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A Articulação das Comissões Pastorais da Terra (CPT’s) da Amazônia tornou pública, no dia 9 de fevereiro de 2026, uma carta de apoio à ocupação protagonizada pelos povos do Baixo e Médio Tapajós, que há quase 20 dias mantêm mobilização no porto da Cargill, em Santarém (PA), em defesa dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins.

Formada pelas regionais da CPT nos nove estados da Amazônia, a Articulação manifesta profundo respeito às mobilizações conduzidas por diversas etnias indígenas e reafirma seu compromisso histórico com a defesa da vida, dos territórios e da Casa Comum.

A carta destaca que a luta em curso no Tapajós, no Madeira e no Tocantins é uma só: a resistência contra um modelo de desenvolvimento que transforma rios em corredores de exportação e territórios em zonas de sacrifício. Para as CPT’s, a ocupação no porto da Cargill denuncia a engrenagem do agronegócio que converte o Tapajós em hidrovia a serviço das commodities, enquanto compromete modos de vida tradicionais, soberania alimentar e memórias ancestrais.

“Para nós, rio não é ‘hidrovia’, não é ‘ativo financeiro’, não é mercadoria. Rio é sagrado, é vida, é dom de Deus confiado aos povos que dele vivem e cuidam.”

No documento, a Articulação expressa apoio à resistência contra a dragagem do rio Tapajós, apontando a violação do direito à Consulta Prévia, Livre e Informada, conforme a Convenção 169 da OIT. Também exige a revogação do Decreto nº 12.600/2025, que inclui os rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização, medida que, segundo a carta, aprofunda a lógica de privatização e intensifica impactos já acumulados nos territórios amazônicos.

As CPT’s denunciam que projetos de hidrovias e dragagens vêm sendo impostos sem diálogo efetivo com as comunidades afetadas, desconsiderando os impactos sociais, culturais e ambientais, como a contaminação por mercúrio, os efeitos das barragens e a expansão do agronegócio sobre os territórios tradicionais.

Para a Articulação, transformar rios em “corredores logísticos” para grandes corporações representa a imposição de uma lógica que ignora que tudo está interligado. “Se o rio adoece, o povo adoece. Se o rio é privatizado, o povo é expulso”, afirma o texto.

A mobilização dos povos do Baixo e Médio Tapajós é reconhecida como expressão concreta da Ecologia Integral, vivida nos territórios. Inspirada na encíclica Laudato Si’, a carta reafirma que a água é dom sagrado e não pode ser submetida à lógica do lucro.

Os clamores por “Tapajós, Madeira e Tocantins Livres” ecoam como anúncio e denúncia — um chamado à defesa da vida onde ela nasce e se sustenta. A Articulação conclui reafirmando que não há Ecologia Integral sem justiça para os povos e que não há futuro para a Amazônia sem rios livres e povos livres.

A REPAM-Brasil soma-se às vozes que ecoam nos territórios, reafirmando seu compromisso com a defesa dos povos amazônicos, da água como direito e da Casa Comum como espaço de vida digna para todas e todos.

Confira a carta completa – Carta da Articulação das CPT’s da Amazônia em apoio à ocupação dos povos do Baixo e Médio Tapajós – Comissão Pastoral da Terra – CPT

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