Entre rios, várzeas e palmeirais, o arquipélago do Marajó, no Pará, guarda histórias que se confundem com o próprio pulso da Amazônia. No município de Afuá, conhecido como a “Veneza marajoara” por suas casas suspensas sobre palafitas, vive um ribeirinho que se tornou símbolo da luta contra os impactos das mudanças climáticas.
Rafael Monteiro, morador do Rio Guajará, ele vive do que o rio oferece, mas o rio já não é o mesmo. “A gente sente na pele as mudanças. As águas não sobem mais como antes, o peixe morre com o calor, o açaí não amadurece no mesmo tempo. Tudo ficou diferente”, descreve.

A produção do açaí, principal fonte de renda da região, tem sofrido com a alteração dos ciclos das marés e o aumento das temperaturas. “O que acontece com o clima não é coisa distante pra nós. É o que muda a nossa comida, o nosso trabalho, o nosso dia a dia.”
Nos últimos anos, ele tem participado de formações e encontros promovidos pela Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), que apoia comunidades ribeirinhas e extrativistas a compreender e enfrentar os efeitos da crise climática. “A REPAM chega junto, escuta a gente.
Eles nos ajudam a entender que o que está acontecendo aqui faz parte de um problema global”, explica. Agora, ele se prepara para levar esse testemunho à COP30, em Belém. Para ele, a conferência é uma oportunidade de mostrar ao mundo que as consequências das decisões econômicas e ambientais recaem sobre os mais vulneráveis.
“A gente quer ser ouvido. O que acontece aqui é resultado do que se decide lá fora”, afirma. O relato do ribeirinho é um retrato fiel do que vem ocorrendo em dezenas de comunidades amazônicas. As águas mais quentes, a pesca escassa e o açaí imprevisível não são apenas fenômenos climáticos, são sinais de uma mudança que ameaça o modo de vida inteiro.
“Desejo que as grandes potências pensem que este é o único mundo que temos”, diz, com a voz calma, mas carregada de urgência. Enquanto o Marajó segue dividido entre enchentes e secas, ele se torna uma ponte entre o local e o global. Entre o rio que sustenta sua casa e o mundo que precisa aprender, depressa, a respeitar o ritmo das marés.