Por Vatican News
A realidade enfrentada pelo Regional Norte 2 ecoa as palavras do saudoso Papa Francisco em sua Exortação Apostólica ‘Querida Amazônia’. Nela, o Pontífice expressou o seu “Sonho Ecológico”, onde o cuidado com as pessoas e o cuidado com os ecossistemas são inseparáveis.
Vívian Marler – Assessora de Comunicação CNBB Regional Norte 2
A crise climática global deixou de ser uma previsão para se tornar uma realidade palpável e, muitas vezes, cruel. Enquanto o mundo debate metas de descarbonização em grandes conferências, na Amazônia, o “cuidado com a Casa Comum”, como define o Papa Francisco, ganha contornos de sobrevivência. Diante de alertas científicos sobre a chegada de um fenômeno “El Niño” de proporções extraordinárias, a Igreja Católica no Pará e no Amapá acende o sinal de alerta.
Em carta enviada aos bispos, durante o ‘Encontro do Conselho Permanente’ da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que se realiza em Brasilia, até esta quinta-feira (18/6), e lideranças da região do Pará e Amapá, dom Irineu Roman, arcebispo de Santarém e Presidente do Regional Norte 2 da CNBB, convocou uma mobilização preventiva urgente. O documento reflete a preocupação com o aquecimento acentuado do Oceano Pacífico, que promete trazer secas severas para o Norte e Nordeste do Brasil, ameaçando o equilíbrio da maior bacia hidrográfica do planeta.

Foto-Padre Paulo Roberto Conceição_Rio Amazonas_Macapá-AP
A realidade enfrentada pelo Regional Norte 2 ecoa as palavras do saudoso Papa Francisco em sua Exortação Apostólica ‘Querida Amazônia’. Nela, o Pontífice expressou o seu “Sonho Ecológico”, onde o cuidado com as pessoas e o cuidado com os ecossistemas são inseparáveis. “O equilíbrio amazônico depende também da saúde do planeta”, lembrava o Papa, enfatizando que o que acontece na Amazônia repercute globalmente.
Hoje, esse equilíbrio está por um fio. A memória coletiva ainda guarda as cicatrizes de 2024, quando a seca histórica e as queimadas transformaram o ar da região em um perigo invisível. Santarém, no Pará, chegou a ser classificada como a cidade mais poluída do mundo naquele período, um triste recorde que sobrecarregou hospitais e comprometeu a segurança alimentar de milhares de famílias.
O Regional Norte 2 abriga alguns dos maiores rios do mundo. Amazonas, Tapajós, Xingu e Tocantins não são apenas massas de água; são as estradas, o supermercado e a alma do povo paraense e amapaense. A previsão de um “Super El Niño” coloca esses gigantes em risco, ameaçando interromper a navegação em rios e igarapés, isolando comunidades inteiras e impedindo o transporte de alimentos e medicamentos.

Afluente do Rio Amazonas secou em frente à comunidade do Livramento no norte do Arquipélago do Bailique_ Foto-Rodrigo Pedroso
Dom Irineu é enfático ao dizer que a presença eclesial não pode ser indiferente. “Prevenir é, antes de tudo, um ato de caridade cristã”, afirma o arcebispo.
A mobilização proposta pelo Regional Norte 2 foca em três pilares fundamentais para enfrentar a crise, a ‘Ação Preventiva’, para estruturar as comunidades para mitigar os impactos da poluição, da fome e dos problemas de transporte. A ‘Soberania Alimentar’ pra implementar alternativas práticas na agricultura regional para garantir que a terra continue produzindo de forma resiliente, mesmo diante da escassez de chuvas, e ao ‘Combate às Queimadas’. para conscientizar a população para que o fogo deixe de ser o vilão que destrói a biodiversidade e a qualidade do ar.
A Igreja no Pará e no Amapá agora busca envolver autoridades e lideranças comunitárias em um debate preventivo, fugindo da “falsa sensação de tranquilidade” que o atual período de chuvas pode trazer. O objetivo é traçar estratégias conjuntas antes que os níveis dos rios comecem a baixar drasticamente.
Na Amazônia, cuidar da criação é cuidar do futuro do mundo. Como nos ensina a ‘Querida Amazônia’, a luta não é apenas ecológica, é social e espiritual. É o compromisso de proteger a vida em todas as suas formas, garantindo que os rios continuem a correr e que os povos da floresta possam viver com dignidade.

Rio Jari – Amazônia
