que são responsáveis pela proteção dos nossos territórios”, explica.

Adriano Karipuna, liderança que atua fora da aldeia na articulação de denúncias e na interlocução com órgãos de fiscalização.

Para Adriano, as principais denúncias dizem respeito à invasão da terra indígena, à retirada ilegal de madeira e à grilagem. A resposta do Estado, porém, continua lenta.

“A resposta vem com pouca morosidade, porque requer inúmeras situações nesses órgãos. Precisa fazer levantamento, organizar todos esses órgãos para fazer uma incidência naquela denúncia que nós mencionamos através de ofício com imagem, fotografia e coordenadas geográficas. Então ela acontece, mas muito pouco.”

Mesmo diante da lentidão dos órgãos responsáveis pela fiscalização, a insistência dos Karipuna em registrar e denunciar as invasões acabou produzindo uma resposta concreta. Depois de anos de pressão e de sucessivas denúncias encaminhadas às autoridades brasileiras e também a instâncias internacionais, a área tradicional entrou no radar de uma operação de retirada de invasores.

“Há dois anos atrás nós tivemos a desintrusão que foi arguida pelo STF através do ministro Barroso que foi a desintrusão Karipuna… Que teve a ADPF 709 que dentro da ADPF 709 estava previsto a desintrusão, está previsto né, sete terras indígenas na região Norte.”

Ação de força-tarefa do governo federal remove invasores da Terra Indígena Karipuna e desmonta estruturas usadas na ocupação ilegal. (Foto: Ascom/EB)

A Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF 709) foi uma ação julgada pelo Supremo Tribunal Federal durante a pandemia de Covid-19 e obrigou o governo federal a adotar medidas emergenciais para proteger povos indígenas. Entre elas estava a desintrusão (retirada) de invasores de terras vulneráveis na Amazônia – contexto em que ocorreu a operação na Terra Indígena Karipuna.

Segundo Adriano, a operação realizada na área indígena não surgiu de forma espontânea, mas foi resultado de anos de denúncias feitas pelas lideranças do povo.

“Não foi uma coisa assim de uma hora para outra, porque a gente já vem denunciando as invasões de nosso território há muito tempo. Inclusive no contexto internacional, na Corte Americana, na ONU em Nova Iorque, no Parlamento Europeu na Bélgica e também na ONU em Genebra.”

Para Adriano, a experiência mostrou que a pressão internacional muitas vezes produz mais efeitos do que as denúncias feitas dentro do próprio país.

“Bom, a gente tem percebido que quando a gente denuncia fora do Brasil, as coisas vêm mais rápido.”

Adriano Karipuna no Fórum Permanente da ONU sobre Assuntos Indígenas, em 2018, espaço onde denunciou invasões e violações no território Karipuna (Foto: Luiz Roberto Lima)

Apesar da operação de retirada de invasores, o problema está longe de ter sido resolvido. De acordo com a liderança, sinais recentes indicam que novas invasões continuam acontecendo dentro da terra indígena.

“Então, a desintrusão ela foi bom por uma parte, mas ainda há presença de invasão em nosso território.”

Ele relata que recentemente surgiram indícios de preparação de áreas para criação de gado no sul da terra indígena, na região conhecida como Formoso. 

Para Adriano, o avanço do desmatamento não ameaça apenas a floresta, mas também o futuro do próprio povo Karipuna.

“Se o Estado não fizer a parte dele na proteção e na punição dos invasores, futuramente a gente vai ter um território nu, sem floresta. E os Karipuna não vão ter de onde tirar sua economia e podem acabar tendo que sair para a cidade.”

Área desmatada próxima à Terra Indígena Karipuna evidencia o avanço da devastação na região. Registro feito em sobrevoo em setembro de 2021. (Foto: Christian Braga/Greenpeace Brasil)

Adriano também critica o modelo de exploração econômica que pressiona a Amazônia.

“A economia hoje tem trazido derramamento de sangue.”

Conforme Adriano, os indígenas continuam reunindo provas para encaminhar novas denúncias aos órgãos de fiscalização.

“Inclusive nós já temos uma denúncia, já está sendo encaminhado para o MPF com todas as provas cabíveis para que o órgão se manifeste.”

Para ele, o principal problema está na lentidão da fiscalização após a retirada dos invasores.

“É bom lembrar também que tem na desintrusão um nome dizendo que é pós-desintrusão, que é para continuar a fiscalização e vigilância por parte do Estado. Polícia Federal, Funai, PRF, Força Nacional e IBAMA. E isso está muito lento.”A cobrança por maior presença do Estado na terra Karipuna também aparece em decisões recentes da Justiça Federal. Em ação civil pública movida pela Associação dos Povos Indígenas Karipuna (Abytucu Apoika) e posteriormente assumida pelo Ministério Público Federal (MPF), a Justiça reconheceu falhas e atrasos na execução do Plano Básico Ambiental voltado aos povos indígenas impactados pela Usina Hidrelétrica de Santo Antônio, no rio Madeira.

Usina Hidrelétrica de Santo Antônio não cumpriu uma série de medidas de compensação ambiental e social em favor dos Karipuna (Foto: UHSAE – Divulgação)

Na ação, a associação indígena sustenta que a construção da usina intensificou pressões sobre a área, com aumento de invasões por grileiros, exploração ilegal de madeira e minérios, loteamentos irregulares e desmatamento da mata nativa dentro da Terra Indígena Karipuna.

A sentença determinou que a Funai e a empresa Santo Antônio Energia apresentem um plano atualizado de implementação das medidas pendentes e relatórios periódicos sobre o cumprimento das obrigações. A Funai tem até a primeira metade de maio para, “definir a ocupação e a utilização dos postos de vigilância previstos no plano  (Plano Básico Ambiental – Componente Indígena – condicionante do licenciamento ambiental do empreendimento)

Se as disputas jurídicas revelam as consequências institucionais do avanço sobre a terra indígena, no cotidiano da aldeia os efeitos dessa pressão assumem outra dimensão. Para as lideranças que denunciam invasões e cobram providências do Estado, defender a floresta passou a significar também viver sob ameaça.

Nesse cenário de conflitos fundiários, avanço de invasores e fiscalização considerada insuficiente pelas lideranças indígenas, defender a floresta passou a significar também viver sob ameaça.

Nossas cabeças estão a prêmio

Adriano e André seguem denunciando as invasões no território indígena, apesar das ameaças (Foto: Francisco Costa)

Para as lideranças que estão na linha de frente da defesa da terra indígena, as ameaças deixaram de ser uma possibilidade distante. Adriano Karipuna diz que as ameaças começaram a se intensificar à medida que as denúncias ganharam visibilidade.

“A ameaça que nós já sofremos foi com relação às três lideranças da linha de frente que é o cacique, eu e o outro (um primo), né? Que nossas cabeças estão a prêmio.”

Além dos recados indiretos, Adriano afirma que recebeu ameaças por telefone depois de denunciar a situação da área indígena em instâncias internacionais.

“Eu já recebi ligações depois que eu vim das denúncias internacionais que disseram assim: ‘Adriano, Adriano, você vai amanhecer com a boca cheia de formiga’.”

As ameaças também apareceram de forma indireta dentro da terra karipuna. Segundo ele, armadilhas chegaram a ser colocadas nas estradas utilizadas pelos indígenas para tentar provocar acidentes.

“Eles colocaram armadilha nas estradas para que os pneus dos carros furassem, mas nós temos experiência de nosso território e percebemos antes a armadilha.”

Adriano diz que, em alguns momentos, chegou a reduzir sua circulação fora da aldeia depois que as ameaças começaram a se tornar mais frequentes.

“Medo acho que todo mundo tem que ter. Mas o que eu tenho medo é da covardia. Covardia que essas pessoas podem fazer com a nossa família.”

Apesar das ameaças, nenhuma das lideranças Karipuna que estão na linha de frente das denúncias integra atualmente programas oficiais de proteção a defensores de direitos humanos. De acordo com Adriano, a inclusão no programa já foi solicitada às autoridades, mas até hoje não houve resposta.

“Não, eu não tô incluso. A gente já fez essa solicitação, mas até agora não veio.”

A ausência de proteção formal preocupa as lideranças que estão na linha de frente das denúncias sobre invasões e crimes ambientais dentro da terra indígena Karipuna. Mesmo sob ameaças e sem garantia de segurança institucional, André e Adriano continuam denunciando a presença de grileiros, madeireiros e outras atividades ilegais na terra indígena.

Ao final da entrevista, Adriano faz uma pausa antes de encerrar a conversa. Olhando para a floresta que cerca a aldeia Panorama, ele decide deixar uma mensagem em sua própria língua e depois a traduz.

“Eu disse para vocês: não destruam a nossa floresta. Porque se a floresta acabar, nós também vamos acabar como povo.”

A frase resume o que está em jogo no território Karipuna: não apenas a disputa por terra, mas a sobrevivência de um povo que já esteve à beira da extinção.Na próxima reportagem desta série, o procurador da República, Raphael Bevilaqua, analisa as falhas do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos e explica por que lideranças ameaçadas, como as que atuam na defesa da Terra Indígena Karipuna, muitas vezes ficam fora dos mecanismos de proteção do Estado.

Adriano Karipuna diante de uma sumaúma, conhecida como “árvore da vida”, na floresta que sustenta a continuidade de seu povo. (Foto: Francisco Costa)
Katiká, matriarca do povo Karipuna, com os filhos André e Adriano, em registro que simboliza a continuidade da luta entre gerações. (Foto: Gilberto Azanha, 2004.)

A história de resistência do povo Karipuna não pode ser contada sem Katiká. Mãe de André e Adriano e uma das últimas anciãs da comunidade, ela pertence à geração que sobreviveu ao contato com a sociedade não indígena.

Ela viveu o período mais dramático da história recente do povo, quando a população Karipuna foi drasticamente reduzida por doenças e violência durante o processo de ocupação de Rondônia. Naquele momento, o povo chegou a apenas oito sobreviventes.

Segundo Adriano, foi Katiká quem ajudou a manter viva parte da memória e da cultura do povo.

“Ela é a nossa matriarca da luta. Se não fosse ela, nós que somos filhos não continuaríamos essa luta.”

Adriano conta que grande parte do conhecimento do povo foi transmitida em rodas de conversa dentro da aldeia, onde os mais velhos compartilharam histórias e ensinamentos com as novas gerações.

“O aprendizado indígena é roda de conversa.”

Hoje, aos olhos dos filhos e das novas gerações da aldeia Panorama, Katiká representa a memória viva de um povo que sobreviveu à violência, às doenças e às tentativas de expulsão de sua terra.

Katiká não estava na aldeia no momento da reportagem. Após sofrer um AVC recente, ela permanece em Porto Velho, onde recebe cuidados médicos — distante do território que ajudou a proteger ao longo da vida.

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