Publicada em janeiro de 2026, a Décima Segunda Carta do Presidente da COP30 propõe uma reflexão profunda sobre os rumos do multilateralismo climático no período pós-COP30, realizada em Belém, no coração da Amazônia. Em um cenário marcado pela intensificação da crise climática e por transformações sistêmicas globais, o documento reafirma a centralidade da implementação, da justiça climática e da participação social como pilares indispensáveis para enfrentar os desafios do nosso tempo.
A carta também destaca o protagonismo do Brasil no debate climático internacional, a urgência de respostas articuladas entre governos e sociedade civil e a necessidade de um multilateralismo capaz de evoluir, operar em novas velocidades e conectar decisões globais às realidades dos territórios. Ao colocar a vida, os povos e os ecossistemas no centro da agenda climática, o texto dialoga diretamente com os princípios da ecologia integral e com os desafios vividos especialmente na Amazônia.
Prezadas amigas, prezados amigos,
As primeiras semanas de 2026 já evidenciam que estamos diante de uma encruzilhada histórica para a humanidade. As transformações no sistema climático global passam, cada vez mais, a se sobrepor às mudanças nos sistemas humanos. No contexto posterior à Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima realizada em Belém (COP30), em novembro de 2025, torna-se fundamental refletir sobre o que a COP30 representou para o multilateralismo climático e para a governança global em sentido mais amplo.
Vivemos um momento marcado por transições sistêmicas profundas — na geopolítica, nas sociedades, nas economias, nas finanças, nas culturas, na tecnologia e nos sistemas de informação. A urgência climática não aguardará que as condições políticas e socioeconômicas se tornem ideais. Ainda assim, a COP30 demonstrou que um novo modelo de resposta global está em formação: profundamente conectado ao seu contexto e cada vez mais orientado à implementação, assim como já o são os impactos do aquecimento global.
A ação climática deixou de depender exclusivamente de decisões por decreto ou de negociações restritas a fóruns internacionais. Ultrapassou, de forma irreversível, os limites do direito internacional, das salas de negociação e dos relatórios técnicos. De um tema de nicho, passou ao centro das agendas globais, criando as condições para uma transição estrutural em direção a um desenvolvimento de baixo carbono e resiliente ao clima.
Os limites e a evolução do multilateralismo climático
A COP30 também lançou luz sobre os limites do multilateralismo climático e da tomada de decisões por consenso. À medida que avançamos em 2026, é fundamental que esses limites sejam compreendidos não como barreiras intransponíveis, mas como sinais de maturidade de um sistema pronto para evoluir.
Para acompanhar o ritmo do aquecimento global, o multilateralismo precisa aprender a operar em mais de uma velocidade institucional. Inspirados pela tradição afro-brasileira e pela sabedoria iorubá, na figura de Ogum — o ferreiro —, compreendemos que os momentos de transição não são aqueles em que o ferro se rompe, mas em que ele é colocado na forja. O multilateralismo climático chegou a esse ponto.
O que a COP30 alcançou: da negociação à implementação
Em um cenário de desafios geopolíticos e socioeconômicos crescentes e interligados, a COP30 promoveu, de forma decisiva, a transição de um regime climático centrado por quase três décadas na negociação para uma nova era orientada à implementação — indo mais longe e mais rápido.
Por iniciativa do Brasil e sob o chamado direto do Presidente Lula, a COP30 — a “COP da Verdade” — fomentou um debate inédito sobre a dependência global dos combustíveis fósseis. Assumi, como Presidente da COP30, o compromisso de desenvolver roteiros para uma transição justa, ordenada e equitativa dos combustíveis fósseis, bem como para interromper e reverter o desmatamento. A estabilidade futura depende da nossa capacidade de planejar, desde já, essas transições inevitáveis.
Guiada por seu objetivo triplo de fortalecer o multilateralismo, conectá-lo às pessoas e acelerar a implementação, a COP30 impulsionou a ação climática em quatro frentes principais: (i) mobilização global; (ii) Agenda de Ação; (iii) Cúpula de Líderes; e (iv) negociações formais.
Mobilização global e participação social
A mobilização global promovida pela COP30 buscou aproximar a Convenção do Clima do cotidiano das pessoas, tendo a inclusão como pilar estrutural. O Mutirão Global tornou-se um dos processos mais participativos da história das COPs, unindo governos, instituições, movimentos sociais e cidadãos em todos os continentes.
No Brasil, iniciativas como as “COPs dos Biomas” e centenas de atividades da sociedade civil ampliaram a participação de comunidades tradicionais, povos indígenas, estudantes, movimentos sociais e centros de pesquisa. À medida que uma iniciativa comunitária se conectava a outra, o mutirão transformou-se em uma verdadeira ação em cadeia. No ambiente digital, a mobilização alcançou quase 200 milhões de pessoas.
Em Belém, a Zona Verde consolidou-se como um ecossistema de inovação social, recebendo cerca de 300 mil visitantes. A Cúpula dos Povos, a Aldeia Indígena da COP30, dezenas de Casas Temáticas e a Marcha Global pelo Clima demonstraram que a força da ação climática emerge quando povos, territórios e sistemas de conhecimento se unem.
A COP da implementação e os avanços concretos
A COP30 consolidou-se como a COP da Implementação, ao mesmo tempo em que reforçou o papel central de governos subnacionais e de atores não estatais. A Agenda de Ação mobilizou mais de 480 iniciativas envolvendo 190 países. Entre os avanços, destaca-se a capitalização inicial superior a US$ 6,6 bilhões do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF).
As negociações formais resultaram na adoção de 56 decisões por consenso e reafirmaram o compromisso global com os 10 anos do Acordo de Paris. Mais de 120 países apresentaram novas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), com maior qualidade e ambição.
A COP30 também avançou de forma significativa na agenda da adaptação, com a definição de indicadores para o Objetivo Global de Adaptação, o chamado para triplicar o financiamento para adaptação até 2035 e o fortalecimento de mecanismos de transição justa, inclusão de Povos Indígenas e comunidades afrodescendentes, além de novos diálogos sobre financiamento, tecnologia, comércio e clima.
Escolher o futuro: responder à urgência climática
Às vésperas da COP30, convidei a comunidade internacional a encarar o objetivo de manter o aquecimento global em até 1,5°C não como uma escolha política, mas como um imperativo científico e humanitário. Dados recentes confirmam que esse limite poderá ser alcançado ainda nesta década, reforçando a urgência de respostas rápidas e coordenadas.
Responder a essa pressão evolutiva não significa abandonar o multilateralismo, mas permitir que ele amadureça. A cooperação climática pode — e deve — tornar-se um exemplo de governança capaz de entregar resultados concretos em um contexto de urgência e complexidade.
Um multilateralismo em dois níveis
Defendo que o multilateralismo climático evolua para operar em duas velocidades complementares: uma ancorada no consenso, garantindo legitimidade, universalidade e segurança jurídica; e outra voltada à implementação, permitindo que coalizões voluntárias avancem com rapidez, escala e aprendizado coletivo.
O novo Acelerador Global de Implementação surge como um protótipo dessa nova dinâmica, com potencial para acelerar soluções, mobilizar recursos e assegurar que ninguém fique para trás.
Um chamado à ação conjunta
À medida que avançamos em uma era de transições profundas, precisamos assegurar que a ação prevaleça sobre o medo. A resposta à mudança do clima já não depende de autorização formal nem está confinada a um único país, ator ou setor. Ela é hoje um movimento irreversível, capaz de unir a humanidade em torno de um propósito comum: mudar por escolha, juntos.
André Aranha Corrêa do Lago
Presidente Designado da COP30

