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O reconhecimento e a participação efetiva de povos e comunidades tradicionais nas negociações climáticas internacionais foram o centro do webinar “A Voz que queremos na Governança Climática”, promovido pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS). O encontro reuniu lideranças, especialistas e representantes de diferentes regiões do mundo para discutir o papel estratégico dessas comunidades na proteção da biodiversidade, na adaptação climática e na construção de soluções sustentáveis para o futuro da governança ambiental global.

A Secretaria Executiva da REPAM-Brasil participou do encontro, acompanhando os debates sobre o fortalecimento da representação de comunidades locais e tradicionais nos espaços internacionais de governança climática e incidência política.

Durante o debate, representantes da África, América Latina e Brasil destacaram que comunidades tradicionais possuem conhecimentos ancestrais fundamentais sobre manejo do território, conservação ambiental, uso sustentável da água, mobilidade e convivência com os ecossistemas. Ao mesmo tempo, denunciaram desafios históricos enfrentados por esses povos, como conflitos territoriais, criminalização, falta de reconhecimento institucional e ausência de acesso a direitos básicos.

Entre as falas do encontro, lideranças reforçaram que muitos dos impactos da crise climática recaem diretamente sobre as populações que dependem da terra, das águas e da natureza para manter seus modos de vida. Questões como deslocamentos forçados, pressão pela sedentarização, insegurança hídrica e conflitos sobre o uso do território foram apontadas como ameaças não apenas à sobrevivência das comunidades, mas também à transmissão de saberes tradicionais.

O webinar também destacou a consolidação do recém-criado Fórum Global de Comunidades Locais para Mudança Climática, iniciativa que busca ampliar a representação dessas comunidades nos espaços multilaterais ligados às convenções do clima, biodiversidade e desertificação. O advogado e pesquisador Guilherme Heidt explicou que o fórum surge para preencher uma lacuna histórica de representação dentro da governança climática internacional.

Segundo os participantes, as comunidades locais e tradicionais desempenham papel essencial no enfrentamento da crise climática, especialmente por sua relação direta com os territórios e pela preservação de conhecimentos ancestrais sobre conservação ambiental, adaptação e uso sustentável dos recursos naturais. Também foi ressaltada a necessidade de garantir financiamento direto, participação efetiva nas negociações internacionais e reconhecimento das formas próprias de organização e governança desses povos.

Samuel Leite Caetano, liderança do Cerrado Norte Mineiro e presidente do Conselho Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT), destacou que os territórios tradicionais seguem resistindo diante das secas, dos conflitos e das ausências históricas de políticas públicas. Em sua fala, reforçou a importância de fortalecer a presença dessas comunidades nos espaços de decisão climática e ambiental.

O debate também abordou a construção coletiva de critérios de autoidentificação das comunidades locais, reconhecendo elementos como ancestralidade, gestão coletiva do território, formas próprias de representação e continuidade histórica nos territórios. Os participantes defenderam que a participação dessas comunidades não deve ser apenas simbólica, mas construída a partir do reconhecimento efetivo de seus direitos, saberes e modos de vida.

Ao longo do encontro, representantes do Fórum Global destacaram que os próximos anos serão decisivos para ampliar o reconhecimento internacional das comunidades locais dentro da Convenção do Clima da ONU, especialmente nos processos que antecedem a COP31. A expectativa é fortalecer a articulação regional na América Latina, África e Ásia, ampliando a incidência política e a presença dessas vozes nos espaços de negociação climática.

O webinar reforçou ainda que enfrentar a crise climática exige ouvir e incluir aqueles que historicamente protegem os territórios e a biodiversidade. Para os participantes, não há solução climática possível sem justiça territorial, participação social e valorização dos conhecimentos tradicionais.

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