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O feminicídio continua sendo uma das mais sérias formas de violência de gênero no Brasil, com a Amazônia apresentando índices ainda mais alarmantes. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre 2015 e 2023, pelo menos 10.655 mulheres foram vítimas desse crime. Apenas no ano passado, 1.463 mulheres foram assassinadas, um aumento de 1,4% em relação a 2022, o que representa mais de quatro mortes por dia. O estado de Mato Grosso lidera o país com 2,5 mortes por 100 mil mulheres, seguido pelo Acre, Rondônia e Tocantins, com 2,4 por 100 mil. 

Na Amazônia, a situação é ainda mais grave. O estudo “Cartografias da Violência na Amazônia” revelou que a taxa de feminicídio na região é 30,8% superior à média nacional, atingindo 1,8 mortes para cada 100 mil mulheres. Além disso, os povos indígenas são especialmente vulneráveis. Em 2021, 200 indígenas foram mortos no país, sendo que 114 dessas mortes ocorreram na Amazônia Legal. A taxa de mortes violentas de indígenas na região é 26% maior do que no restante do país. No contexto da implantação de projetos de infraestrutura e invasões de terras para exploração ilegal de recursos naturais e minerais, as mulheres, juntamente com crianças, adolescentes e jovens, são as maiores vítimas de violência em seus direitos, corpos e territórios. 

Para Mercy, mulher cirandeira da REPAM-Brasil e membro do serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental – SARES, a realidade das mulheres amazônicas é de extrema vulnerabilidade. “É alarmante a taxa de feminicídio na Amazônia. Muitos de nós estão sendo assassinados. Apesar de iniciativas como o Instituto Mãe Crioula e o Fórum Permanente das Mulheres de Manaus, os desafios são enormes. Um dos maiores obstáculos é a falta de recursos e financiamento. Nós, do SARES, enfrentamos dificuldades para financiar projetos de apoio às mulheres. Esta é uma realidade brutal: enquanto o número de mulheres assassinadas aumenta, os serviços de proteção e acolhimento são ignorados pelo poder público. Como podemos reforçar o feminicídio sem delegações especializadas, casas de apoio, e atendimento psicológico e jurídico adequadas? Como salvar vidas sem recursos? Muitas organizações e serviços que lutam contra a violência às mulheres na Amazônia lutam para sobreviver, enquanto o Estado permanece ausente ou omisso”. 

“Quando a floresta cai, caem também nossos direitos. O desmatamento e a exploração predatória geram conflitos de terra, ampliam o tráfico de pessoas, a exploração sexual e o trabalho escravo. As mulheres são as primeiras a sentir esse impacto, pois dependem mais da terra para produzir, alimentar suas famílias e manter a vida comunitária. Nossa luta não é apenas por justiça, é pela sobrevivência. O feminicídio na Amazônia é um massacre silencioso, e nós não ficaremos em silêncio. Continuamos na resistência, porque o medo não nos parará”. 

Joana Menezes, articuladora da REPAM (Rede Eclesial Pan-Amazônica), destaca a importância da informação e da capacitação no sistema de segurança pública: “O maior desafio para combater o feminicídio ainda é a falta de informação. espaços políticos e produtivos.” 

Diante dessa realidade, as mulheres da Amazônia continuam resistindo e se mobilizando. No próximo dia 8 de março, ocorrerão em toda a Amazônia e em diversas partes do Brasil, atos, manifestações, debates, incluindo a Marcha das Mulheres, e também a Marcha das Mulheres Indígenas. O movimento reforça que “o medo não nos calará”, em uma região onde a luta das mulheres está diretamente ligada à defesa do território, aos direitos e à própria sobrevivência. 

Acompanhe e participe das mobilizações em sua região. Confira aqui.  

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