Documento apresentado na sede da CNBB, em Brasília, revela violações contra os territórios, as pessoas e casos de omissão do poder público e reforça a urgência da defesa dos direitos dos povos indígenas
O Conselho Indigenista Missionário (CIMI) realizou, na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Brasília, o lançamento do Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil – dados de 2025. O encontro reuniu lideranças indígenas, missionários e missionárias, representantes da REPAM-Brasil, Ivete Caixeta, CIMI e da CNBB, autoridades, colaboradores e organizações comprometidas com a defesa dos direitos dos povos originários.
A publicação reúne dados sobre violências contra o patrimônio indígena, violências contra a pessoa e violências decorrentes da omissão do poder público, além de análises sobre os ataques aos direitos territoriais e a situação dos povos indígenas no país.
Dados revelam a dimensão das violações
Os números apresentados durante o lançamento evidenciam a gravidade das violações registradas em 2025.
No eixo de violência contra o patrimônio, o relatório aponta 169 casos de conflitos por direitos territoriais, além de 210 casos de invasões possessórias, exploração ilegal de recursos e danos ao patrimônio. Também foram registrados 897 casos de omissão e morosidade na regularização de terras, revelando a permanência dos desafios para a garantia dos direitos territoriais dos povos indígenas.
Outro eixo destacado pelo levantamento é a violência por omissão do poder público. Foram registrados 366 casos de omissão, entre eles 58 casos de desassistência geral, 111 de desassistência na área de educação e 121 na área da saúde.
Os dados apontam ainda 14 casos de disseminação de bebida alcoólica e outras drogas e 62 mortes por desassistência à saúde, evidenciando como a ausência ou insuficiência de políticas públicas pode produzir consequências graves para comunidades e territórios.
Mais do que apresentar números, o relatório dá visibilidade às histórias e realidades que estão por trás das estatísticas. São pessoas, famílias, comunidades e povos que enfrentam ameaças, conflitos, invasões de seus territórios, exploração ilegal de recursos naturais, danos ambientais e diferentes formas de violação de seus direitos.
Povos isolados e de pouco contato
O documento também chama atenção para a situação dos povos indígenas isolados e de pouco contato, cuja proteção exige atenção permanente.
A invisibilidade desses povos pode favorecer a atuação de interesses econômicos sobre seus territórios e ampliar os riscos à sua sobrevivência. Na Amazônia, especialmente, a pressão sobre os territórios, a exploração ilegal dos recursos naturais e outras formas de ocupação e degradação representam ameaças à vida, à integridade e aos modos de existência dessas populações.
Vozes dos territórios denunciam a violência
Durante o lançamento, representantes indígenas denunciaram a realidade enfrentada diariamente em seus territórios.
Um representante do povo Guarani Kaiowá destacou a situação vivida no Mato Grosso do Sul, marcada pela violência, pela pressão do agronegócio e pelos conflitos territoriais. Em sua manifestação, reafirmou que a luta pela garantia dos direitos indígenas não diz respeito apenas a um povo ou território, mas envolve os povos originários de todo o Brasil.
As falas reforçaram aquilo que os dados demonstram: os conflitos territoriais e as violações de direitos permanecem presentes na vida de diversas comunidades e exigem respostas efetivas do Estado e da sociedade.

Registro, denúncia e memória
O jornalista Rubens Valente ressaltou a importância histórica do CIMI na documentação e na comunicação das violências praticadas contra os povos indígenas.
Ao recordar episódios acompanhados ao longo de sua trajetória, destacou a importância de registrar aquilo que muitas vezes permanece invisível para grande parte da sociedade e de transformar esses registros em instrumentos de denúncia, memória e defesa de direitos.
Ao reunir e sistematizar essas informações anualmente, o relatório contribui não apenas para compreender a dimensão das violações, mas também para preservar a memória das vítimas e fortalecer a luta dos povos indígenas por justiça.
“Uma interpelação à consciência”
No encerramento, o Cardeal Leonardo Steiner afirmou que o lançamento do relatório representa mais do que a apresentação de uma publicação: é uma interpelação à consciência, à memória, ao compromisso, à justiça e à história.
Ao recordar uma experiência vivida em uma aldeia indígena e a frase que ouviu “o espírito não fala mais”, chamou atenção para o sofrimento profundo provocado por anos de violência, violações de direitos e ameaças aos territórios, culturas e modos de vida.
A reflexão reforçou o sentido do relatório: denunciar as injustiças, tornar visíveis realidades muitas vezes silenciadas e reafirmar a esperança na construção de um futuro fundamentado na justiça, na dignidade, na proteção da Casa Comum e no respeito incondicional à vida.
O lançamento do Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil dados de 2025 reafirma o compromisso do CIMI com os povos indígenas e com a defesa de seus territórios, culturas, línguas, modos de vida e direitos.
Conhecer, documentar e comunicar as violências é também assumir o compromisso de enfrentá-las e contribuir para a construção de caminhos de justiça, respeito aos territórios e defesa da vida.

