Por Jerusa Aguiar1
A defesa dos direitos humanos no Pará acontece em territórios marcados por conflitos, pressões econômicas, disputas de terra e ameaças constantes. Lideranças comunitárias, indígenas, quilombolas, ribeirinhas, agricultores, comunicadores populares e tantas outras pessoas que sustentam suas comunidades atuam diariamente para garantir direitos, proteger a terra, a floresta e a vida. Essa atuação essencial, porém, coloca defensoras e defensores em situações permanentes de risco, que afetam não apenas a segurança física, mas também a saúde emocional e o equilíbrio coletivo. Por isso, reconhecer o cuidado em saúde mental como parte da proteção é fundamental para que essas lutas possam continuar.
Para entender a importância desse cuidado, é preciso conhecer a Política de Proteção a Defensoras e Defensores de Direitos Humanos (PPDDH). Criada em 2004, a política reconhece que qualquer pessoa que defende direitos coletivos, territórios e modos de vida é defensora de direitos humanos e, se ameaçada em decorrência da sua atuação militante, deve ser protegida pelo Estado. Um aspecto central dessa política é que ela não funciona isolada. O Programa atua articulando as políticas públicas já existentes, como assistência social, saúde, segurança pública, justiça, educação e outras redes institucionais. O PPDDH não substitui os serviços públicos, mas ajuda defensoras e defensores a acessá-los, orienta a rede institucional e constrói estratégias de proteção adaptadas a cada território.
É nessa perspectiva que a Psicologia atua no PPDDH/PA. O trabalho não é terapêutico, mas uma escuta qualificada que compreende o sofrimento como consequência das ameaças e das condições sociais em que vive cada defensor (a). A Psicologia avalia impactos emocionais, identifica redes de apoio, orienta sobre acesso às políticas públicas e ajuda a construir alternativas viáveis, respeitando as limitações e potências de cada localidade. Isso evita recomendações impraticáveis, como exigir presença frequente em serviços distantes, e valoriza práticas comunitárias que já fazem parte da vida da comunidade.
Assim, o cuidado em saúde mental no campo da proteção se organiza em três dimensões interligadas:
A primeira é o cuidado individual, que envolve reconhecer os próprios limites, emoções e necessidades. Isso inclui distribuir tarefas entre as lideranças para evitar sobrecarga, praticar o autocuidado no cotidiano e entender o descanso como parte fundamental da proteção.
A segunda é o cuidado coletivo, que acontece por meio das redes comunitárias, das tradições de cura, de manifestações religiosas ou espirituais, das alianças no território e das práticas de apoio mútuo que fortalecem o grupo. Para que isso funcione no dia a dia, é importante que cada defensor e defensora identifique quem são as pessoas e grupos que podem oferecer ajuda em seu território. Com esse mapeamento, é possível organizar ações como grupos de vigilância solidária, revezamento de companhia, visitas e formas simples de comunicação colaborativa, criando uma rede de proteção mais forte e presente. Reforçar a importância da proteção coletiva, discutindo medidas de segurança comunitária como iluminação adequada na comunidade, meios de comunicação e rotas seguras.
A terceira é o cuidado institucional, que exige compromisso do Estado em fortalecer essas práticas, garantir acesso às políticas públicas e apoiar encaminhamentos quando necessário, especialmente em casos de agravamento do sofrimento psíquico, como crises de ansiedade intensa, transtornos decorrentes de traumas, depressão severa ou situações que indiquem risco à integridade emocional ou física da pessoa. Quando esses três níveis se fortalecem, a proteção se torna mais efetiva, mais humana e mais próxima da realidade de cada território.
Defensoras e defensores de direitos humanos são fundamentais para a justiça social, a preservação ambiental e a pluralidade democrática. Promover o bem viver, fortalecer as redes de apoio comunitário, valorizar os saberes tradicionais e reconhecer que o território é espaço de cuidado são caminhos concretos para garantir que defensoras e defensores de direitos humanos não enfrentem sozinhos as pressões, ameaças e violências que recaem sobre sua atuação.
Proteger quem protege é reafirmar o compromisso com a dignidade humana, com a vida dos povos da Amazônia e com o futuro democrático que queremos construir.
**Psicóloga (CRP10/09164), especialista em Psicologia do Luto (PUC-SP) e mestranda em Psicologia Social pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Atua como Técnica Social no PPDDH/PA e UNIPOP.

