Com base nas reflexões de Charles Câmara sobre o decreto missionário do Vaticano II
Em dezembro de 2025, celebram-se os 60 anos do decreto Ad gentes, um dos grandes marcos do Concílio Vaticano II sobre a identidade missionária da Igreja. Fruto de intenso discernimento pastoral e teológico, o documento abriu novos horizontes ao afirmar que toda a Igreja é missionária por natureza, chamada a testemunhar o Evangelho com palavras e ações, em diálogo com os povos e suas culturas.
Se no passado se falava sobretudo de missio ad gentes, voltada às “nações”, hoje a missão é entendida também como presença entre os povos — intra gentes, marcada pela escuta, pela convivência, pelo cuidado e pelo compromisso com a justiça e a dignidade humana. Essa virada, destacada ao longo de décadas de reflexão e aprofundada nos caminhos da Pan-Amazônia, recorda que a missão não é uma tarefa distante, mas uma identidade compartilhada por toda pessoa batizada.
O Papa Francisco retoma essa intuição quando afirma, na Evangelii Gaudium 273:
“Eu sou uma missão” – cada pessoa é chamada a viver sua fé como serviço, comunhão e testemunho.
Na Amazônia, essa perspectiva ganha força renovada: uma Igreja que caminha com os povos, que aprende, anuncia, defende a vida e cuida da Casa Comum. Uma Igreja que evangeliza ao mesmo tempo em que se deixa evangelizar pela riqueza cultural, espiritual e comunitária dos territórios amazônicos.
A celebração dos 60 anos de Ad gentes é, portanto, um convite a reconhecer o caminho já percorrido e a renovar o compromisso missionário como diálogo, presença, defesa dos povos e construção de esperança – aqui, agora e entre as gentes.

