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Na Região dos Cocais, no município de Codó (MA), iniciativas comunitárias ligadas à formação popular, à segurança alimentar e à valorização dos saberes tradicionais têm fortalecido o bem viver de famílias urbanas e rurais. A reflexão é de Maria da Conceição Cruz, coordenadora do Conselho de Leigos da Diocese de Coroatá, conselheira municipal de Saúde representando a Igreja Católica e a sociedade civil, além de atual presidente da ASFOCO — Associação de Formação e Capacitação dos Cocais.

Com formação acadêmica em Licenciatura em Filosofia, Conceição afirma que sua maior escola de vida foi a educação informal construída nas comunidades, especialmente por meio da Catequese e da Pastoral da Criança, acompanhando ações básicas de saúde, nutrição, educação e cidadania em municípios da Diocese de Coroatá.

Segundo ela, a alimentação saudável e o bem-estar das famílias estão diretamente ligados ao conhecimento sobre os alimentos presentes nos próprios territórios e ao fortalecimento da autonomia comunitária.

“Muitas famílias têm frutas, plantas e alimentos ao redor de casa, mas ainda falta conhecimento sobre como aproveitar tudo isso na alimentação”, afirma.

Conceição explica que alimentos simples e tradicionais da região podem se transformar em refeições nutritivas e acessíveis. Mamão, manga, macaxeira, cheiro-verde e babaçu fazem parte das riquezas alimentares presentes nos quintais e nas comunidades da região.

“Do mamão é possível fazer salada, doce, torta. Da manga se faz polpa, geleia e vinagre. Já o babaçu é uma riqueza enorme para quem vive no território. Do palmito, da farinha e do mesocarpo surgem muitos alimentos”, destaca.

Ela reforça que o incentivo aos quintais produtivos e à valorização dos saberes populares contribui diretamente para a soberania alimentar e para a melhoria da qualidade de vida das famílias.

“Quando a família não tem um canteiro, uma fruta no quintal ou um pé de tempero, tudo precisa ser comprado. E muitas vezes se compra alimento sem qualidade”, comenta.

Ao longo dos anos, Conceição participou de diversas ações comunitárias voltadas à segurança alimentar, oficinas de aproveitamento integral dos alimentos, palestras sobre políticas públicas, saneamento básico e atividades educativas realizadas junto às comunidades urbanas e rurais.

Por meio da ASFOCO, associação que atua desde 2010 em municípios da Região dos Cocais, como Codó, Timbiras, Coroatá e Peritoró, são promovidas oficinas, formações e projetos voltados à soberania alimentar e ao fortalecimento comunitário.

Ela também destaca a parceria construída com a REPAM-Brasil desde o período da pandemia, fortalecendo projetos ligados ao cuidado com a Casa Comum, soberania alimentar e valorização da cadeia produtiva do coco babaçu.

“Dentro desta parceria de conhecimentos, destaco a caminhada junto à REPAM desde a pandemia, não só com a ASFOCO, mas também com a COOAAFA — Cooperativa dos Agricultores e Agricultoras Familiares Agroextrativistas do PA Monte Cristo, aqui em Codó. Foram muitas oportunidades de formação, participação em eventos regionais em São Luís e também em espaços ligados à COP30”, ressalta.

Além da REPAM, Conceição destaca outras articulações importantes desenvolvidas junto ao Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), que reúne mulheres dos estados do Maranhão, Piauí, Tocantins e Pará, além de parcerias com institutos e universidades federais e estaduais do Maranhão.

Segundo ela, essas redes fortalecem o intercâmbio de conhecimentos, a valorização dos saberes tradicionais e o protagonismo das comunidades agroextrativistas na defesa dos territórios e da soberania alimentar.

As ações têm deixado marcas concretas nas comunidades. “Uma mulher me contou que até hoje faz sopão com folhas e receitas com macaxeira depois que participou das oficinas. Isso mostra que o conhecimento permanece”, relata.

Outro desafio apontado por Conceição é o avanço do uso de agrotóxicos e da pulverização aérea na região, situação que tem afetado diretamente a produção das famílias agricultoras e comprometido o cultivo de alimentos saudáveis.

Apesar das dificuldades, ela acredita que o fortalecimento das políticas públicas, da formação popular e das iniciativas comunitárias é fundamental para garantir dignidade, autonomia e permanência das famílias em seus territórios.

“A soberania alimentar é também independência. É saber aproveitar o que o território oferece e fortalecer o protagonismo das comunidades”, conclui.

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